Era uma típica cidade do interior, a pracinha com coreto em frente à igreja. No quarteirão ao lado, o pequeno grupo escolar onde reinava dona Irma, professora da turma única onde crianças de várias idades se misturavam para as aulas de português, matemática, história e geografia. Carinhosa mas rígida na disciplina, dona Irma era respeitada por todos – afinal, ela tinha sob seus cuidados a prole da cidade inteira.
Crianças mais espertas ou mais burrinhas eram tratadas com a mesma dedicação. Para cada uma, dona Irma descobria o jeito e o ritmo certos para fazê-las aprender. Para as mais indisciplinadas, restava o recurso de uma visita da professora à casa dos pais. No dia seguinte, a cidade toda sabia que a família do fulano tinha recebido uma visita de dona Irma, e essa vergonha era estímulo suficiente para que os pais encontrassem um jeito de colocar o filho no caminho certo.
Os incorrigíveis eram extremamente raros, mas existiam; foi o caso do Juquinha. As visitas de dona Irma à casa de sua mãe viúva eram frequentes: Juquinha não estudava, não fazia as lições, tumultuava as aulas, perturbava os colegas. A mãe prometia providências, mas nada acontecia.
Um dia, Juquinha resolveu celebrar as festas juninas estourando bombinhas dentro da sala, e por pouco não incendiou a escola inteira. Foi a gota d’água para a professora: na mesma noite, foi à casa de Juquinha pela última vez e comunicou que o menino estava expulso, em nome da segurança dos demais alunos.
A mãe de Juquinha reagiu mal: xingou a professora, acusou-a de perseguição e por fim declarou que iria embora da cidade que rejeitava seu filho. Iria para uma cidade grande, declarou, e trabalharia dia e noite se fosse preciso para que seu filho pudesse frequentar uma boa escola, entrar para uma faculdade e virar doutor. A promessa não era vã: no dia seguinte Juquinha e sua mãe entraram em um ônibus e nunca mais foram vistos na cidade.
***
Trinta anos depois, a pequena cidade estava crescida. Muita coisa estava diferente, mas o grupo escolar continuava no mesmo endereço. Era um prédio novo, com várias salas e turmas. A diretora era dona Irma, que acumulava a função com a de professora, porque não queria deixar de fazer o que mais amava: ensinar.
Dos naturais da cidade, poucos não haviam sido alunos de dona Irma, e por isso a notícia de que ela havia passado mal e sofrido um desmaio durante a aula correu a cidade com a velocidade de um furacão. O médico mais respeitado da cidade, que também era o secretário municipal de saúde, após examinar dona Irma no colégio, foi até a prefeitura e entrou no gabinete do prefeito com cara preocupada:
– Prefeito, examinei dona Irma e receio que o caso seja grave. Não posso fazer muita coisa aqui. Ela precisa ir para um hospital com mais recursos, e quanto antes melhor.
Não foi preciso argumentar mais; em pouco tempo, o prefeito determinava que a única ambulância da cidade levasse dona Irma e o Secretário para o melhor hospital da capital.
No dia seguinte, o secretário ligou para o prefeito com informações. Dona Irma tinha um aneurisma no cérebro, gravíssimo. Era quase um milagre ter sobrevivido à viagem de quase três horas na ambulância. Ela estava sedada e sob vigilância constante. Se o aneurisma rompesse, seria morte imediata. A esperança, completou o médico, é que as imagens dos exames já estavam sendo enviadas, via Internet, aos melhores especialistas de todo o país.
Mais um dia se passou, e o secretário voltou a ligar: quase todos os especialistas consideraram o caso inoperável. Apenas um médico, de São Paulo, se dispôs a tentar, e mesmo assim ressalvando que as chances eram pequenas. Mas o problema era: como levar dona Irma até lá? Os riscos eram enormes.
O prefeito ligou para todos seus amigos e até para alguns inimigos. Fez dezenas de ligações para todos os figurões de Brasília. Acabou conseguindo um avião-UTI que poderia levar dona Irma à São Paulo. As ruas no caminho do hospital ao aeroporto foram bloqueadas pela polícia para que a ambulância fizesse o trajeto com a maior calma e segurança possíveis.
Em São Paulo, dona Irma, ainda inconsciente, foi desembarcada do avião e embarcada em um helicóptero que a levou ao hospital, onde a equipe médica a aguardava já na sala de cirurgia.
***
Apenas dois dias depois os médicos interromperam a sedação e permitiram que dona Irma despertasse. Quando abriu os olhos, sem saber onde estava, a primeira coisa que viu foi um homem de meia-idade, vestido de branco, sorrindo para ela:
– Dona Irma, que bom ver que a senhora está bem. Eu estava aqui esperando que a senhora acordasse.
– Mas onde estou, e quem é você?
– A senhora está em um hospital, dona Irma. A senhora foi operada, mas não se preocupe, tudo correu bem, a cirurgia foi um sucesso, a senhora já está boa. E eu, eu sou o Juquinha, que foi seu aluno, lembra-se de mim?
Lentamente, dona Irma reconheceu seu antigo aluno no rosto sorridente à sua frente. Sim, era Juquinha, o aluno que ela expulsara do colégio. Juquinha era faxineiro do hospital, e quando reconheceu sua ex-professora ao limpar o quarto quis ficar ali até que ela acordasse.
Você não achou que Juquinha tinha se tornado o melhor neurocirurgião do país, achou?
Feliz Primeiro de Abril!
Excelente!