MENINOS, EU VI!

A selfie da inocência – eu vi

Eu vi, um dia, o mar pegando fogo. Eu vi um navio carregado de óleo pegar fogo em alto mar, na Baía de São Marcos, em São Luís, e aquele marzão pegando fogo, fazendo a água ferver para cozinhar os peixes.

Meninos, eu vi. Vi, um dia, uma lagarta caminhar centenas de quilômetros, comendo e destruindo tudo, até atingir um campo de girassóis, e ali transmutar em casulo, e voar como uma borboleta multicolorida.

Meninos, eu vi. Vi faz tempo, um jumento subir em relinchos numa jumenta, desesperada pelo gozo, e, onze meses depois, pelo mesmo canal do prazer, expelir um burrego saltitante como se fosse de borracha.

Óleo de bacalhau o pior remédio do mundo – eu vi

Meninos, eu vi. Vi, certo um dia, um homem chorando copiosamente e em desespero, por ver um dos seis filhos morrendo de fome e de sede, na terrível seca de 1957 que assolou o meu Ceará.

Meninos, eu vi. Vi e ainda me lembro, de minha Avó sentada no chão, numa tarde de domingo, me catando lêndeas e me dando cafunés – daqueles que estalavam o dedo! – enquanto eu sonhava com a maravilhosa sonata dos pássaros maviosos.

Meninos, eu vi. Vi, faz muito tempo, uma galinha das mais queridas criadas pela Vovó, botar um ovo de perua – fora “galada” por um peru tarado! – e de tanto fazer força, acabou morrendo “entalada” pelo furico.

Meninos, eu vi. Vi, certo dia, meu bom e trabalhador Avô conversando com um burro na capoeira, se lamentando da seca que levou a água que eles bebiam, matando tudo e, em lágrimas, beijando a cabeça do animal que, minutos depois morreria de sede.

Meninos, eu vi. Vi, juro que vi, como observador anônimo em Palmares, Luiz Berto ganhar três vezes seguidas na roleta do Cu-Trancado. Essa roleta, precisa ser muito amigo do dono, ou policial dos brabos para conseguir ganhar.

Meninos, eu vi. Vi e não faz tanto tempo, o nosso querido colunista Goiano, defensor peremptório de Lula da Silva, todo enrolado num belo cachecol russo, sentado na calçada da adega parisiense Le Comptoir, sorvendo taças e mais taças do bordeaux Château Bolzan.

Pinguim sobre geladeira Frigidaire – eu vi

Meninos, eu vi. Vi, juro que vi, Chupicleide se mijar-se da cabeça aos pés de tanta alegria, ao receber de Luiz Berto os salários atrasados dos meses de julho, agosto, setembro e outubro, graças às doações dos fanáticos e embevecidos leitores desta gazeta escrota.

Meninos, eu vi. Vi chegar a hora da despedida de tantos amigos feitos aqui neste ano de 2019, esperando merecer a atenção desses mesmos e de mais amigos, na leitura desta porcaria de coluna, para que Polodoro continue arrebentando “a coisa” de Xolinha. Um maravilhoso 2020 para os que aqui comparecem. Paz, alegria e saúde para todos e para as famílias.

14 pensou em “MENINOS, EU VI!

  1. Querido amigo

    Eu todo dia eu via uma colher de emulsão de Scott que minha mão me dava,tinha tambem o biotonico Fo toura.
    Oooo tempo bom.

    • Rogério: esses “remédios” que nos obrigavam a engolir, sem exceção, eram todos horríveis. Eu cansei de chorar de dor, quando via aquela coisinha da Enfermeira sendo esterilizado, fervendo, para aplicar a injeção de penicilina ou benzetacil. Que filhasdaputa para doer, mermão! Não bastasse o mercúrcio cromo, inventaram o merthiolate que ardia pra caraio. O chá da folha de sene que a gente bebia de madrugada para tirar as lombrigas do bucho. Mas, nada doía mais, porque doía na alma, que um castigo, ficando de cara para a parede. Zulive!

  2. Belo texto ZeRamos, suas lembranças são nossas lembranças, o tal da Emulsão de Scott era realmente terrível, como também o Óleo de Rícino, só escapava o Biotônico Fontoura (seria o alcco?). Tenha um ótimo domingo e um Feliz Ano Novo.

