Editorial Gazeta do Povo

José Sérgio Gabrielli, coordenador do programa de governo de Lula, disse que é “fake news” falar em crise fiscal
José Sérgio Gabrielli, ex-presidente da Petrobras, é uma figura em uma posição curiosíssima: é o coordenador do programa de governo da campanha de Lula à reeleição, mas está desautorizado a falar sobre um dos principais temas da campanha, a economia – tarefa que foi delegada ao ministro da Fazenda, Dario Durigan, no que é praticamente um desvio de função. Felizmente, no entanto, Gabrielli nem sempre se segura e comete alguns sincericídios que dão pistas muito concretas sobre para onde Lula quer conduzir a economia brasileira, caso seja reeleito. E mostra que, apesar das promessas de Durigan ao mercado financeiro, o petismo não abandonará tão cedo seu característico terraplanismo econômico.
Em entrevista à Folha de S.Paulo no fim de agosto, Gabrielli afirmou que “não existe uma questão fiscal, ou uma crise fiscal. É meio fake news isso. Não há nenhum motivo para pânico”. No mesmo dia da entrevista, o Banco Central informava que a dívida pública havia chegado a 82,5% do PIB, número muito acima da média latino-americana e dos países emergentes, e o maior valor da série histórica descontando-se a época da pandemia de Covid-19. Além disso, as contas públicas seguem registrando sucessivos rombos – a meta fiscal só será cumprida porque várias despesas estão excluídas do cálculo, fazendo do déficit primário oficial uma ficção que o mercado financeiro já desconsidera.
Mesmo os dois indicadores que Gabrielli cita em sua defesa – a inflação e o desemprego – também tem uma explicação que não ajuda o governo. O IPCA, por exemplo, só está desacelerando graças ao Banco Central e sua política monetária contracionista, necessária para se contrapor à gastança do governo; e a deflação de agosto se explica pelo “bônus de Itaipu”, que baixa os preços da energia elétrica de forma excepcional. Quanto ao mercado de trabalho, ele tem se beneficiado da estratégia petista de manter a economia artificialmente superaquecida, e a experiência de crises anteriores também mostra que o desemprego costuma ser o último indicador a se deteriorar em épocas de recessão – e o último a se recuperar totalmente quando a economia volta a crescer.
Essa negação da realidade não é exclusividade do coordenador da campanha lulista. Quase um ano atrás, o então ministro da Fazenda, Fernando Haddad, afirmava que a menção a uma crise fiscal “é um delírio que eu preciso entender do ponto de vista psicológico, porque, do ponto de vista econômico, eu não consigo entender”. Até mesmo Durigan, apresentado como a face “fiscalmente responsável” da campanha, já afirmou em entrevista que a culpa dos atuais juros altos não é do Ministério da Fazenda ou da política econômica gastadora de Lula, afirmando que “o debate fiscal importa para a taxa de juros, mas não é a solução, porque essa é a resposta fácil” – de fato é a resposta fácil, mas apenas porque é a resposta escandalosamente correta.
Gabrielli, obviamente, não se autoproclamou coordenador do programa de governo lulista contra a vontade do presidente; se está onde está, pensando da forma como pensa, é porque Lula o quis nesta posição. E isso é tudo o que precisamos saber sobre como Lula planeja conduzir a economia caso seja reeleito, por mais que Durigan ou algum marqueteiro tente apagar os incêndios causados pelo sincericídio de Gabrielli, afirmando que ele não fala em nome de Lula, ou fazendo promessas de ajuste fiscal que não convencem mais ninguém. O próprio presidente, recorde-se, fugiu de uma pergunta direta sobre a política fiscal em entrevista ao Jornal Nacional, preferindo criticar a apresentadora Renata Vasconcellos. Não há como enxergar boas perspectivas para a economia em um eventual Lula 4.