FERNANDO ANTÔNIO GONÇALVES - SEM OXENTES NEM MAIS OU MENOS

Tudo tem uma história e um lugar de produção. Para quem pretende tornar-se cristãmente um pouco mais cidadão, recomendo duas oportuníssimas leituras. A primeira – Santo Domingo, Conclusões da IV Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano,1992, é uma edição didática elaborada pelo teólogo jesuíta João Batista Libânio, de quem fui aluno, um dia. A segunda, para se obter uma visão atualizada da vida cristã, reúne quatro volumes num só, tomando o título de Catecismo Popular. Seu autor, Frei Betto, transmite os fundamentos da doutrina cristã descolorida, de acordo com as mais recentes análises teológicas. Sem preconceitos, sem receio dos medos e dos mitos que ainda povoam as cabeças de inúmeros leigos ingênuos, alguns religiosos e até bispos e cardeais oitentões, o Frei Betto busca enfatizar as raízes bíblicas da nossa fé e sua dimensão ecumênica, sem nostalgias vitimistas.

O prefácio do Libânio, além de conter um histórico completo acerca das fases preparatórias que antecederam a IV Conferência, aponta para alguns silêncios acontecidos. O mais importante deles: o total desaparecimento da palavra libertação, do ideário dominante a partir de Medellin. As Comunidades Eclesiais de Base também não merecem uma maior atenção, apenas sendo simplesmente mencionadas como uma das inúmeras formas de realização da comunhão na Igreja. As análises da realidade estiveram ausentes no documento de Santo Domingo. E elas são fundamentais na obtenção de um mais acurado ajuizamento acerca das etapas de construção do Reino. Quando especialistas de milhares de outras instituições estão debruçados sobre as “tendências globais” de hoje, nas primeiras décadas de um novo milênio, a exigir mais disposição fraterna para um diálogo franco além dos formais cumprimentos.

A leitura do Catecismo Popular do Frei Betto pode se caracterizar como um reencontro com a mensagem do Senhor, numa linguagem acessível, sem prejuízo algum da profundidade teológica. Em oitenta e seis capítulos curtos, Frei Betto esclarece, ilustra com citações balizadoras, oferecendo à inteligência humana as razões de nossa esperança, como recomendou Pedro em sua Primeira Carta (3,15). Creio que os trabalhos de Libânio e Betto se interconectam. Um analisa o cotidiano do ser cristão, à luz do Evangelho do Senhor Jesus. O outro reproduz as linhas mestras de uma Igreja Latino-americana, que necessita revitalizar-se através dos seus leigos mais comprometidos com as urgentes novas estruturas sociais, desafiadoras por excelência até por instinto de sobrevivência de todos.

Nós, leigos, urgentemente necessitamos entender mais efetivamente as mensagens do Senhor da História. O documento de Santo Domingo é incisivo: “A persistência de certa mentalidade clerical nos numerosos agentes de pastoral, clérigos e inclusive leigos (cf. Puebla,784), a dedicação preferencial de muitos leigos a tarefas intra-eclesiais e uma deficiente formação privam-nos de dar respostas eficazes aos atuais desafios da sociedade”. Para todo cristão, mormente para os mais jovens, os que ultrapassarão em pleno vigor as décadas do Século XXI, ser potencialmente cristão será historicamente fundamental. Para ele e para todo os seus derredores. E para todas as demais regiões do Brasil e da América Latina. Para que Deus seja tudo em todos (1Cor 15,28).

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