POLITICAMENTE INCORRETO

Hoje, acordei com o ovo virado, no veneno mesmo, e resolvi tirar o dia para ser “politicamente incorreto”, ou me mostrar no meu natural. Digo isso porque, pratrasmente, de uns quinze anos, esse negócio de politicamente correto não existia, e virou novilíngua dos Txucarramães, da terra de Pindorama. Botocudos, que mal saíram da taba e já querem ditar o que eu devo e como devo falar. Emboramente, o respeito tenha que ser dado e recebido dentro das normas da civilidade, esse politicamente correto, além de encher os ovos, esconde por trás de quem o pratica, uma tentação stalinista de mandar na vida dos outros.

Tenho um irmão, apenas pelo lado materno, que é negão, daqueles crioulos convictos de sua preticidade, e disso eu tenho orgulho e faço alarde. Isto porque eu, na verdade, sou o típico “arroz de forno” – sabem, aquele sujeito de é mistura de todas as etnias (raça quem tem são animais, cujo cruzamento entre eles gera uma descendência estéril, do tipo burro com égua que gera a mula, indivíduo estéril), índios potiguaras do Pernambuco (meu avô dizia ser descendente direto de Felipe Camarão), índios aymarás dos altiplanos da Bolívia, negros cabindas da região de Cunene em Angola e portugueses de Alcáçer do Sal -, e, isso tudo me orgulha.

Mas, o politicamente correto dizia que, de primeiro, eu tinha que chamar meu irmão de “negro”, porque preto era racismo. Depois tinha que chamar de preto, porque “negro” era adjetivo e não definia a raça dele. Hoje o politicamente correto quer que eu chame o meu irmão de “afrodescendente”. Essa última definição é um chute nos colhões do mais paciente faquir. Afrodescendente, por quê? A África possui mais de 37 países, com as mais diferentes etnias e cores. Vejam: Omar Shariff era africano, Charlize Teron é africana, Mia Couto e Paul Simmon também, e ninguém, nunca, chamou algum deles de afrodescendentes.

“Afrodescendente” é um reducionismo preconceituoso, isso sim. Preconceituoso, que não leva em conta que a África, assim como a América é um cadinho de diversas etnias e diversas cores. Chamar alguém de afrodescendente é negar a ele a nacionalidade brasileira, é lançá-lo em um limbo geográfico, já que afrodescendente não significa nada, ao mesmo tempo em que reforça a condição dele, como um coitado. Façamos o seguinte exercício. Peguem um crioulo, desses convictos de sua crioulidade, pobre, desempregado, mas honesto e trabalhador. Valendo o exercício também para o índio, o japonês, o alemão, o havaiano, seja lá o que for. Trocar um vocábulo por outro, mudou a situação socioeconômica dele? A utilização de subterfúgio linguístico alterou o fato de ele estar pobre, desempregado e com fome?

Mas, o que se esconde é a tentativa de separar a humanidade em bonzinhos e malvados. Se é afrodescendente é bonzinho, oprimido, vítima eterna. Ora, a África produziu pessoas da estatura de um Anwar El-Sadat, de um Amilcar Cabral, e até mesmo um Nelson Mandela, apesar de eu ter um pé atrás com ele. Mas também produziu facínoras como Idi Amin Dadá, Sani Abacha, Muammar Kaddafi, Jean-Bedel Bokassa, Mobutu Sese-Seko, Robert Mugabe, José Eduardo dos Santos e por aí vai.

Se a sua resposta for não, então temos um problema e sério com o politicamente correto. A mesma coisa vale para os viados, gays, boiolas e baitolas. Ri, e muito, com uma postagem, até de um sujeito com certa fama, dessas famas criadas na “infernet”. Ele se dizia “heterossexual, não binário e não normativo, com flexibilidade erótica”. Traduzindo isso para o bom português, o sujeito estava dizendo que gostava de dar a bunda, mas que era macho. Ora, para que fazer esse malabarismo linguístico? Se o indivíduo gosta de doar o orifício corrugado da porção ínfero lombar – olha eu, torcendo a “Inculta e Bela” -, o quem eu tenho a ver com isso? E para dizer isso, é necessário espancar a Língua Portuguesa? Mas, para o politicamente correto, não posso dizer “viado”, porque isso magoa e machuca. Porém, até hoje não vi nenhum desses defensores dessa novilíngua formar grupos de apoio para tirar das ruas gays, travestis, prostitutas e prostitutos que, muitas vezes são espancados e mortos, sós pelo fato de serem o que são.