    • Marcos, essa foi legal. Tenho um amigo que por anos trabalhou na extinta Sucam, que acabou ficando dependente de álcool. Ainda hoje frequenta os AA. Quando os poucos comerciantes começaram tentar ajuda-lo e se negaram a vender cachaça ou conhaque, ele passou a ir nas farmácias. Primeiro comprava um litro de álcool e depois um frasco de Biotônico Fontoura. Misturava e bebia. Óleo de rícino é o mesmo óleo de mamona. Purgantes brabos!

    • Beni, arretado é você, irmão. Aliás, mais arretado que você nesse ano que está terminando, só o enjaulamento de K-9, né não?

    • Altamir: vais querer me dizer que na tua casa não tinha uma geladeira com um pinguim? Tinha, sim! Tinha um liquidificador com uma capa feita de croché, tinha um filtro d´água coberto com uma capa plástica. Tempos bons, nera amigo?!

  3. Otimo artigo no final de 2019.

    Essa foto do ” Selfie da inocência ” merecia um prêmio, pela
    composição da imagem. comportamento dos participantes e pela
    idéa genial do assunto retratado.
    Quanto ao óleo de figado de bacalhau, tenho certeza
    que foi inventado pelo tinhoso.

    • Johnny, para mim você é novato nas minhas postagens. Mas, sem diferenças, todos somos iguais. Penhoradamente te agradeço pelo generoso comentário. Sinceramente, essa foto da “selfie” eu peguei nas redes sociais. Não diz quem é o (a) autor(a). Com certeza, essa foto já “rodou continentes” e merece ser considerada uma das melhores (claro, a gente não viu as outras, né) fotos do mundo – tal qual aquela da menina nua, tentando sair do bombardeio de Hiroshima.

  4. Caríssimo José Ramos, grato por honrar-me mencionando minhas aventuras degustativas em Paris, onde frequentei realmente muitos restaurantes e inúmeros bistrôs, mas, a bem da verdade, não estou certo de ter-me sentado no Le Comptoir, entretanto essa menção recordou-me de um no buchicho fervilhante de St.Germain-Des-Prés, na rue de Buci, o Café Jade, bem no estilo, as mesas redondas pequeníssimas do lado de fora, todo o mundo sentado de frente para a rua, e não dá para entender como as coisas cabem nas mesas e como as pessoas cabem em espaço tão apertado sem se incomodarem umas com as outras. Ah, e o Château Bolzan, está dentro da faixa de vinhos que eu comprava quase diariamente, entre três e cinco euros a garrata, e o rótulo me pareceu conhecido. Raras vezes arrisquei um Chateauneuf du Pape ou outro equivalente, na faixa dos dezoito a vinte euros, como os Pomerol, ou mesmo os Brouilly na faixa dos sete a dez euros, porque a conversão estava e ainda está brava (pense em cinco por um…). A referência que fizeste me deu saudade da Europa, vontade de voltar, espero que Berto me envie para nova missão. Como sabes, sou Cardeal da Igreja Católica Apostólica Sertaneja e minha paróquia abrange Paris e adjacências, a perder de vista, incluindo Itália, Suíça. Bélgica, Portugal, Espanha, Alemanha, República Tcheca, Holanda, Holanda, Inglaterra, Dinamarca, Suécia, o resto da França e muito mais, o que multiplica os motivos para minhas idas e longas estadas no Velho Continente. Grande abraço!

    • Obrigado parceiro. Eu jujro que te vi, sentado, na frente do Le Comptoir, degustando um Bolzan. O Garçom até te cumprimentou, demonstrando tua assiduidade. De longe, deu pra ouvir que tentastes pagar com uma nota de “vinte mangos” dos nossos! Kkkkkkkkkkkkkkkk

  5. Zé Ramos, querido irmão e amigo!

    Você é o cara com suas crônicas maravilhosas, com estilo próprio, maravilhosamente sensacionais!

    Feliz 2020, amigo do coração, com muita saúde, paz e harmonia entre todos da família Ramos!

    De mim que lhe tenho uma grande admiração e estima, só me resta agradecer-lhe por todas as crônicas maravilhosas publicadas aqui nessas páginas, como bem o disse o Goiano, do jornal mais democrático do mundo!

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