Comentário sobre a postagem SONETO – Carlos Pena Filho
Jairo Juruna:
Este soneto de Carlos Pena Filho é uma peça de refinamento estético que equilibra o desejo carnal com uma aura de mistério, fascínio e inacessibilidade.
Nesta obra o autor transforma a frustração do desejo em uma construção artística rebuscada, onde o corpo feminino é tratado como um santuário raro e, por isso mesmo, distante.
É interessante o modo lírico, criativo e elegante que ele utiliza para descrever o corpo da amada como um território geológico e biológico (musgo, ventre, concha, morada de anêmonas e polvos), sugerindo uma intimidade que, embora observada de perto, permanece impenetrável.
Diferente do que se vê hoje em dia, quando muitos têm dificuldade de aceitar eventuais recusas femininas a investidas amorosas (quando o não delas quer dizer não), chama a atenção a mensagem final, que é a da espera e aceitação resignada do admirador diante de um “corpo claro de fêmea” que, embora presente, se nega ao prazer, mantendo-se esquivo e inalcançável.
Trata-se, portanto, de um belo poema sobre a distância intransponível entre dois seres, onde a beleza e a atitude irredutível do ser desejado acabam por gerar uma mistura de perplexidade, solidão e frustração melancólica no poeta.
👍🏽