JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

Rapé no corrimboque

Tia Maria era a primogênita da minha avó. Mais velha que minha mãe – nasceram apenas elas duas. Minha mãe era neta de índia e Tia Maria, também, claro. Apesar disso, existia muita diferença física entre as duas. Minha mãe tinha o cabelo tipo “Black Power” e Tia Maria tinha o cabelo tipo Iracema, a virgem dos lábios de mel, personagem de José de Alencar. Minha mãe era mais do lado negro, africano. Tia Maria era totalmente “índia”.

As duas foram criadas no ambiente das dificuldades inerentes à época – 1915 para frente e, muitas vezes, se deixaram flagrar juntas rindo das “coisas do mundo moderno” que chegaram a viver nos anos 60. As duas são falecidas.

Tia Maria não conheceu totalmente os aspectos orgânicos da mulher. Nunca menstruou. Sim, antigamente, provavelmente por conta da alimentação diferente dos dias atuais, as jovens só conheciam menstruação depois dos 18 anos. Hoje, as meninas já sabem disso aos 11 anos.

Tia Maria casou aos 16 anos com Antônio Luciano, cabra bom de trabalho. Verdadeiro mestre no manuseio da foice, da enxada e do machado. Nascido no interior do Mato Grosso, chegou ao Ceará com vinte e poucos anos. Arrumou trabalho e terra para morar. Nem “esquentou tamborete” namorando e já foi pedindo para casar com Tia Maria.

A partir daí, Tia Maria não conheceu menstruação. Engravidou, pariu aos nove meses. Antes de conhecer o ciclo menstrual, já estava grávida novamente. Era, como dizíamos – os sobrinhos – “saindo gente e entrando gente”. Foram 23 filhos, todos vivos até a maioridade. De noite, a casa, com tantas redes, parecia uma hospedaria em dia de lotação.

Tia Maria fumava cachimbo e mascava fumo – uma cusparada dela matava qualquer mangangá e paralisava qualquer rola-bosta.

Mas, a principal diversão de Tia Maria era “cheirar rapé”. Quando estava grávida – e sempre estava – não fumava nem mascava. Aliviava a tensão e bolinava o vício cheirando rapé. O rapé que ela mesma fazia.

Mandava comprar fumo de rolo, daquele bem curtido, desenrolava e punha a secar ao sol. Torrava o fumo num alguidar de barro próprio para aquele serviço. Fazia o mesmo com a semente da imburana e ainda acrescentava a casca seca e esfarelada do cumaru.

Em algumas cidades interioranas do Nordeste, o rapé é largamente consumido e utilizado para provocar espirros que livrem da “constipação”, aliviando a respiração. Alguns usuários se viciam – caso da Tia Maria.

Numa bela manhã Tia Maria resolveu merendar algumas mangas. Comeu por ela, pela criança que tinha na barriga e por ela de novo. No dia seguinte a caganeira não esperou pelo raiar do sol. Dia claro, e Tia Maria já estava correndo para o buraco da merda, local onde as pessoas faziam suas necessidades fisiológicas. Cagou que deu tremedeira. Continuou cagando aquela bosta rala o dia todo.

– Eita! Vai acabá cagano inté o minino! –  advertiu Antônio Luciano.

– Mermão, hômi de Deus, tu quer que eu faça o que?

Tia Maria havia escutado, mas não se lembrava quando nem onde, que além dos remédios caseiros, o bom para acabar com aquela caganeira era esquecer. Esquecer até que tinha fiofó. E, para esquecer ou lembrar de alguma coisa, Tia Maria sabia que o bom mesmo era cheirar rapé.

– Minino, traz daí o meu corrimboque! – pediu a um dos filhos que estava mais próximo.

Zé Luciano, de oiças bem abertas escutou o pedido-ordem da mãe e se apressou em obedecer.

Tia Maria deu duas cafungadas no rapé. Não demorou e a resposta veio. Começou a espirrar. E tome espirro e mais espirro.

– Mulé, tu tá suano frio, quidiabos tu tem? – arguiu Antônio Luciano.

E tome espirro e, a partir daí, quanto mais espirrava, mais Tia Maria se cagava. Era um espirro pelo nariz e uma chicotada de merda por baixo. E tome rapé e tome espirro e tome caganeira!

A queda de pressão e o suor frio de Tia Maria começaram a preocupar Antônio Luciano, que se apressou em chamar a Rezadeira do lugar, Gertrudes de Noca, ficando mais aflito depois que Tia Maria desmaiou. Mas os espirros não paravam. Nem a caganeira, agora de chicotadas!

Gertrudes de Noca chegou, começou a rezar “in cruz” com capim limão, arruda e pião roxo. Ao passar alho nos pulsos de Tia Maria e perceber que essa despertara, Gertrudes de Noca perguntou:

– Maria, acorda Maria! Tu tá sentino arguma coisa? Tu quer arguma coisa?

