JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

Paulo Reglus Neves Freire nasceu no Recife, PE, em 19/9/1921. Advogado, escritor, filósofo e educador. Idealizador do movimento “Pedagogia Crítica”, é também o Patrono da Educação Brasileira e um dos pensadores mais notáveis na história da pedagogia mundial. Graduado pela Faculdade de Direito do Recife, em 1947, e oriundo de uma família de classe média, vivenciou a pobreza e a fome na infância durante a depressão de 1929, uma experiência que o levaria a se preocupar com os mais pobres e o ajudou a construir seu revolucionário método de alfabetização.

Casou-se, em 1944, com a professora primária Elza Maia Costa Oliveira, com quem teve cinco filhos. Após a morte de sua primeira esposa, casou-se com Ana Maria Araújo Freire, uma ex-aluna. Foi professor de Língua Portuguesa do Colégio Oswaldo Cruz e diretor do setor de Educação e Cultura do SESI (Serviço Social da Indústria) de 1947-1954 e superintendente do mesmo de 1954-1957. Ao lado de outros educadores e pessoas interessadas na educação escolarizada, fundou o Instituto Capibaribe.

Sua filosofia educacional expressou-se primeiramente em 1958 na sua tese de concurso para a universidade do Recife, e, mais tarde, como professor de História e Filosofia da Educação daquela universidade, bem como em suas primeiras experiências de alfabetização, como a de Angicos (RN), em 1963. Ensinou 300 adultos a ler e a escrever em 45 dias. A partir daí, criou um método inovador de alfabetização, adotado primeiramente em Pernambuco. Seu projeto educacional estava vinculado ao nacionalismo desenvolvimentista do governo João Goulart.

A metodologia por ele desenvolvida foi muito utilizada no Brasil em campanhas de alfabetização e, por isso, ele foi acusado de subverter a ordem instituída, sendo preso após o Golpe Militar de 1964. Depois de 72 dias de reclusão, foi convencido a deixar o país. Exilou-se primeiro no Chile, onde desenvolveu alguns programas de educação de adultos no Instituto Chileno para a Reforma Agrária (ICIRA). Foi aí que escreveu sua obra mais conhecida: Pedagogia do oprimido (1968). Trata-se do terceiro livro mais citado mundialmente nas área das Ciências Sociais, conforme uma pesquisa da London School of Economics, segundo dados do Google Acadêmico. Outras obras: Educação como prática da liberdade (1967), Cartas à Guiné-Bissau (1975), Pedagogia da esperança (1992), À sombra desta mangueira (1995) e Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa (1997).

O fundamento de sua prática didática encontra-se na crença de que o educando assimilaria o objeto de estudo fazendo uso de uma prática dialética com a realidade, em contraposição à por ele denominada educação bancária, tecnicista e alienante: o educando criaria sua própria educação, fazendo ele próprio o caminho, e não seguindo um já previamente construído; libertando-se de chavões alienantes, o educando seguiria e criaria o rumo do seu aprendizado. Este método de alfabetização dialético, se diferenciou do “vanguardismo” dos intelectuais de esquerda tradicionais e sempre defendeu o diálogo com as pessoas simples, não só como método, mas como um modo de ser realmente democrático.

Em 1969, trabalhou como professor na Universidade de Harvard, em estreita colaboração com numerosos grupos engajados em novas experiências educacionais. Durante os dez anos seguintes, foi Consultor Especial do Departamento de Educação do Conselho Mundial das Igrejas, em Genebra. Nesse período, deu consultoria educacional junto a vários governos do Terceiro Mundo, principalmente na África. Em 1980, depois de 16 anos de exílio, retornou ao Brasil para “reaprender” seu país. Lecionou na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) e na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Na política, integrou o Partido dos Trabalhadores e foi Secretário de Educação da Prefeitura Municipal de São Paulo na gestão de Luiza Erundina (1989-1992). Durante seu mandato, fez um grande esforço na implementação de movimentos de alfabetização, de revisão curricular e empenhou-se na recuperação salarial dos professores.

Em 1991 foi criado o IPF-Instituto Paulo Freire com a finalidade de reunir pessoas e instituições que, movidas pelos mesmos sonhos de uma educação humanizadora e transformadora, pudessem aprofundar suas reflexões, melhorar suas práticas e se fortalecer na luta pela construção de “um outro mundo possível”. Atualmente vem desenvolvendo uma série de projetos educacionais além de manter e divulgar o legado de seu criador, conforme pode ser visto no site Instituto Paulo Freire. Foi reconhecido mundialmente pela sua prática educativa através de numerosas homenagens. É cidadão honorário de várias cidades no Brasil e no exterior; recebeu o título de doutor Honoris Causa de 35 universidades em todo o mundo, além das premiações: Prêmio Rei Balduíno para o Desenvolvimento (Bélgica, 1980); Prêmio UNESCO da Educação para a Paz (1986) e Prêmio Andres Belloda da Organização dos Estados Americanos, como Educador do Continente (1992). Em 13/4/2012 foi sancionada a lei 12.612, nomeando-o “Patrono da Educação Brasileira”. Faleceu em 2/5/1997. As críticas ao seu método de alfabetização e filosofia pedagógica vêm sendo contaminadas pela polarização ideológica intensificada a partir de 2018.

Recentemente foram publicadas duas biografias visando dirimir dúvidas sobre seu legado e esclarecer sobre suas reais contribuições à pedagogia: Paulo Freire mais do que nunca: uma biografia filosófica (2019), de Walter Kohan e O educador: um perfil de Paulo Freire (2019), de Sergio Haddad. Aos interessados num relato mais completo de seus trabalhos vida e concepções filosóficas, temos a biografia Paulo Freire: uma história de vida (2017), de Ana Maria Araújo Freire.

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