CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

… último domingo do ano de 2021

Uma poesia dedicada à todos os fubânicos.

Desejos – Sergio Jockymann

Desejo primeiro que você ame,
E que amando, também seja amado.
E que se não for, seja breve em esquecer.
E que esquecendo, não guarde mágoa.

Desejo, pois, que não seja assim,
Mas se for, saiba ser sem desesperar.

Desejo também que tenha amigos,
Que mesmo maus e inconsequentes,
Sejam corajosos e fiéis,
E que pelo menos num deles
Você possa confiar sem duvidar.

E porque a vida é assim,
Desejo ainda que você tenha inimigos.
Nem muitos, nem poucos,
Mas na medida exata para que, algumas vezes,
Você se interpele a respeito
De suas próprias certezas.
E que entre eles, haja pelo menos um que seja justo,
Para que você não se sinta demasiado seguro.

Desejo depois que você seja útil,
Mas não insubstituível.
E que nos maus momentos,
Quando não restar mais nada,
Essa utilidade seja suficiente para manter você de pé.

Desejo ainda que você seja tolerante,
Não com os que erram pouco, porque isso é fácil,
Mas com os que erram muito e irremediavelmente,
E que fazendo bom uso dessa tolerância,
Você sirva de exemplo aos outros.

Desejo que você, sendo jovem,
Não amadureça depressa demais,
E que sendo maduro, não insista em rejuvenescer
E que sendo velho, não se dedique ao desespero.
Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor
É preciso deixar que eles escorram por entre nós.

Desejo, por sinal, que você seja triste,
Não o ano todo, mas apenas um dia.
Mas que nesse dia descubra que o riso diário é bom,
O riso habitual é insosso (sem tempero) e o riso constante é insano.

Desejo que você descubra,
Com o máximo de urgência,
Acima e a respeito de tudo, que existem oprimidos,
Injustiçados e infelizes, e que estão à sua volta.

Desejo ainda que você afague um gato,
Alimente um cuco e ouça um joão-de-barro
Porque assim você se sentirá bem por nada.

Desejo também que você plante uma semente,
Por mais minúscula que seja,
E acompanhe o seu crescimento,
Para que você saiba de quantas
Muitas vidas é feita uma árvore.

Desejo, outrossim, que você tenha dinheiro,
Porque é preciso ser prático.
E que pelo menos uma vez por ano
Coloque um pouco dele
Na sua frente e diga “Isso é meu”,
Só para que fique bem claro quem é o dono de quem.

Desejo também que nenhum de seus entes queridos morra,
Por ele e por você,
Mas que se morrer, você possa chorar
Sem se lamentar e sofrer sem se culpar.

Desejo por fim que você sendo homem,
Tenha uma boa mulher,
E que sendo mulher,
Tenha um bom homem
E que se amem hoje, amanhã e nos dias seguintes,
E quando estiverem exaustos e sorridentes,
Ainda haja amor para recomeçar.
E se tudo isso acontecer,
Não tenho mais nada a te desejar.

15 pensou em “SCHIRLEY – CURITIBA-PR

  1. Muito bonito, Schirley!
    Que brote, então, a semente do amor em cada desejo e se espalhe pelos terrenos férteis de todos os corações.

  2. Querida Schirley,

    Vale a dedicatória ao Domingo de Natal para todos os leitores e leitoras fubânicos.

    Junto segue essa linda página musical do filósofo Falcão: “A Besteira é a base da Sabedoria.”

    https://www.youtube.com/watch?v=Ao4kNuhmQX8

    Talvez seja melhor calar

    Porque falando é meio caminho andado

    Por outro lado, eu fiz um estudo

    E sei que é melhor falar besteira do que ser mudo

    E sendo eu um grande entendido no assunto

    Eu paro e vejo como tem gente besta no mundo

    E sinto quão sábia é a vaca

    Que segue cagando e andando pra não fazer ruma

    Mas eu posso ver mais longe

    Sobre a cabeça do povo

    Mamãe diz que eu sou um pão

    E o que vale é a intenção

    Composição: Falcão / Tarcísio Matos

    Excelente domingo para você, Lindona, como dizia minha Avó Dinda, ex escrava alforriada, encantada aos 110 anos sem perder o escracho.

  3. “A besteira é a base da sabedoria”.

    Pois é Cícero. Nem só de caviar vive o homem.

    O que veio de você e tomei pra mim,

    Abraçação

      • Nem só de cocos vive um Sancho, pois cabe sempre, nas horas de ócio, tempo para a prosa gostosa com a moça das araucárias.

        “On n’a pas toujours du caviar”, de Johannes Mario Simmel. Confesso minha total má vontade para com os tradutores (traduttore, traditore), pois o título em português não “encaixa” na narração e muito menos se for o leitor literal na tradução de Es muß nicht immer Kaviar. Prefiro a tradução francesa “On n’a pas toujours du caviar”…

        • Ora pois Luiz Carlos.
          Lembre que nem todos possuem o vasto conhecimento de Sancho.

