“Lava roupa todo dia, que agonia
Na quebrada da soleira, que chovia
Até, até sonhar de madrugada
Uma moça sem mancada
Uma mulher não deve vacilar”
Depois de caminhar alguns minutos pelas veredas na direção do açude, Zoraide de Juca – nos interiores do Ceará, ninguém é conhecido pelo sobrenome. Alguém sempre será “Zé de Miguel”, “Zoraide de Juca”, “Beatriz de Luciano”, “Domingo de Zenaide”, e daí em diante – carregando na cabeça uma bacia com roupas e uma rede cagada para lavar.
No bornal, uma barra de sabão em pedra, cachimbo, uma faca pequena, fumo de rolo, rapadura e farinha seca para a merenda. A água já tem no açude.
Mais com pouco chegam Damiana de Inácio, Domingas de Getúlio e Sandra de Zezim do Bode – assim conhecido por ser o único matador de caprinos nas redondezas.
Pronto. Está formado o mais antigo grupo de zap-zap. Tem até nome registrado no cartório do povoado: “Amigas do Açude e do Sabão”.
– A trouxa hoje tá muito grande, por isso vou cuidar comigo! Falou Domingas de Getúlio!
– Mermã, a minha também não tá pequena e o diacho é que é quase só roupa branca. Os meninos vão precisar pra ir à missa no domingo, disse Sandra de Zezim do Bode.
Eis que o conversê muda de tom:
– Muié, tão dizeno que a fia de Maria do Rosário tá de bucho! Tá prenha mesmo… e não quer dizê quem é o pai, prumode num dá confusão!
As muiés reunidas na lavação
Naqueles tempos passados, “embuchar” a fia de alguém conhecido, tinha que casar. E, se não casasse, o buraco era mais pro lado do que pro meio. O cabra ia se ver!
Domingas de Getúlio não parava de falar. Mas, também não parava de esfregar a roupa. Repentinamente, saiu de soslaio pras bandas do matagal. As outras pensavam que ela tinha “ido conversar com o sabugo de milho” – mas, não foi, porque não levou a vara prumode ispantá os poicos.
Quando menos as outras esperavam, Domingas tava de volta. Tava de volta com uma braçada de ramos de melão São Caetano, que, nas necessidades, dava pra substituir o sabão – só num dava quando a roupa a ser lavada era branca.
– Mulé de Deus (disse Damiana de Inácio), o teu sabão acabou-se foi? E por causo de que tu num falô, mulé?! O sabão que eu truxe vai dá que sobra!
Damiana de Inácio lavando uma rede
– Deixa assim, cumade! Eu num calculei dereito a quantidade de roupa – disse Domingas.
– Ora, bom basta! Retrucou Damiana de Inácio.
Era chegada a hora da merenda. O sinal era o afastamento das amigas para a sombra grande e confortável da ingazeira.
Bacias e cumbucas pra cá, latas vazias pra cá e a merenda começou a aparecer. Nisso, Damiana de Inácio olhou para as amigas e começou a sorrir, certamente lembrando de alguma coisa do passado.
A cobrança veio rápida. Conta Dami, conta. Pediram as outras.
– Se essa ingazeira tivesse boca e falasse!….. KKKKKKKKKK
– O que foi mulé? Perguntaram as outras.
– Afffmaria! O hôme era um jumento, vote! Começou Damiana.
As outras arregalaram os olhos em expectativa.
– Vocês são doidas, num posso dizê! Só digo (gargalhando alto) que o hôme era um jumento. Mas que foi bom, isso foi! Concluiu Damiana.
– Só pode ter sido Getúlio, descobriu Sandra de Zezim do Bode!
– E, como diabos tu sabes, que Getúlio é um jumento, mulé?! Perguntou Domingas, já exigindo explicações!
Foi nesse exato momento que a filha de Maria do Rosário, a grávida, aparece. Foi, também, quando aquele assunto acabou.
– Saliente que só, Damiana, que naquele ambiente de lavação de roupa na beirada do açude, sabia de tudo, vociferou:
– Eita, espia aí a buchuda! Será que vai nascê um “jumentinho”???!!!

