MARCOS ANDRÉ - DADO & TRAÇADO

A bela história de um “hino” em louvação a cidade do Recife

É logico que o nosso colunista, poeta e Mestre Xico Bizerra, tem mais propriedade pra falar a respeito. Foi ganhador do último Festival Nacional do Frevo, ocorrido no Recife.

Corria o ano de 1966, quando o Recife fora castigado por mais uma trágica cheia. Além dos transtornos inerentes, deixou um catastrófico saldo de 63 mortos e 8 mil desabrigados. Na apuração, vidas e sonhos destruídos.

O drama dos recifenses só teve fim com a construção da barragem de Tapacurá, concebida para estancar as cheias provocadas pelos rios Beberibe e Capibaribe. As obras tiveram inicio no governo Nilo de Souza Coelho, em 1969, ficando pronta na gestão do governo de Eraldo Gueiros Leite, em 1973.

As cheias acabaram. Só não acabou com o imaginário poético do recifense com a sua lendária mania de grandeza: A fábula de que “o rio Capibaribe se une ao rio Beberibe, para formar o Oceano Atlântico”.

Com a grande cheia afetando a vida dos recifenses, o mundo da arte não saiu ileso. Naquele junho de 1966, por conta dos transtornos, foram então prorrogadas as inscrições para um importante concurso cultural fomentado pelo Serviço de Recreação e Turismo, órgão atrelado à Secretaria de Educação municipal, denominado – Uma Canção Para o Recife – no intuito de impulsionar a renovação do nosso frevo.

À época, por conta do adiamento das inscrições, um jovem recifense de apenas 23 anos, que decidiu participar do evento, viveu uma aventura em que o destino transformou numa comovente e emocionante façanha.

De férias e sem saber a data certa para volta das inscrições do concurso, o jovem José Michiles foi visitar parentes no Rio de Janeiro. Foi surpreendido com um telegrama de uma tia, informando que no dia seguinte as inscrições se encerrariam.

A AVENTURA

Imediatamente, J. Michiles pôs todo material dentro de um envelope (letra, arranjo, etc.), e foi aventurar no Aeroporto Santos Dumont, alguém com destino ao Recife. Em meio a grande aflição, encontrou, por sorte, uma passageira que se dispôs a ajuda-lo naquela missão quase impossível. Ouviu com cuidado as instruções e elato de como se daria o encaminhamento daquele importante envelope. A sorte parecia lhe sorrir. A passageira não só morava no Recife, como bem próximo a rua da namorada dele, no bairro de Campo Grande, a qual recaiu a incumbência de fazer a ansiada inscrição no concurso.

Voltando à terrinha, dirigiu-se a Rua do Lima, no bairro de Santo Amara, onde se localizava a TV Jornal do Commercio, procurando notícias da inscrição da sua música. Ficou sabendo que foi classificada e que seria interpretada pelo cantor, Marcus Aguiar. À época, um prestigiado jovem daquela emissora de TV.

A FAÇANHA

Etapa por etapa, sua canção ficou entre as 20 finalistas em meio a 120 inscritas. A cereja do bolo viria em 25 de novembro de 1966. A música fora classificada em 1º lugar, conquistando de forma brilhante o troféu ANTÔNIO MARIA (jornalista e autor de Frevo nº 1 do Recife e Manhã de Carnaval) Além do troféu, embolsou o prêmio de Cr$ 5 milhões. (Cruzeiros)

A façanha foi arrebatadora. Desbancou verdadeiras lendas culturais locais, como A Canção do Recife, de Capiba e Ariano Suassuna, que ficou em 2º lugar.
Modesto, “disse que não esperava ganhar no meio de tantas feras”.

O RÔLO (Num bom Pernambuquês, a confusão)

“Os Donos do Frevo” – Eram assim designados os históricos poetas e aclamados autores, da envergadura de um maestro Nelson Ferreira, Capiba, José Fernandes, Clóvis Pereira, Aldemar Paiva, etc. A vitória de J. Michiles, jogou lenha no embate do cenário artístico da capital, sacodiu as rádios, redações de jornais e gravadoras.

O inconformismo do grêmio dos “donos do frevo”, custaram em digerir o triunfo do intruso neófito, renegando a aceitá-lo no seleto clube. No estremecimento cultural local, teve de tudo que se possa imaginar. Um voto que pesou a favor do novato, fora feita por um ícone da cultura pernambucana, Valdemar de Oliveira, no qual desqualificou as outras concorrentes (e expôs no jornal). Na relação de notáveis que compunha a seleta comissão julgadora, iriamos encontrar emblemáticos acadêmicos da envergadura de um Mauro Mota, Aderbal Galvão, Marcos Vinícius Vilaça, Padre Jaime Diniz, maestro Vicente Fittipaldi. Este último preferiu não votar.

Os recalcitrantes compositores rivais, não pouparam ataques ao novo vencedor do concurso. O furdunço maior se deu quando Cilro Meigo, poeta e parceiro de composições com Nelson Ferreira, insinuou que o frevo vencedor havia sido plagiado.

O RECONHECIMENTO

Sem estardalhaço, o jovem poeta (era Desenhista Industrial) transitava sereno no mundo artístico, sem se associar a nenhuma das correntes, cravando, a partir dali, a estreia da sua carreira no mundo artístico e cultural da Capital.

Mas não foi fácil. O reconhecimento do seu valor só viria ocorrer quase 40 anos depois, no ano de 2000. Gravaram a música, cantores do lastro de Maria Bethânia, Orlando Dias (1976) e Alcymar Monteiro (2006).