          É mais fácil você se nivelar aos menos “conhecedores” do que estes alcançarem Sancho.

          A única língua universal é o amor.

          • Ah, a moça sempre “zangada” com Sancho… Pois me defendo: um cabra ao se meter a “tradutor” deve fazer o “dever de casa” e garimpar, pois eles, os tradutores se perdem exatamente por não irem fundo em suas pesquisas:
            Vejamos o caso do país de Cervantes…No país ibérico temos Catalão (Catalão – língua materna de minha Catharina, é falado na região da Catalunha, e falado em Valência, onde é chamado de valenciano; tal idioma também é conhecido como mallorquín nas Ilhas Baleares), español, Galego (Galego é falado na região da Galícia) e Vasco (Vasco é falado no País Basco e também na cidade de Navarra, que também é chamado de Euskera). Há, ainda, dialetos, que são: Bable e Aragonês.

            Aí vem um cabra e traduz texto espanhol sem as nuances e particularidades de onde nasceu o autor ou onde foi produzida a obra. Simples assim.

            Vou dar um exemplo que a moça erá que pesquisar; pegue a obra de Cervantes em espanhol e leia as falas de Sancho; aquilo é pura loucura (utiliza uma série de provérbios enunciados em seqüência, sem relação semântica explícita com a situação narrativa em questão – segundo ele mesmo: “No tengo caudal alguno, sino refranes y más refranes” (DQ II, XLII).)

            Ni yo lo digo ni lo pienso – respondió Sancho –. Allá se lohayan, con su pan se lo coman: si fueron amancebados ono, a Dios habrán dado la cuenta. De mis viñas vengo, nosé nada, no soy amigo de saber vidas ajenas, que el que compra y miente, en su bolsa lo siente. Cuanto más, quedes nudo nací, desnudo me hallo: ni pierdo ni gano. Masque lo fuesen, ¿qué me va a mí? Y muchos piensan que haytocinos, y no hay estacas. Mas ¿quién puede poner puertasal campo? Cuanto más que de Dios dijeron.

            Sempre, até sempre

            • Sim, Sancho. Muitas nuances. Como os dialetos das comunas italianas.
              Mas se todos forem se preocupar com os tradutores ninguém lê mais.
              Você é um louco (no bom sentido) e admiro isso. Fico surpresa com todo conhecimento que você tem e sempre buscando mais. Sempre aprendo alguma com você. Não estou zangada. Impossível ficar zangada com o menino dos cocos.

              Seu cérebro terá que ser estudado algum dia.

              Sua admiradora sempre, até sempre.

  4. Parabéns, querida Schirley, pela postagem do belíssimo poema “Desejos” – Sergio Jockymann, neste último domingo do ano de 2021, dedicado a todos os amigo fubânicos, entre os quais me incluo. Obrigada!
    Que todos os desejos contidos nesse poema se realizem para todos nós, inclusive você!

    Meus votos de um Venturoso Ano Novo, para você e sua família! Muitas realizações, Saúde e Paz!

    Grande abraço!

  5. Carísima Schirley,

    Escreves

    (…)Desejo ainda que você seja tolerante,
    Não com os que erram pouco, porque isso é fácil,
    Mas com os que erram muito e irremediavelmente, (…)

    E hás que relevar os muitos erros sanchianos…

    Como erra muito e irremediavelmente o “feliz” sujeito…

    Erra porque sucumbiu a muitos vícios (bebida, prostitutas, bordeis, jogatina, noitadas, motel e “matel”, festas à fantasia, luxúria, brigas de bar, banho de mar e um largo etcétera.

    De nenhum de tais vícios se regenerou o cabra, pois aprendeu lá pelas bandas de Trindade-RJ, com um guru, que vivia em uma nuvem de marihuana vendo discos voadores, que pecado é não pecar).

    A vida sussurrou em minha orelha: “nunca se arrependa do que lhe trouxe felicidade ou prazer; se fez sorrir ou gozar, é porque valeu a pena!”

    Orai por Sancho a amiga certa das horas incertas. Mas (perdoável mas), ninguém que conheço é mais camarada do que Sancho; ou prestativo; ou generoso; ou pronto para entrar em briga de amigo como se fosse do próprio, não importando quantos dentes iriam ficar pelo caminho.

    Sempre, até sempre

    • Quem sou eu para relevar os muitos “erros” sanchianos ?

      Você mesmo colocou: “nunca se arrependa”.

      Se você não se arrepende de sua tresloucada vida e esta fez de você o que é hoje (camarada, prestativo, generoso e se necessário for, banguela) a moça das araucárias só tem a agradecer.

      Até sempre, sempre

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