XICO COM X, BIZERRA COM I

Já sonhei ser goleiro: pedia ao batedor imaginário de pênaltis que os cobrasse à meia altura, mais para o lado esquerdo. Então, num lance acrobático, pulava, me agarrava com a bola, rolava na fofa areia da rua Francisco Parreão, fazendo pose para o fotógrafo ilusório que eu imaginava ali estar, registrando tudo para publicar no jornal do dia seguinte. Depois pensei em ser padre, iludido pela promessa do vizinho de que, no seminário, teríamos direito a quarto individual e, em cada um deles, uma bicicleta à nossa disposição para pedalar o dia inteiro. Ledo engano: a vocação esvaiu-se como fumaça ao vento ao deparar-me com o desconforto do dormitório coletivo e a inexistência de bikes por ali. Cantor, também poderia ter sido, tivesse o mínimo de afinação para tão sublime ofício. Até tentei o sonho impossível. Nada custava entregar-me a fantasias e devaneios de um palco, com improváveis aplausos dos que me assistiam. Já com o cangote duro imaginei que poderia ser um bom agrônomo, mas as dificuldades com a Química não me estimularam a começar os estudos na Universidade. Irônico destino, casei-me com uma Química: esta, ao contrário das detestáveis tabelas periódicas que nunca decorei, só coisas boas me ofertou, a começar pelos dois filhos que, por sua vez, já me presentearam com três netos. Terminei por ser funcionário público ‘nas horas pagas’, burocrata de carreira, alternativa encontrada para fazer feira e dar sustento à família. Hoje, me chamam de Poeta, título honroso que reluto em aceitar em respeito aos Poetas verdadeiros, principalmente os repentistas, aqueles que transformam um mote qualquer em Poesia pura, instantânea, com métrica, rima, ritmo e beleza. Estes, sim, verdadeiros Poetas. Não estou nem perto de um Bandeira, de um Pessoa, Manoel de Barros ou Drumond. De um Pinto do Monteiro ou de um Louro do Pajeú, estou a milênios-luz de lonjura: sou apenas um ser vivente, ajuntador de ideias, gari das palavras, vagabundagem por ofício, feliz pelos sonhos que tive e por aqueles sequer sonhados, de tão bons, e que ganhei de presente na vida: Bernardo, Vinícius e Leonardo. E tentando ser duro, quando preciso for, mas sem jamais perder a Poesia. . .

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3 pensou em “PEQUENO INVENTÁRIO DE UM VIVENTE FELIZ

  1. As Mãos e os Pés do Destino.

    A foto é representativa desse sonho bernardino, viniciusiano, leonardiano.

    Quanta pureza nesses rostos juvenis que deixa o vovô nas nuvens de pura emoção!

    O fado foi generoso com o Poeta. Não lhe permitiu ser goleiro. Não lhe concedeu ser padre. Não lhe aceitou ser agrônomo. A química era sua trave. Foi ser funcionário público, profissão nobre quando a ele se dedica com responsabilidade.

    Os primeiros sonhos se diluíram nas poeiras das estrelas, mas em compensação veio a realidade: Um Bernardo, um Vinícius e um Leonardo, três anjos da felicidade.

    Os três vieram à luz no ambiente sadio e cheio de afeto.

    Parabéns grande Poeta!

  2. Valeu, Cumpade Ciço. Obrigado por ressaltar os sonhos que realmente me permitem flutuar nas nuvens de pura emoção. Nem Poeta, nem Goleiro, nem Padre, muito menos agrônomo. Funcionário público rigoroso com meus deveres e obrigações e ciente de que o patrão do ‘barnabé’ é o povo que recorre ao serviço público. Somente depois de aposentado dei vazão à veia ‘artística’. Grande abraço

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