FERNANDO ANTÔNIO GONÇALVES - SEM OXENTES NEM MAIS OU MENOS

Vez por outra, um basta! mais retumbante torna-se necessário. Quando Francis Fukuyama anunciou a proximidade de uma Nova Era, onde uma relativa paz propiciaria a emersão de uma apatia generalizada, não apenas política e econômica, mas também e principalmente nas vertentes empresarial e pessoal, muitos não o compreenderam. Mas o fato está aí na pandemia: do ponto de vista pessoal, as sequelas das mudanças econômicas acontecidas nos últimos tempos são terrificantes. Muitos, por terem ficado passivamente observando o desenrolar da história, perderam a noção do que seja personalidade, com ela também se esvaindo o conceito de dignidade da pessoa humana.

O consultor Solano Portela Neto, reconhecido por suas contundentes advertências, escreveu: “Se você está com uma vida profissional de escravidão e apatia; se você é um daqueles que vai acordar algum dia apenas para perceber que sua vida foi roubada por uma organização qualquer, se você não almeja a conquista de uma independência que lhe permita dedicar mais tempo a você e aos seus, não precisa preparar-se para os tempos que já se encontram entre nós. Você profissionalmente já quase não existe”.

O arremate do dito acima pertence ao psiquiatra Laing: “Eles perderam a visão, o gosto, o tato e o olfato, e com eles foram-se também a sensibilidade, a ética, os valores, a qualidade, a forma; todos os sentimentos, os motivos, a alma, a consciência e o espírito”. A sensação que resta, muito bem poderia ser aquela retratada pelo poeta Fernando Pessoa: “Fiz de mim o que não soube, / E o que podia fazer de mim não o fiz. / O dominó que vesti era errado. (…) Quando quis tirar a máscara, / Estava pegada à cara. / Quando a tirei e me vi no espelho, / Já tinha envelhecido.”

A releitura de uma conhecida fábula de La Fontaine é pertinente para muitos que teimam em esconder a cabeça embaixo dos tapetes. Conta ela que um bravo leão se apaixonou pela filha de um velho lenhador, de formosura exemplar e seios deslumbrantes, sem silicone de qualquer espécie. Pedindo a mão da jovem em casamento, para poder usufruir bem do resto, o bravo leão ouviu uma sonora negativa, em função de suas afiadíssimas presas. Após uma dolorosa extração dentária coletiva, reiterou perante o lenhador sua intenção, ouvindo nova recusa, por causa das suas amoladas garras. Após arrancar as dez unhas, sem mais garras nem presas, retornou à moradia do lenhador para um novo pedido. O velho, percebendo o leão sem garras nem presas, abdicado de sua própria natureza e com uma desestruturação cívica no limite, arma-se com um porrete de bom tamanho e esmaga-lhe a cabeça.

Eis um lema que deve servir para pessoas e instituições, estados, municípios e nações: “Saiba controlar seu destino, senão alguém fará isso por você, de uma maneira sempre perversa”. E o saudoso Abraham Maslow, agora reeditado para gáudio de seus continuadores, não deixa por menos: “Se você se contentar com menos do que pode ser, será infeliz pelo resto da vida”.

O meu melhor Amigo, Filho do meu Pai, já dizia, quando caminhava por estas bandas, que aquilo que semeamos é o que iremos colher. Às vésperas de um ano eleitoral, que todos se percebam autores e atores de uma mesma história, a pernambucana, que necessita ser continuada através da bravura de sua gente e do destemor dos seus governantes, sem achincalhações nem deboches, as críticas necessárias se tornando concretas através de mecanismos nunca circenses.

Hoje, 19 de setembro, Paulo Freire completaria 100 anos. Como ele mesmo proclamou em sua volta do exílio, na FCAP, sob aplausos de uma plateia vibrante: “A experiência de Angicos faz parte da História. Por favor, me reinventem!!!”

1 pensou em “REFLEXÕES DO SILVINO

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