Hoje, considerada um clássico da música brasileira, é quase obrigatório constar no repertório das agremiações carnavalescas, cantores e artistas. Principalmente pelos blocos líricos que ainda encantam e emocionam as multidões no carnaval pernambucano.

‘Recife manhã de sol’, mais que uma belíssima canção, tornou-se um hino, que melhor identifica a cidade do Recife.

A seguir, três interpretações:

MARCOS AGUIAR

MARIA BETHÂNIA

BLOCO DA SAUDADE

21 pensou em “RECIFE MANHÃ DE SOL

    • Agradeço pela participação, Mestre Assuero.

      Verdade seja dita!

      No decorrer desta história, aconteceram diversos desdobramentos. Só pelo fato só reconhecerem o valor do autor, após uns 40 anos, dá pra perceber quantas muitas aguas rolaram…

      Procurei resumir o máximo. .

      Belchior era um gênio.

  1. Querido amigo e irmão Marcos, não poderia de deixar de dizer que este é um dos melhores artigos Quênia lindo gênero. Você é brilhante. Se supera dia a dia. Obrigado!!!!

    • Kleber, lisonjeado me sinto com seu comentário lá das bandas de Lisboa.

      Aproveite que vc é músico e apresente o texto e a música aí em Portugal, pois seu talento tá encantando os patrícios.

      Forte abraço.

      • Onde se lê: “Quênia lindo gênero” leia-se: “que já li do gênero”. Esse corretor compromete. Kkk.
        Obrigado pelas palavras.

  2. Boa tarde, meu irmão.Sua descrição dos fatos,foi excelente. Lendo e conhecendo. Derrotar essas feras musicais de outrora,foi uma grande façanha para um iniciante. A versão do Bloco da Saudade, é memorável,embora a doçura da voz de Bethânia nos embale. O cantor Marcus Aguiar,com seu vozeirão,me fez lembrar a pronúncia do “erre”do paulistano antigo. Espero que,para o ano, possamos participar do lindo carnaval do Recife. T F A.

    • Muito grato por sua participação, Sr. Gilberto.

      Realmente foi uma façanha épica do jovem poeta.

      Quanto ao carnaval, tenho minhas dúvidas se haverá, por conta do Covid-19.
      Torço pra que a vacina seja descoberta a tempo.
      Muito boa tarde.

  3. Parabéns Dr Marcos, eu só conhecia uma parte dessa história, que era da letra da música que teria que ser entregue para o concurso, e J.Michiles entregou a uma senhora que por sorte e coincidência, ia pra Recife, e pra mesma rua a onde ele morava, agora eu conheci toda história, muito interessante. Um grande abraço. Nando Vaz.

    • Meu nobre artista violonista, Nando Vaz.

      O desdobramento dessa história é muito amplo. Daria um livro.
      Apenas procurei resumir o máximo em 2 ou 3 páginas, focando o drama da inscrição e a vitória.

      Preciso de aulas de violão.

  4. Excelente. O Bloco da Saudade onde por vários anos teve seus ensaios na AABB-Recife, onde fiz parte da Diretoria e do Conselho, pude testemunhar a magnitude e as belas apresentações. São momentos históricos. Estão todos bem registrados nos corações de nossos colegas e sócios da AABB-Recife(PE).

  5. Mestre André Flôres, com alegria recebo vosso comentário.
    Tomara que a vacina surja antes do carnaval, meu nobre.

    Forte abraço

  6. Teve leitor que foi ao Quênia para dizer do brilhantismo do texto: “Quênia lindo gênero”. Creio que foi o Quintas de Lira. Normal o entusiasmo para texto tão apaixonado pelas coisas do Recife.

    Se “o rio Capibaribe se une ao rio Beberibe, para formar o Oceano Atlântico” Sancho não pode afirmar, mas (benedicto mas), certamente a água de tais rios tem profunda culpa na quantidade de gente talentosa e que se faz eterna através da cultura popular pernambucana.

    Abraço grande. Dispensável dizer do talento de suas coisas, grande Cavalanti. Até sempre!!!!!

    • Sancho sempre amável nos seus comentários. Muito me envaidece e honra sua participação.

      Há um porém (ou um mas), no comentário do Sr. Quintas Lira:

      Lá de Lisboa, ele se referiu ao equívoco técnico e corrigiu o Quênia (kkkk). O corretor o traiu.
      Se Sancho afirma que foi emoção, então “fecha a conta e passa a régua”.
      São muitas emoções.

      Brigaduuuu!!!

  7. Irretocável! A leveza e a profundidade se complementam nesse paradoxo musical. Muito boa a abordagem, é de sentir os momentos descritos enquanto se fecha os olhos para enxergar a canção.
    Sempre pertinente e sagaz na escrita, na visão e na transmissão da emoção da temática. Toda gratidão pelo artigo!

    • Sinto-me, sem nenhum exagero, engrandecido por seu amável comentários, Cenira.

      Gratificado fico pela sua participação.

      Muito obrigado.

  8. Excelente artigo meu sogro, é muito bom conhecer mais sobre a história desta terra que adotei como minha. Que é repleta de fatos fascinantes. Obrigado!

    • Eita!
      Suspeitíssimo comentário do cabra que se tornou o gaúcho mais pernambucanizado que já písou por essas bandas.

      Obriado pela participação, Sr. Alexsandro Penha. Saudações ao povo dos pampas.

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