– Quero o meu corrimboque, com o meu rapé!!! – respondeu Tia Maria.

14 pensou em “O CORRIMBOQUE E O RAPÉ DA TIA MARIA

  1. Zé Ramos, depois que li sua coluna a primeira vez, nunca mais deixei de fazê-lo.
    Já até li em voz alta para a minha esposa.
    Tornei-me seu fã. Seu fã a partir daquela sua crônica contando de quando seu pai levou a família para uma cidade maior. Ele assumiria um emprego.
    Fã dessas narrativas que mais parecem ouvidas naquelas rodas de calçadas do interior, antes do advento da TV, quando vizinhos se aproximavam para trocar risadas das experiências uns dos outros.
    Por incrível que pareça da calçada de papai e de João de D. Miriam, nossos vizinhos há cinquenta anos, foram ressuscitadas tais reuniões.
    Obrigado por suas calçadas, Zé Ramos.

    • Jesus, vou me alongar na resposta: um amigo que me apresentou ao João do Vale, ambos nascidos em Pedreiras/MA, é um artista para contar essas histórias/estórias passadas e vividas. Certa vez me contou que, um fazendeiro de Pedreiras mandou cavar um açude na propriedade dele e ali depositou alguns filhotes de várias espécies. No verão, a quantidade d´água diminuía por conta da evaporação e ele aproveitava para mandar plantar legumes e verduras no que chamava de “vazante”. Eis que apareceu uma pessoa apelidada de “Nêgo Izídio” e, mesmo sabendo que aquilo não lhe pertencia, pegou um cofo (surrão ou jacá) e começou a recolher o que precisava para comer com a família. Coincidentemente, quando ele esatva enchendo o cofo, o dono do açude chegou e, foi logo dizendo: “Mas, Seu Nêgo, o senhor não sabe que essa vazante é minha?” No que Izídio respondeu: “Hômi largue de conversa e me ajude logo a botar esse cofo na cabeça”! Quer dizer, o ladrão não queria saber de nada. Queria era saciar a fome da família. Assim eu te digo: hômi largue dessa conversa fiada, pegue o tamborete , se abanque e vamos prosear! Kkkkkkkk

  2. Meu pai também tinha um corrimboque, mas lá nos confins do sertão das Alagoas era conhecido como tabaqueiro. Eu, às escondidas, enfiava o dedo no tabaco e saía espirrando, rsrsrs.

    • Eita Beni, esse negócio de enfiar o dedo no tabaco, para alguns ainda hoje é mania. No Ceará, “tabaco” é sinônimo de vagina. Kkkkkkkkk

  3. Eu masquei fumo e cherei rapé por mais de 10 anos e se soubesse que ia morrer de outra causa voltava a fazer osso hoje mesmo, porque é bom demais.
    Obrigado pelo texto Seu Zé.

    • Neto, cheirar rapé é bom. Hoje tem um grande contingente que só consegue mesmo é cheirar tabaco. Kkkkkkkkkkk e nem espirra mais!

    • JF cada um com seu cheiro preferido. Eu gosto mesmo é de cheirar o vento, a cor, a água e, quando posso, beijar a lua. Tudo me alivia e permite continuar vivendo.

      • Era uma brincadeira. Mas vou relatar um caso : ia pegar o subúrbio na estação de São Caetano e estava com enorme dor de barriga . E é fato que sempre existe um meio de piorar as coisas , e a CPTM estava com seus trens com horários atrasados . Estação lotada , não dava para ir ao banheiro . Chegou uma composição após muito tempo . Embarquei . Lotada tive que deixar os pensamentos do lado de fora . Ela rodou por uns setecentos metros e parou. Mas a dor de barriga continuou . Se alguém contasse uma piada , ou eu tossisse seria um descalabro. Imagine se alguém alí tivesse um potinho de rapé?. A constrição do esfíncter poderia não ser suficiente para conter a massa.

        • Pois é! Kkkkkkkkk. Essa “constrição do esfincter”, às vezes, corta até prego, né não? O ruim, quando a gente vai “ao mato” é não ter porco nem galinha, mas esquecer o sabugo. Kkkkkkkkk

  4. Seu José Ramos, lá no sul das gerais quem cheirava rapé, usava uma bolsinha de couro chamada boceta, ali se colocava o rapé para usa-lo nos momentos desejados. Boceta lugar para levar fumo, muito conveniente né não ? Um abraço.

    • Paulo, também acho! Infelizmente, segundo um amigo fraterno de nome Rosalino Diniz, que no último dia 5 de setembro comemorou 103 anos, “o mundo tá virado”. Tem gente que gosta de levar o fumo noutro “depósito”, né não? Mas, cada um guarda o fumo onde desejar, né não?

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