JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

Caju “in natura” e a paçoca de castanha de caju

Vamos voltar ao sertão, onde ainda existem coisas boas e pessoas com as melhores virtudes dadas por Deus. Aprenderam fazer sempre o bem – por terem certeza que o retorno será sempre o melhor.

Pois, lembrando disso, volto ao sertão na primavera, finzinho de setembro, quando o caju já amadureceu e a gente pode usufruir do que a Natureza oferece – incluindo nesse cardápio, os nasceres e os pores do sol. Como se Leonardo Da Vinci assinasse as mais belas das suas pinturas.

O caju tá maduro. Cheira e nos atrai ao usufruto, como se fosse uma cadela no cio, embevecendo o macho pelo cheiro do feromonas expelido pela vulva junto com a urina. É o estro, conhecido também, como cio, e é nesse momento que acontece a fertilidade. O caju, pelo cheiro forte, atrai as abelhas e os humanos consumidores. Está maduro e, mal comparando, podemos dizer que está no cio.

É nesse momento que o caju produz mais suco. Quando está no cio. E, é nesse instante, que a gente “espreme” o caju para obter mais suco. Espreme com as mãos, pois a gente só “precisa retirar o líquido”. Separamos o suco, e vamos assar e pilar a castanha – num pilão (nada de usar outro equipamento – esse rico alimento tem origem nas tribos indígenas, desde quando eles jamais imaginavam que, um dia, pudesse vir existir o “liquidificador”), produzindo uma paçoca de castanha.

Põe-se uma generosa porção de paçoca num prato (ou outra vasilha) e, em seguida, acrescenta-se o suco. No interior do Ceará, esse alimento rico em tudo, é conhecido como “mocororó”.

Paçoca de carne seca (ou carne de sol)

A paçoca é hoje um excêntrico componente da culinária nordestina. Tradicionalmente servida como “merenda” ou “tira-gosto”, ou ainda, componente dos reconfortantes cafés das tardes, a paçoca tem como principal componente, a carne bovina – por ser mais consistente. A alcatra ou o filé mignom não são carnes adequadas para a paçoca. Usa-se mais a chã, o patinho ou mesmo o lagarto. Esses, antes, transformados em carne de sol, ou, como diz o bom linguajar cearês, “carne seca”, por ter sido posta ao sol para secar.

No início, a paçoca era feita dessa carne, frita que, somada à farinha seca, era socada num pilão, sempre servida como acompanhamento do feijão verde cozido, e bons nacos de abóbora ou batata doce.

Nos dias atuais, a paçoca é vendida em porções nos eventos da culinária nordestina. Acompanhada de uma cerveja gelada é algo imperdível por quem aprecia coisas gostosas.

10 pensou em “O MOCORORÓ E A PAÇOCA

  1. Que delícia esse caju , essa descrição do caju e esta paçoca de caju , que nunca ouvi falar.
    Paçoca de carne de sol fica numa vasilha encima da mesa o dia todo,no norte de Minas, e cada um que passa joga na boca um punhadinho. Uma maravilha.

    • Dra. Valéria, sabe aquele dito popular, “a gente sai do sertão, mas o sertão não sai da gente”? Pois, minha cara amiga, vez por outra, vou ao sertão, tanger pato, botar milho para as galinhas e assoviar para o peru fazer glu-glu-glu, e vejo que pouca coisa mudou. Os caititus que eram movidos pelo boi na farinhada, agora tem o benefício da eletricidade; aquele moinho que a gente armava na ponta da mesa para moer carne, agora foi substituído pela máquina; mas, não temos ainda (felizmente) substituto para o pilão. Ali a gente soca ou pila, milho torrada para fazer fubá, carne com farinha e cebola para fazer paçoca. Aí a gente “arrudeia” por detrás da casa, e ainda vê aquela cachacinha sendo destilada! Sabe quando vou trocar todas essas satisfações pelo ar refrigerado e contaminado dos shoppings? Nunca, siora!