Mas não. Isso não importa. Para essa gente, o importante é não falar viado, puta, traveco, michê, e por aí vai. Usar um palavreado florido não mata a fome e não preenche o desamparo que a maioria desses humanos sente. Aliás, para o politicamente correto não são seres humanos, apenas rótulos que satisfazem suas taras autoritárias e o desejo de monitorar a vida das outras pessoas. Para essa gente, puta é profissional do sexo, viado é homossexual, traveco é transexual, ou que outro nome o valha; preto é afrodescendente, mendigo é pessoa em situação de rua. Usando esses termos, eles se pacificam em sua hipocrisia, mesmo se ao lado da casa deles houver um mendigo pedindo um pouco de comida. Passarão por ele, dirão para si mesmos “esse morador em situação de rua”, mas nada farão para alterar aquela situação, porque isso não importa. O que importa é apenas usar bem sua nova língua preconceituosa.

E, tenho presenciado essa situação aqui na gloriosa Campo Grande/MS. Grupos politicamente correto tentando ensinar aos outros a serem como são, a se comportarem como se comportam. E depois saem em seus carros do ano e vão para um shopping Center comer seus big Mac, beber sua coca-cola com a consciência tranquila que estão ajudando a mudar o mundo. Eu, com a minha tosquice e minha língua viperina continuo a fazer mangação com eles relembrando Salomão,o rei: abyssum abyssus invocat. (Um abismo chama outro abismo).

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  1. Sancho quer que a afrodescenente Charlize Teron por ele se apaixone para fazermos lindos afrodescendentes e deitarmos na rede em algum lugar da Bahia para a bela me sustentar com a grana que a indústria cinematográfica a ela entregou pelo ótimo desempenho da africana em Roliúdi.

    Quanto ao texto roquiano, o que posso dizer? Tem o mesmo mistério dos verdadeiros vinhos, pois quanto mais velho, MELHOR.

    • bondade sua, meu caro.

      Taí um desejo que eu também tenho… me enganchar com a afrodescendente Charlize Teron e viver de papo pro ar… só que eu vi primeiro, Sancho!

  2. Manda bala Roque. Eu explicava numa aula os riscos de se fazer conclusões erradas sobre dados. Eu disse “aí o neguinho pensa que está certo…”. Um aluno levantou a mão e eu achei que era uma dúvida. O cara disse “professor, neguinho é uma palavra pejorativa”. Contei até dez para não mandá-lo pra merda. Eu disse ” vou reformular: aí o verdinho pensa que está certo….”

    • Mauricio.

      Apesar de eu já passar por isso também, ao ler seu comentário ri sozinho, aqui no meu cafofo…. porque tem hora que dá mesmo vontade de mandar essa gente à merda.

  3. Explicou tudo, Roque. Pena que sempre vai ter gente mais preocupada em trocar o nome do problema do que em resolvê-lo.

    Hoje não pode chamar favela de favela, tem que falar comunidade. Aí um dia, eu conversando, meu interlocutor repetindo “comunidade” sem parar, eu perguntei “e quem mora na comunidade é o quê?”. O cara respondeu na lata: “favelado”.

    Só vou discordar de sua definição de raça: burro e égua são espécies diferentes, não raças, e por isso os descendentes são estéreis. Raças existem dentro da mesma espécie (égua Mangalarga, Árabe ou Quarto-de-milha; Touro Nelore, Angus ou Holandês; Gato Siamês, Angorá ou Persa). Cruzamentos entre raças diferentes de uma mesma espécie não produzem descendentes estéreis, apenas mestiços, e nesse sentido eu não vejo problema em considerar que existem raças humanas também – outra questão “politicamente correta”.

    • Meu caro Marcelo.

      Obrigado pela bondade da correção….de coração, mas como diz o Mauricio Assuero tem horas que da vontade de mandar essa gente ir à merda, isso dá.

  4. “Mas, para o politicamente correto, não posso dizer “viado”, porque isso magoa e machuca.”

    Tipo, o cara aguenta sorrindo 25cm de piroca no rabo, mas fica ofendidinho quando é chamado de baitola.

    Como sempre, o “Progressismo” é uma incoerência sui generis.

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