Editorial Gazeta do Povo

O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo: diretores do BC decidiram manter Selic em 13,75%
Quando está evidente que o Brasil necessita de um ajuste fiscal severo, mas o governante recém-reeleito dá todos os sinais de que não fará esse ajuste – e, como se não bastasse, aliados seus ainda vêm a público dizer que o ajuste foi “derrotado nas urnas” –, o que deve fazer a autoridade encarregada de proteger o valor da moeda? Foi essa a pergunta que os nove membros do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central se fizeram nesta terça e quarta-feira, em sua primeira reunião depois da eleição presidencial, e a resposta foi unânime: encerrar o ciclo de queda gradual dos juros. A taxa Selic foi mantida em 13,75% ao ano.
Na comparação com o comunicado da reunião anterior, de 15 e 16 de setembro, os membros do Copom perceberam que o mercado financeiro espera mais inflação, especialmente como resultado das centenas de bilhões de reais que Lula empenhou para comprar sua reeleição. “A inflação cheia e a média das medidas subjacentes aceleraram, situando-se acima do limite superior do intervalo de tolerância da meta”, diz o texto mais recente – em setembro, elas haviam desacelerado. As expectativas de inflação medidas pela pesquisa Focus estão cada vez mais distantes da meta.
Nem foi preciso alterar a lista de “riscos para a inflação, tanto de alta quanto de baixa”. Estão lá a “conjunção de políticas econômicas externa e interna que tenham impacto inflacionário maior que o esperado, por exemplo, por meio de uma taxa de câmbio persistentemente mais depreciada” e os “estímulos à demanda agregada, em particular ao componente de consumo, que tenham como resultado o crescimento da atividade econômica acima do produto potencial”, duas características da condução da economia em Lula 3, e que devem se repetir em Lula 4. Não há a menor chance de queda consistente dos juros sem que as contas públicas sejam colocadas em ordem – e, para contornar essa impossibilidade, ideias sem pé nem cabeça começam a ganhar trânsito dentro do petismo.
Uma delas saiu da caneta de André Lara Resende, que tem em seu currículo acertos como o Plano Real e desastres como o Plano Cruzado. Questionando a relação entre juros altos e inflação baixa, e negando que o excesso de gastos do governo seja o maior problema fiscal brasileiro, ele propõe uma canetada governamental que baixe os juros na marra, com a criação de um Conselho Fiscal e Monetário Nacional e a adoção de “metas de juros”, com uma banda decrescente que cortaria a Selic pela metade, levando-a dos atuais 13,75% para 7,5% em 12 meses. Isso é música para os ouvidos de quem já chamou de “babaquice” a busca por superávit primário e já afirmou não se preocupar com a disparada da dívida pública. E seria uma maneira de voltar aos tempos de Alexandre Tombini, o presidente do BC nos governos de Dilma Rousseff, que conduziu um ciclo insustentável de redução dos juros que contribuiu para a crise de 2015-16, em uma época na qual o Banco Central ainda não tinha a autonomia que os petistas sempre criticaram.
Soluções mágicas que separam a taxa de juros de todos os outros fatores dos quais ela é consequência, como se fosse possível baixar a Selic ignorando o câmbio, a inflação e a saúde fiscal do Brasil, são destinadas ao fracasso. O resultado seria uma crise de confiança de enormes proporções, desvalorização súbita do real e fuga de investimentos – quem emprestaria dinheiro a um país fiscalmente irresponsável e aceitaria como remuneração juros artificialmente baixos? Se as ideias de Lara Resende estivessem sendo debatidas apenas na academia, não haveria motivo de preocupação; mas elas estão sendo louvadas por petistas graúdos, e não surpreende que o mercado reaja de forma tão negativa à possibilidade de que elas sejam ao menos parcialmente postas em prática no Brasil de Lula 4.
Lula e os petistas podem sonhar à vontade com uma “bala de prata” que faça cair os juros enquanto todo o resto permanece como está, mas a realidade é implacável. Por mais que juros altos de fato sejam um problema para a dívida pública e um freio aos investimentos, sem contas ajustadas não há como preservar o poder de compra da moeda – e os mais pobres dependem muito dessa preservação, enquanto os ricos têm meios de proteger seu patrimônio; e sem inflação sob controle não há como reduzir os juros aos níveis que todos desejamos. Ou Lula finalmente se dá conta dessa verdade e começa a trabalhar para consertar o estrago que ele mesmo criou, ou verá a crise se instalar em seu próximo mandato.