  2. Bom dia ZéRamos! Como sempre, texto primoroso, lembranças do “nosso” Nordeste afloram, confesso que não lembrava mais do mocororó, espremia o suco, colocava em um litro vazio, tampava com um sabugo de milho, passávamos um esparadrapo e enterrávamos em qualquer chão úmido, após uma semana após, nosso “nectar” estava pronto, era porre na certa, quanto a paçoca, faço até hoje e como não tenho pilão, uso o liquidificador.

    • Marquinhos, a gente enterrava o “sumo” do caju, mas era pra fazer “cajuína”. E essa cachacinha eu também fazia. A gente “batizava” essa maravilha, pingando um pouco do “sumo” do caju azedo! Creio em Deus Pai, ficava uma “maravia”!

  3. Excelente texto.maravilha de quem ama a natureza e não se
    ilude pelas coisas modernas e frabricadas.
    O CAJU para mim é uma das frutas mais deliciosas deste Brasil
    nordestino.
    Nunca tinha ouvido falar em CAJU NO Cío, mencionado pelo seu
    texto maravilhoso que nos deixou com a boca aguada
    Quanto a paçoca,de carne de sol, por favor para de ficar
    tentando a nossa fome com esses nectares de Deus. Isto é pecado, sabia ?
    Uma vez, visitando a cidade de Recife, comi carne de sol
    pela primeira vez. Até hoje sinto o gosto e o cheiro
    de tão deliciosa iguaria.

    • d.matt: “caju no cio”, na minha terra a gente diz, quando a fruta está bonita, pomposa, cheirosa a ponto de tentar e atrair pássaros e abelhas.

  4. É indescritível o que OLIVEIRA terminou de narrar para os leitores do JBF. Daqui vai duas estrofes de um versinho do grande poeta Guibson Medeiros:

    Eu tenho orgulho de ser nordestino
    do Piauí, da Paraíba ou da Bahia
    de Pernambuco, do frevo e da poesia
    de Sergipe, de Alagoas e do destino
    do artesanato das mãos de Vitalino
    e do talento de Jackson do pandeiro
    porque todo nordestino é brasileiro
    mas nem todo brasileiro é nordestino.

    Tem comida extraordinária
    da França, Itália e da China
    tem também da ordinária
    e tem aquela que é granfina
    tem da chic e da primária
    só não tem na culinária
    quem supere a nordestina.

    • Altamir: obrigado meu velho. Ficou melhor do que aquela tradicional cena do enfrentamento nos nossos bons filmes de faroeste: o mocinho sai do saloon, tem close das portas passando uma pela outra e volta o zoom para a fr4ente da igreja, onde o ponteiro está quase chegando na hora marcada. Vai, dirige esse filme, que você faz isso melhor que eu!

  5. Quanta saudade me dá mamãe fazendo aqueles deliciosos cuscuz fofinho para depois ser comido com carne de charque nem magra nem gorda (leruaite, mais ou menos), que papai trazia da feira! 2 kg. 3 kg…, tudo dependia da grana disponível na hora!

    Paçoca de carne seca, quanta delicia! A gente comia tanto que mamãe recriminava: “quando tiver morrendo pela boca, vai me apanhar”! Eita chefa de cozinha das melhores que já vi! E nunca fez uma curso de culinária que, aliás, na época não existia. Tudo era feito na base da necessidade.

    E necessidade faz sapo voar!

    Obrigado, Zé, pelo belíssimo mocororó e a paçoca.

    Os índios cearenses da tribo dos tremembés eram craques na arte de fazer vinho de caju.

    • Cícero: o Papa Berto, gosta mesmo é de uma Sanhaçu com cajá umbu. Agora, o doutor sacaneou com ele e proibiu. Mas, de vez em quando ele vai até Palmares e, escondido toma duas com o dono da Roleta do Cu-Trancado. Essa carne aí que tu falou, “mais ou menos gorda”, a gente usa aqui no Maranhão é para fazer “arroz de Marisabel” – que vem a ser o mesmo arroz de carreteiro lá dos pampas..

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