VIOLANTE PIMENTEL - CENAS DO CAMINHO

Há décadas, na minha querida Nova-Cruz (RN), uma vez por outra chegava um Circo, que armava perto da nossa casa, na Rua Barão do Rio Branco. O mais alinhado deles era o Circo Copacabana.

Nessa época, não havia televisão e a distração do povo, à noite, era se sentar nas calçadas para conversar. Com a chegada do Circo, a monotonia da cidade era quebrada e se notava o semblante alegre das pessoas.

À estreia, a cidade em peso comparecia, incluindo o Prefeito, o Delegado, o Juiz de Direito, o Promotor e o Médico, todos com suas respectivas famílias.

No Circo Copacabana, o espetáculo era divido em duas partes. A primeira era composta de atrações de palco e picadeiro. Aí se incluíam palhaços, trapezistas, equilibristas e malabaristas. No palco, cantores maravilhosos e a grande sanfoneira Alda Lima, que do seu instrumento de trabalho arrancava as mais belas canções, cantando e encantando a plateia.

A segunda parte do espetáculo circense era uma peça de teatro da melhor qualidade, drama ou comédia, onde os artistas se revelavam grandes atores. Foi no palco do Circo Copacabana, que assisti, pela primeira vez, “O Ébrio”, “Coração Materno”, “A Megera Domada” (de William Shakespeare), “O Solar dos Urubus”, “A Canção de Bernadete”, “Marcelino Pão e Vinho”, “A Paixão de Cristo” “O Burguês Fidalgo” (de Molière), e outras grandes peças que fazem parte da dramaturgia brasileira.

Os Circos antigos, apesar da falta de luxo, tinham muito mais valor cultural do que os atuais, pois incentivavam a arte da dramaturgia, encenando peças de importantes autores, nacionais e internacionais. O apresentador, geralmente, era o dono do Circo. Com a emoção estampada no rosto e na voz, solenemente, ele anunciava a segunda parte do espetáculo e a peça teatral a ser encenada, dizendo o nome do autor.

Os aplausos eram estrondosos!!!

Nessa época, em Nova-Cruz, não havia violência. Essas doces lembranças se referem a um tempo feliz, quando a maldade ainda não tinha nascido!

Ainda meninota, assisti no Circo Copacabana, na companhia dos meus pais e irmãs, a uma comédia engraçadíssima, que minha Mãe sempre relembrava e da qual nunca esqueci. O nome era “O Solar dos Urubus”.

Começava com vários homens de capa preta, dançando em forma de trenzinho, ao som de “Olhe a Conga”: “Olhe a conga/Olhe a conga/ Mulher bonita de mim não zomba.”

A história se passava num bordel decadente, transformado em Palácio, mas conhecido como “Solar dos Urubus”, por atrair muitos urubus ao telhado, uma vez que, nas imediações, havia um matadouro público. Localizado numa ilha fictícia, chamada Bananal, era lá que estava instalada a capital do País. Ali, abundavam melancias, bananas e abacaxis.

O regime político que ali imperava era um confuso regime monárquico.

O palácio era habitado pela família real e frequentado por ministros, generais, conspiradores, um esfaqueador, compositores, maestros, professores e músicos. Pelas ruas, havia muitos vendedores ambulantes, lavradores, amantes do rei e o povo em geral.

A ilha era cercada de tubarões por todos os lados e em todos os sentidos. Lá, se desenrolava uma verdadeira aventura política de capa e espada, reunindo humor e aventura.

Os filhos do Rei eram ingênuos, quase abobalhados, e tinham o raciocínio lento. O mais velho, Luan, queria, porque queria, ser arqueiro. Vestia-se de Guilherme Tell (um herói lendário do início do século XIV, de disputada autenticidade histórica, que se pensa ter vivido no cantão de Uri, na Suiça) e, quase todos os domingos, mandava amarrar um homem a uma cadeira, com uma fruta na cabeça, nos jardins do Solar, onde o povo podia assistir à sua demonstração de “arco e flecha”. Começou com uma maçã, fruta nobre e antiga, que já existia, até mesmo, no paraíso. Como a fruta era pequena, ele sempre errava o alvo e atingia o homem.

Pela sequência de “erros” cometidos, o Rei ordenou-lhe que usasse uma fruta maior como alvo.

Cachos de banana, abacates e abacaxis foram usados, terminando com melancias. De nada adiantou.

Em busca de fortes emoções, Luan exigiu que, a partir daquele dia, com a ordem do Rei, fosse amarrado à cadeira, não mais um homem do povo, mas o Primeiro Ministro.

E numa manhã de domingo, para mais um desastroso espetáculo de “arco e flecha”, nos jardins do Solar dos Urubus, estava o Primeiro Ministro amarrado à cadeira, com uma melancia na cabeça.

O povo assistia a esse “espetáculo”, sob grande tensão, sabendo que o abobalhado herdeiro do trono não acertaria o alvo, nem pra remédio.

