Não sei quem és. Já não te vejo bem…
E ouço-me dizer (ai, tanta vez!…)
Sonho que um outro sonho me desfez?
Fantasma de que amor? Sombra de quem?
Névoa? Quimera? Fumo? Donde vem?…
– Não sei se tu, amor, assim me vês!…
Nossos olhos não são nossos, talvez…
Assim, tu não és tu! Não és ninguém!…
És tudo e não és nada… És a desgraça…
És quem nem sequer vejo; és um que passa…
És sorriso de Deus que não mereço…
És aquele que vive e que morreu…
És aquele que é quase um outro eu…
És aquele que nem sequer conheço…

Florbela Espanca, Vila Viçosa, Portugal (1894-1930)
Lindo poema este da Florbela.
Acho que ela já estava nas últimas quando escreveu estas frases, pois me parece fruto de um delírio.
A rapariga morreu cedo, mas viveu muitos amores efêmeros.