MAURÍCIO ASSUERO - PARE, OLHE E ESCUTE

O Brasil vive uma espécie de ciclo interminável de notícias repetitivas que – com toda franqueza – já encheu meu saco, tirou minha paciência e mudou meu humor, faz tempo. Hoje, dificilmente se discute outra coisa que não seja em torno dos mesmos temas: juros altos, inflação descontrolada, decisões polêmicas do STF e escândalos de corrupção. Não importa o governo, o partido ou o momento econômico, o roteiro parece sempre o mesmo. Deixei de ver TV aberta já faz um bom tempo, mas quando a gente abre qualquer site de notícias e lá estão eles: os analistas econômicos discutindo a taxa Selic, os economistas prevendo mais um aumento na inflação, os ministros do Supremo Tribunal Federal protagonizando manchetes, e, claro, mais um caso de corrupção sendo descoberto.

Essa repetição tem um efeito psicológico forte na população. Muitos brasileiros já nem prestam mais atenção nos detalhes das notícias. Outros, como eu, já jogaram a toalha por não ter a menor crença numa mudança de curto ou médio prazo. Atualmente, quando se menciona “inflação” ou “juros” já desperta um cansaço automático. O desinteresse cresce, a apatia se instala. Parece que o Brasil está preso em uma espécie de looping político-econômico do qual não consegue sair.

O problema da inflação, por exemplo, é uma constante há décadas. Seja nos anos 80 com a hiperinflação, nos anos 90 com os choques de planos econômicos ou agora, com a preocupação constante de que o poder de compra do brasileiro se reduz mês após mês. O preço do café cresceu mais de 100% num período de um ano. Outros alimentos também tiveram aumentos de preços de forma absurda. A quantidade de empresas que estão em Regime Judicial cresceu mais de 60% entre 2023 e 2024 e o IBJE divulga uma taxa de crescimento fantástica. A inflação dos últimos 12 meses, está fora da meta – e não é por décimos, não! – mas, ainda assim, o Brasil tende a crescer em 2025.

Tudo de esquisito que a gente vê é culpa da política de juros do Banco Central, quando, na verdade, é o descontrole absurdo das contas públicas que geram insegurança. Mas, ninguém assume que o governo procura compensar suas bobagens fazendo outras, em todos os campos. A polêmica do IOF, por exemplo, foi mais uma trapalhada de um governo sem rumo, sem freio e sem noção. Para recuperar alguma coisa da proposta, o presidente liberou R$ 500 milhões em emendas parlamentares e eu fico, novamente, sem entender: não tem dinheiro para sustentar as IFES, mas tem dinheiro para emenda parlamentar. Só faz isso para que os deputados aprovem suas barbeiragens.

A questão dos juros altos é outro capítulo repetitivo. Todo mês, o Comitê de Política Monetária (Copom) anuncia sua decisão. Essa semana chegamos a uma taxa de 15% ao ano, a segunda maior taxa de juros no mundo. O efeito do aumento na taxa de juros é redução do crédito. Quando cai, a inflação ameaça voltar. É um eterno pêndulo. E no meio dessa oscilação, o consumidor paga a conta. O acesso ao crédito fica difícil, os investimentos diminuem e a economia patina.

No campo político, o Supremo Tribunal Federal tornou-se quase um personagem de reality show. Decisões monocráticas, disputas internas, embates com o Congresso e vista grossa para o Executivo. Tudo isso alimenta a polarização política e a sensação de que as instituições estão mais preocupadas com disputas de poder do que com o bem-estar do cidadão comum.

E como se não bastasse, sempre há um novo escândalo de corrupção. Quando a gente pensa o que houve no INSS – até o momento ninguém preso – somos levados à pensar que tudo aquilo é novo. Os amigos já protegidos pela lei, os demais são perseguidos. Todo dia, surge uma nova operação, um novo esquema, um novo nome de político envolvido em desvios. A cada denúncia, a indignação dura algumas horas nas redes sociais, mas logo tudo volta ao ciclo habitual. O brasileiro se tornou espectador cansado de um teatro mal encenado e previsível.

A monotonia é tanta que mesmo os comentaristas especializados já parecem repetir os mesmos discursos de anos atrás. As soluções sugeridas também são sempre as mesmas: reformas que nunca chegam, cortes de gastos que nunca acontecem, promessas de estabilidade que nunca se concretizam.

Esse ciclo de notícias não apenas entedia, mas mina a esperança. Muitos sonham em deixar o país. Quem fica deve se acostumar com pouca expectativa de mudança real. A sensação é de estar preso em uma narrativa que nunca avança para um novo capítulo.

Enquanto isso, os problemas estruturais — como educação precária, saúde pública ineficiente e insegurança — continuam sendo pano de fundo, quase invisíveis diante da avalanche de manchetes econômicas e políticas. O Brasil, com sua rica diversidade cultural e seu potencial gigantesco, acaba reduzido a um país de manchetes previsíveis e crises recorrentes.

A monotonia nacional não é apenas uma questão de falta de novidades. É um sintoma profundo de um sistema que parece incapaz de se reinventar. E enquanto não houver uma ruptura real com esse ciclo, o brasileiro continuará preso nessa rotina cansativa de juros, inflação, STF e corrupção.

8 pensou em “PATINANDO NO GELO

  1. Caro Assuero, parabéns por mais um texto primoroso, na minha rabugisse penso que temos políticos demais, justiça uma das mais caras do mundo, e o agravante é que há processos que correm a passos de tartaruga e outros a jato. Como será corrigido, a Deus proverá. Assim como você, tem horas que me pergunto se ainda tem jeito.

  2. Meu bom professor Maurício Assuero, parabéns pelo excelente texto . Essa cambada de gente desse governo está acabando com o nosso País.

    • A pergunta que fica é simples: se é assim, por que eles são eleitos? Essa constatação é uma prova cabal de que não estamos fazer a coisa correta

  3. Meu Caro Assuero. Esse é o modus operandi do Brasil hoje. O objetivo final é esse mesmo, rebaixar a régua moral do brasileiro, que já não é lá essas coisas. Corrupção, ditadura, dólar alto, juros nos cornos da lua, Brasil defendendo uma ditadura assassina, tudo isso não se trata de posicionamento ideológico, ou mesmo de incompetência gerencial. É método, é modo de degradar a régua moral para que nos tornemos um Haiti de “Papa Doc”, ou uma Nicarágua de Somoza, onde o roubo faz parte da paisagem, a venalidade é característica da ação e a imoralidade é o fruto abortado da prática política. Isso é método, isso é cálculo político para destruir, e, destruindo-se, vem o domínio perpétuo.

  4. Pingback: ISSO É MÉTODO | JORNAL DA BESTA FUBANA

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