
Antiga feira-livre de Nova-Cruz, na Rua Grande
Antigamente (décadas de 50, 60 e 70), a feira-livre municipal, de Nova-Cruz acontecia às segundas-feiras, na chamada Rua Grande, principal rua da cidade, que ia até a frente da Matriz da Imaculada Conceição. Essa feira contribuiu muito para o progresso da cidade. Atraía feirantes da redondeza e até de cidade vizinhas.
A Rede Ferroviária, que hoje já não existe em Nova-Cruz, cortava a cidade e garantia a sua comunicação com outros centros produtores, fazendo daquela feira o acontecimento de maior importância em toda a região Agreste. Atraía muitos produtores e feirantes.
Lembrando a feira de Caruaru, a feira-livre de Nova-Cruz também tinha uma grande variedade de mercadorias. Tinha fumo de rolo, arreio de cangalha, selas, cabresto de cavalo, farinha, rapadura, aratu, “avoador”, “caico” , ginga, beiju, tapioca, grude, doce americano (geleia de coco), abano, peneira, quartinha, panela de barro, esteira, cesta, balaio, frutas e verduras, coco seco, cereais e até miudezas.
O armazém de secos e molhados do nosso pai, Francisco Bezerra, ficava localizado no melhor ponto da Rua Grande, e era um verdadeiro camarote, de onde se via tudo o que acontecia naquelas imediações.
Havia camelôs fazendo propaganda e vendendo remédios para lombriga, espinhela caída, reumatismo, “difruço” (defluxo ou catarro), “estalecido” (coriza ou gripe), dor nas “oiça” (dor de ouvido), “morróida de botão” (hemorróidas), “comichão nas partes”, azia ou queima na boca do “estrombo” (estômago) frieira, para congestão (AVC) e outras mazelas.
Havia na feira um “doutor”, “especialista” em tirar, com ácido, “sinais de carne”, que hoje seriam considerados “carcinomas”, mas naquela época não se falava nisso. Até pessoas mais esclarecidas se sujeitavam a tirar “sinais”, principalmente no rosto. Meus saudosos tios Paulo Bezerra e Eulina Bezerra, chegaram a tirar aí alguns sinais, e a recuperação foi rápida e perfeita.
Havia um camelô que levava uma mala cheia de óculos de grau para vender na feira, e a mala voltava vazia. A maioria dos feirantes não tinha acesso a oculistas, salvo na capital do Estado, e por isso não hesitavam em comprar óculos sem receita médica. Provavam vários óculos, até que alguns dessem certo. O teste era feito com a leitura das letras miúdas de uma caixinha de fósforos “marca olho”.
No “pé da calçada” do armazém do nosso pai, havia algumas barracas que vendiam refeições. O cardápio era sempre o mesmo: picado (sarapatel), arroz mole e carne de bode guisada, tudo com muito colorau e gordura. O cheiro da comida invadia as nossas narinas, mas nunca provamos o gosto. Os feirantes almoçavam nessas barracas, e tomavam ponche de maracujá, com pedaços de gelo em barra, que vinha de fora, em caixotes, e cobertos com “pó de serra”, para não derreter. Nova-Cruz ainda não tinha energia elétrica nem água encanada. Nessas barracas também havia bolo branco (hoje chamado bolo da moça), broas, sodas, doce americano (geleia de coco) e cocorote.
Outro espetáculo hilário, que também havia na feira, precisamente na calçada do armazém do nosso pai, era o desafio estabelecido entre os ceguinhos que ali pediam esmolas. Eles disputavam o ponto e se agrediam mutuamente, com insultos e cantorias, às vezes, engraçados e picantes.
As cantigas de cego, antigamente, eram verdadeiras manifestações da cultura popular, sem influência de rádio e, muito menos, de televisão. A inteligência, um dom nato, fazia com que eles procurassem emocionar os feirantes, mostrando-se infelizes e desejando o bem àqueles que lhes davam esmolas. Cantavam se acompanhando por um ganzá ou reco-reco.
Havia uma cega, Dona Zefa, que, há anos, pedia esmolas na feira, fazendo ponto na calçada do armazém do nosso pai. Não admitia concorrente. Uma vez por outra, ela entrava em choque com qualquer outro cego que quisesse ocupar o seu espaço.
Num certo dia, apareceu na calçada um ceguinho novato e desconhecido, querendo pedir esmolas perto de Dona Zefa. Mas ela o expulsou aos gritos.
E começou a sua “ladainha”:
– Uma esmola pelo amor de Deus, pra quem não vê a luz do dia !!!
Recebeu a esmola e respondeu cantando:
Deus lhe pague a santa esmola
Quem me deu com alegria,
Nossa Senhora do Ó,
Nossa Senhora da Guia!
Depois, dona Zefa começou a cantar sua cantiga mais engraçada, e que sempre provocava riso nas pessoas que ali estavam:
Sete vezes fui casada
Sete homens conheci
Juro por nossa senhora
Sou virgem como eu nasci!!!”
O ceguinho que tinha sido expulso por ela, mas ainda permanecia ali, respondeu o repente:
Nada disso se “expilica”
Isso tudo é mutreta
Esses homens eram capados
Vosmicê tá com falseta.
Juntou gente para assistir esse desafio, e houve até gargalhadas.
A segunda -feira, em Nova-Cruz, era um dia de alegria, que nos transmitia cultura popular, com show dos feirantes, às vezes verdadeiros artistas, com suas cantorias e desafios, acompanhados por rabeca e ganzá.
A saudade desse tempo feliz, quando todos estavam vivos, não sai do meu coração e do meu pensamento.
Viva Nova-Cruz!!!
Sou paraibano de Caiçara PB onde nasci e meus pais migraram para a Cidade de Nova Cruz, onde cheguei aos 07 meses, hoje radicalizado no Recife, mas sempre retorno para visitar amigos e familiares, lembro de tudo que foi muito bem relatado pela publicação de Violante, foi mais um erro praticado pelos gestores de então, pois aquela feira poderia ter permanecido no mesmo local e hoje não tenho dúvida seria uma das maiores da região. Como tal também desapareceram um belíssimo silo demolido, um coreto que existia na em frente a matriz (esse só conheci em foto) lembro da existência de um cacimbão, não recordo do nome da Rua. Felizmente não demoliram a velha estação ferroviária.
Obrigada pelo gratificante comentário, prezado José Barbosa Sobrinho.
O poder público de Nova-Cruz (RN) não faz questão de preservar a memória da cidade.
A remoção da feira livre da parte baixa da cidade para o alto de São Sebastião prejudicou os antigos comerciantes, já acostumados com a tradicional localização.
A demolição do Silo foi um crime contra os produtores agrícolas que ali armazenavam seus cereais.
A demolição do coreto também foi um crime contra a cidade.
Para completar, o poder público ordenou a demolição do sobrado centenário de propriedade de Francisco Bezerra Souto, que há mais de quarenta anos mantinha ali um armazém de secos e molhados, e aos sessenta anos foi acometido por uma trombose hemorrágica, tornando-se inválido. Francisco Bezerra Souto viu a menina dos seus olhos ir de água abaixo, e o patrimônio da sua família ser prejudicado.
Francisco Bezerra Souto era o meu pai.