PALAVRAS, NADA MAIS QUE PALAVRAS

Uma ditadura é, por definição, algo que destrói a liberdade. Ditaduras e ditadores nos tiram a liberdade de escolher, a liberdade de trabalhar, e, mais importante, a liberdade de pensar. Há duas formas de acabar com a liberdade: a primeira é usando a força bruta, através de polícias e exércitos. É difícil, caro e de pouca eficiência. A segunda forma é criando um ambiente onde ninguém pensa por si mesmo e cada um é a polícia do outro: funciona muito melhor.

O mundo moderno está cheio de palavras que funcionam como uma censura instantânea a qualquer idéia que discorde da maioria. Não se pode falar mal do governo porque é contra a democracia. Não se pode questionar a democracia porque fere a constituição. Não se pode discordar da constituição porque ameaça as instituições que garantem a democracia. E assim segue, em um círculo vicioso em que se repetem as mesmas coisas como se fossem palavras mágicas.

Vamos deixar de frescura. Podemos e devemos questionar coisas como “instituições”, “democracia” ou “constituição”. Principalmente em nosso pobre país, onde as instituições são uma porcaria, a democracia é uma porcaria e a constituição é uma porcaria.

Não dá para exigir “respeito às instituições” quando o congresso nacional tem duas centenas de deputados e senadores sendo investigados pelos crimes mais diversos ou quando os membros do supremo são nomeados por indicação política.

Não dá para exigir respeito a uma constituição absurda, que só se preocupa em defender privilégios ou prometer “direitos” para todos sem que ninguém saiba quem paga a conta.

Não dá para exigir respeito a um sistema que se proclama “democrático” só porque periodicamente o povo é obrigado a votar em deputados e senadores, sabendo que assim que eleitos estes deputados e senadores irão atuar para manter as coisas como estão. Pior: se alguém se atreve a questionar as atitudes do poder, escuta de volta “você votou, então não pode reclamar”.

Gosto muito de uma frase de Einstein que diz que não se pode resolver um problema usando o mesmo raciocínio que criou o problema. Não resolveremos nenhum problema enquanto todos os debates forem cerceados e interrompidos por este respeito beato por coisas indefinidas e abstratas como “democracia” e “instituições”. Muito menos enquanto as pessoas aceitarem como verdade a tolice de considerar que uma critica a algum político é uma ameaça a estas abstrações.

Nossas instituições funcionam muito mal e precisam não apenas ser questionadas, mas rebaixadas ao seu devido lugar: elas existem para servir à sociedade, não o contrário.

Nossa constituição precisa ser jogada no lixo o mais breve possível e substituída por algo que preste, o que não é uma tarefa fácil dada a ignorância política de nosso povo. Mas já jogamos no lixo seis constituições, não custa nada tentar mais uma vez – pior que essa é improvável.

Nossa suposta democracia precisa ser substituída por um regime que coloque em primeiro lugar a liberdade de cada pessoa de tomar suas próprias decisões e de ser responsável por sua vida. Dar a um grupo de políticos o poder de se meter em cada detalhe da vida das pessoas não é democracia, é ditadura, mesmo quando se tenta manter as aparências realizando eleições periódicas.

Mas para tudo isso acontecer, é preciso que o povo queira ser livre. Quando um povo tem medo da liberdade e prefere que um governo cuide dele como um adulto cuida de uma criança, ele conseguirá exatamente isso. Daí, não adianta reclamar das consequências.

13 pensou em “PALAVRAS, NADA MAIS QUE PALAVRAS

  1. Espero ainda estar vivo para ver a CF/88 ser relegada a um livro proscrito, maldito, e que, para sua indigesta manipulação, sejam necessárias luvas bem grossas e máscaras.
    Todos estes EPIs devem ser de uso unico, sendo jogados no crematório logo após terminada a ingrata tarefa.

  2. Quando o povo acorda e comeca a se movimentar a partir de 2013 (padrao FIFA), vem os canalhas e resolvem censurar o unico meio de aprendizado politico do povo…..

    Sem armas, presos em casa, o que fazer ??

    Por enquanto apenas xingar os calhordas….., principalmente “aqueles” vagabundos do …..

  3. Voto distrital puro. Uma reeleição por cargo, após, só volta com intervalo de um mandato; Impasse contínuo em votações legislativas? Realizam-se novas eleições. Estados com representantes equivalentes a suas populações. Senado? Um por estado, sendo ele o vice-governador. STF? Apenas juízes concursados, com no mínimo 15 anos de atuação, escolhidos entre seus pares e submetido a aprovação do congresso. São tantas as providências que devem ser tomadas para transformar esse pardieiro que vivemos em uma nação, que sabemos, nunca acontecerão. É uma pena.

    • Voto distrital é meu sonho de consumo. Possivelmente a única chance de melhora sem uma completa ruptura da ordem. Eu sou um pouco mais ambicioso que o Sérgio e imagino um congresso unicameral, sem senado. Mais direto, menos burocrático.

      Mas não acontecerá, infelizmente.

      • Pois é Marcelo, um sonho! Acho que devíamos falar sempre desse sonho, idealizar, fantasiar, especular, fomentar. Grandes idéias muitas vezes nascem assim, em vários “brain storms”, quando muitos malucos discutem coisas até absurdas e vão colocando cacos engraçados e quando menos se espera, Buumm! uma versão genial toma forma. Não quero desistir.

  4. Muito bom, Marcelo. Eu não Cindy entender porque com tanta frescura a gente não conseguiu baixar a temperatura do Planeta.

  5. Qualquer “entidade” é uma abstração que somente existe para servir à sociedade, não o contrário.

    É igual a um vaso.

    Tudo depende do que for colocado no seu interior.

    Se colocarmos boas sementes, produzirá bons frutos e/ou belas flores.

    Se for posto merda, deixará de ser um vaso.

    Será um penico.

    Ou seja, o vaso (abstrato) continua a existir, porém, de acordo com o conteúdo (concreto), passará a ser chamado de “vaso” ou, então, de “penico”.

    Daí a besteira de dizer: “Estão ofendendo / atacando / … o STF / a Câmara / …”.

    MENTIRA: O STF, a Câmara et caterva, como entidade abstrata (VASO) continua inatacável, está acima ou fora de qualquer conceito.

    O conteúdo concreto dele (Flores ou Merda) é que fará ele ter uma denominação: ou continua sendo um VASO ou torna-se um PENICO.

    É a sua concretude (e não a sua abstração) que fará dele objeto de elogios ou ofensas, ataques ou apoios, etc..

    Lamentavelmente, as pessoas, por ignorância ou má intenção, confundem o ser abstrato (vaso) com o concreto (vaso ou penico).

    • Nobre Adail, excelente analogia.

      Por ela aprendi que o STF é atualmente um penico usado por um brontossauro depois de comer uma fábrica inteira de Bisacodil.

  6. PenÚltimo Tango no JBF… Marcelo Bertoluci e Bernardo Bertolucci. Geniais no que fazem. O primeiro nos ensina, no JBF, que é preciso que o povo queira ser livre (y otras cositas mas). Um “C” a mais no nome separa a genialidade de ambos. com certeza cursaram juntos, na Universidade de Roma “La Sapienza”, o curso de como serem fubânicos e inesquecíveis. Vai uma manteiga, ai!?

  7. Preciso seu texto, prezado Marcelo. Nada “fora da curva” do seu padrão, claro. E os comentários dos colegas fubânicos seguem a mesma toada!

    • Ivan, me desculpe a curiosidade, mas vi que seu comentário foi perto das quatro da manhã. Você não dorme não, home?

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