MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

Antigamente os governantes controlavam as pessoas através da violência. Quem desobedecia era açoitado ou queimado vivo, ou colocado em um pelourinho em praça pública. Mas com o tempo os governantes descobriram uma maneira mais fácil, mais eficiente e menos trabalhosa. Um filme com Michael Douglas resumiu muito bem o método na seguinte frase: “Políticos só estão preocupados com duas coisas. A primeira é deixar as pessoas com medo. A segunda é convencer as pessoas de que eles, políticos, são a solução para esse medo.”

Não faz muito tempo, falei sobre uma fantasia chamada “contrato social”. É uma das racionalizações que as pessoas usam para ajudá-las a acreditar que se elas forem boazinhas e fizerem tudo que o governo mandar, elas estarão protegidas e seguras, e não precisarão “sentir medo”. Na prática, os resultados costumam ser ruins.

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Na Califórnia, a idéia de “nós pagamos impostos para o governo nos dar coisas de graça” é levada ao extremo. É o estado com a maior carga tributária dos EUA, e o estado se intromete em absolutamente tudo (recentemente um jornalista de lá contou que foram precisos oito meses e quatro visitas de fiscais da prefeitura de Los Angeles para ele ser “autorizado” a trocar o portão da garagem da sua casa).

O serviço dos bombeiros é um dos exemplos que costumam ser citados pelos defensores do estado. Em um estado tão rico, seria de se esperar um serviço “de primeiro mundo”, não é? Bem, embora a temporada de incêndios florestais seja quase tão previsível quanto as temporadas de futebol e de basquete, todo ano vemos a completa incompetência do governo em resolver o problema. O chefe dos bombeiros de Los Angeles ganhou mais de 800.000 dólares de salário em 2024 (na cotação de hoje, seriam 400.000 reais por mês), mas está reclamando que a prefeita reduziu as verbas do seu departamento devido à “crise orçamentária”. Enquanto isso, a prefeita esta semana esteve em Gana, na África, em viagem paga pelos contribuintes, para prestigiar a cerimônia de posse do novo presidente, algo que certamente interessa muito aos moradores de L.A. E enquanto isso o fogo continua destruíndo casas enquanto surgem relatos de hidrantes sem água e falta de equipamentos.

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Além dos bombeiros, outra coisa em que nós dependemos do estado é a polícia, não é? Afinal, quem senão ela vai nos proteger dos criminosos e fazer cumprir a lei?

Na Inglaterra, veio a público a existência de gangues formadas predominantemente por homens de origem paquistanesa que montaram um esquema de tráfico humano que manteve milhares de meninas aprisionadas como escravas sexuais, muitas delas submetidas a estupros sistemáticos durante anos. Documentos mostraram que estas gangues foram alvo de investigação pela polícia inglesa em três ocasiões, e em todas elas as autoridades, juntamente com os políticos, optaram por encobrir o caso por medo de que a opinião pública enxergasse o caso como racismo.

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Enquanto isso, o dono do Facebook, Instagram e Whatsapp, Mark Zuckerberg, anunciou que a empresa vai parar de usar “certificadores” para classificar coisas em suas redes sociais como “fake news”. No mundo todo, e aqui no Brasil, muitos estão indignados. Afinal, como podemos viver sem alguém tomando conta daquilo que lemos? Será que teremos (oh horror!) que ser responsáveis por nós mesmos? Será que teremos que decidir por nós mesmos o que ler?

O conceito de alguém “certificar” aquilo que a imprensa publica era completamente desconhecido até poucos anos atrás, e os leitores selecionavam o que liam com base em algo chamado “reputação”. Agora, quando uma empresa diz que vai desistir dos “checadores”, surgem gritos desesperados falando até em “soberania nacional”. Um jornalista que por acaso assisti essa semana falou em “retorno aos tempos da Idade Média, sem leis e sem regras” (não sei de onde ele tirou a idéia de que na Idade Média não havia leis). Vozes anunciam o fim do mundo por conta da suposta proliferação do “discurso de ódio”.

Enquanto isso, um ministro do STF mandou proibir e destruir todos os exemplares de quatro livros publicados por uma tal Conceito Editorial. Afinal, brasileiro não gosta muito de livro mesmo, e a maioria dos cidadãos acha que uma das funções da justiça é exatamente censurar e proibir as pessoas de ler ou ver coisas “inadequadas”.

A questão é que estamos acostumados com a idéia confortável de ter um governo tomando conta de nós, e de preferência impondo nosso ponto de vista aos outros. Quando o governo defende pontos de vista diferentes, muita gente reclama, mas não ao ponto de pedir menos governo. O choro é sempre pela mudança para o governo “certo”. E a liberdade é algo que cada vez mais causa medo.

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