CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

A fila era tipo quilométrica. Um Caixa-executivo que recentemente havia chegado do Piauí, um tal de “Cid Bala”, estava demorando com a solução do pagamento de uma transferência à ordem de uma Irmã de Caridade que se chamava Antonia (sem acento) Bernarda da Silva.

A freirinha havia assinado sem acento e “Cid Bala” solicitou que na assinatura ela colocasse o “chapeuzinho”. Já estava até com o dinheiro contado para pagar e a Ordem de Pagamento continha o acento circunflexo.

Ela argumentou muito delicadamente que o nome dela não tinha o “chapeuzinho” e que há mais de 32 anos ela assinava tudo quanto era documento sem tal “enfeite”, digamos; inclusive a Identidade fornecida pela Secretaria de Segurança Pública de Paraíba, que estava com o referido Caixa-executivo.

Ocorre que a Ordem de Pagamento determinava: Pague-se a Antônia Bernarda da Silva ou à sua ordem, a quantia de Cr$ 2.000,00 (dois mil cruzeiros) e o assentozinho estava lá…

Pra não discutir com a religiosa, o Caixa, pediu licença e foi ao Chefe do setor, Alberto de Sá Mota, que havia ido ao sanitário, porque estava “chumbado” por uma diarreia infame, que o fustigara desde a madrugada, daquela espécie tipo “chicotinho”.

Funcionário zeloso, Cíd Ferreira da Silva, carinhosamente conhecido por “Cid Bala”, grafotécnico recém-diplomado, desejava obter o reforço do chefe em sua decisão, a fim de solucionar a questão, solidificando sua atitude, claro.

A freirinha, decidida, não arredava o pé. Nem poderia!

A demora do chefe na privada, ocasionou problemas na fila e “Cid Bala” resolveu despachar outros clientes enquanto o chefe aliviava os intestinos.

A fila andando e a freirinha já se arretando. Afinal por causa de uma simples “decoração” numa palavrinha ela estava presa diante de um guichê de pagamentos do Banco onde havia chegado cedo e estava no primeiro lugar.

“Cid Bala” – muito “caxias” – pediu desculpas pela demora, mas disse que não tinha poderes para lhe pagar sem o “chapeuzinho”. Por isso apelara para o chefe que estava fazendo um “procedimento inadiável” fora da de sua mesa. Teria que esperar um pouquinho mais.

Para aliviar a tensão a freirinha começou a rezar utilizando um terço. O instrumento de reza, como sabemos, representa a terça parte do Rosário – conjunto de orações proposto pelo frade Alan de Rupe, em 1470.

Sua origem remete à recitação dos 150 Salmos bíblicos. Pela dificuldade dos fiéis em decorar os Salmos, estes foram substituídos por 150 “Pais-Nossos”, que eram rezados (e contados) com 150 pedrinhas numa bolsa de couro e, mais tarde, com 150 nós em um cordão.

Segurando um terço, chega o momento em que a freirinha o guardou e “soltou os cachorros”, porque há quase 30 minutos estava à espera de decisão:

– Olhe, meu senhor, esse dinheiro não é pra mim não. É pro Convento de Camaragibe e quem remeteu foi meu irmão, que mora em Curitiba e arrecadou com o pessoal de lá. Deve ter sido o funcionário do Banco que colocou o “chapeuzinho”, porque o mano sabe que meu nome não tem essa besteira.

“Cid Bala”, já aflito, pois era Caixa novo na função, retornou ao setor onde situavam-se vários wc, e na ânsia de apressar a solução, caiu na besteira de bater na porta, bem de leve, e narrou para o “cagante” o motivo de sua angústia.

Após a narrativa, ouviu um palavreado pouco ortodoxo do chefe Stênio de Sá Mota, que era meio desbocado:

– Homem, pelo amor de Deus, não sabe que eu estou com essa caganeira miserável?! Pague a esse diabo dessa freira e deixe o galho comigo! Mas me permita que eu continue a cagar em paz lendo meu jornal!

Ô circunflexo infame!…

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