JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

O céu tá ficano vremeio. Com certeza, é coisa de Deus. Só pode!

É o que minha vista tá alcançando. Daqui mais com pouco, o dia tá amanhecido.

Era assim!

Sempre foi assim na visão do povo que produz para dar o dicumê que quem num planta e ainda reclama o preço!

E o dia tá chegano. Clarim, clarim com um sol maravilhoso.

O rádio portátil ou não, dá a direção de tudo

Seu Messias, antes mesmo de tomar o café com beiju, babata doce cozinhada e amassada num prato de barro onde vai botar leite de cabra fervido, tá sentado no batente da porta da cozinha escutando o rádio. O programa matinal do rádio diz tudo. Dá tudo que muitos precisam ouvir antes de pegar o matulão e partir pra roça.

De repente, a característica sonora do Repórter Esso invade os tímpanos de Messias:

– Atenção, muita atenção!

Em cadeia nacional, o seu Repórter Esso informa: “Morreu o Presidente Getúlio Vargas! Dentro de instantes, diretamente do Palácio do Catete, no Rio de Janeiro, mais detalhes desse fatídico acontecimento”!

Assustado, Messias nem conseguiu levantar do batente da porta.

Rádio Philco antigo

Era assim. Foi assim durante muito tempo.

O programa de rádio era o GPS de quem morava na roça. Informava desde chá para combater gripe, ensinava como assar uma carne na panela de pressão, ensinava como tomar medicamentos alopáticos. Tipo: “Melhoral, melhoral! É melhor e não faz mal. Ou, ainda: “Vick vaporub, o descongestionante das crianças!

Ícones desconhecidos entravam pelas portas da frente das casas, deitavam nas redes e nas camarinhas sem pedir licença. Sempre através do rádio.

Heron Domingues, Narcélio Limaverde, Gontijo Theodoro, Ivan Lima e até Valdir Amaral, o “indivíduo competente – dez é a camisa dele.”

Atualmente os programas radiofônicos só tocam música. Não sei se em obediência à legislação, mas o rádio AM está sendo substituído pelo rádio FM. Tremendo desserviço para os “Seu Messias” da roça e da vida.

A noite chegando e trazendo chuva

Durante anos, nas emissoras PRE-9 e Assunção Cearense, OLIVEIRA RAMOS, meu irmão que chegou (e foi embora) primeiro, se transformou no GPS dos Messias da vida, comandando um programa sertanejo, no entardecer de cada dia: “Segura o bode”!

Era ao mesmo tempo o nome e o chavão do programa sertanejo, que Ele misturava com histórias e estórias vividas no sertão, nas Queimadas, na Guaíúba e na Pacatuba – mas tinha alcance estadual, e, provavelmente, nacional.

Mudou o rádio, ou, mudamos nós?

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