Na outra extremidade do jardim, estava o “arqueiro”, vestido de Guilherme Tell, esticando um bonito arco, pronto para disparar a flecha. Entretanto, ao ser disparada, a flecha atingiu o coração do homem amarrado, provocando-lhe uma grande explosão de sangue. A morte do Primeiro Ministro foi imediata. A melancia permaneceu intacta.

Friamente, Luan disse para o Rei, que havia falhado, mais uma vez.

O pai o repreendeu, dizendo-lhe que procurasse praticar um esporte diferente, que não pusesse em risco a vida humana.

O filho chorou, acusando o pai de estar tirando o seu estímulo, certamente, por querer transformá-lo num jogador de futebol, e também de ter esquecido de que o esporte, a caça, a competição e a luta faziam parte da boa educação de um herdeiro do trono.

Protestando, o Rei lembrou ao filho, que, naquele dia, tinha sido morto o sexto Primeiro Ministro da Corte, vítima da sua inabilidade como arqueiro. E isso poderia desencadear uma crise no país.

O rapaz respondeu que ninguém precisava saber dos seus “pequenos insucessos” e que o Rei deveria pôr a culpa no povo. E que nada o faria desistir do seu esporte favorito, o “arco e flecha”.

Contemporizando, o Rei ordenou-lhe que usasse uma fruta ainda maior. No caso, só faltava uma jaca, coisa que o rapaz detestava. E ele explodiu de raiva.

Então, o pai lhe permitiu usar como alvo qualquer outra fruta, desde que fosse na cabeça de um homem do povo. Mas, ele não aceitou, alegando que um homem do povo não lhe daria qualquer emoção, pois não valia nada.

Cedendo à imposição do filho, o Rei sugeriu que, nessa nova fase de exercícios de “arco e flecha”, ele usasse, amarrado à cadeira e com uma melancia na cabeça, o Ministro da Educação. O rapaz não gostou da ideia, dizendo que ali em Bananal, o Ministro da Educação não servia para nada.

E tudo continuou na mesma algazarra.

27 pensou em “O CIRCO

  1. Quando eu era criança pequena lbomá em Barbacena sempre fui puto da vida com aquele troćo arrodiado e coberto de lona. Na verdade, sempre tive desprezo ao circo. Odeio Circo. Aliás, odeio tudo que me ENCANTA me FASCINA e depois vai embora…

    • Veja, meu caro, que Altamir usou de uma picardia, para não dizer ironia, com o final apoteótico, dizendo o contrário do que disse: “Odeio Circo. Aliás, odeio tudo que me ENCANTA me FASCINA e depois vai embora”.
      Altamir ADORA circo!
      Magistral!

      • Altamir atacou, fazendo um pouco de terror e suspense, que terminou com um final feliz. Ao contrário de Alfred Hitchcock..
        Obrigada!

  2. Violante nos trouxe mais uma de suas interessantes histórias, mas, hoje, um conto aterrador, porque baseada a tragédia, encenada no Circo Copacabana, retirada da vida real. Violante Pimentel cada vez melhor!

    • Obrigada, Goiano! Você me fascina, com sua inteligência e fidalguia! Você é um diplomata, que se destaca no JBF, Tudo de bom!

  3. Violante,

    Parabéns por reviver um tempo em que o circo era uma grande atração nas cidades do interior do Nordeste. Gostei demais da conta, pois adoro os espetáculos circenses. Aproveito esse espaço democrático do JBF para compartilhar um poema de Dalinha Catunda com a prezada amiga:

    O CIRCO CHEGOU

    A cidade se alegrava,
    Era grande a agitação.
    Molecada se assanhava,
    Cheia de satisfação.
    Faziam um estardalhaço
    Correndo atrás do palhaço
    Começava a animação.

    Era o circo que chegava,
    Mudando toda rotina,
    Do meu pequeno interior
    Nas terras alencarinas.
    Lembro cheia de saudades
    Dos circos da minha cidade
    Nos meus tempos de menina.

    No finalzinho da tarde,
    O Palhaço nas ruas saia,
    Trepado em pernas de pau,
    Não sei como não caía.
    Atrás dele a criançada
    Ia toda alvoroçada
    E ao palhaço respondia:

    “-Hoje tem espetáculo?
    -Tem, sim senhor!
    – Às sete horas da noite?
    -Tem, sim senhor!
    -Hoje tem marmelada?
    -Tem, sim senhor
    -As sete horas da noite?
    -”Tem, sim senhor”

    Assim de rua em rua
    Girava pela cidade.
    Trazendo ao interior,
    Agitação e felicidade.
    Reunindo a população,
    Carente de animação
    Carente de novidades.

    O coro da meninada,
    Chegava a ecoar
    E o palhaço caprichava,
    No seu jeito de cantar.
    “-Eu vou ali e volto já,
    – “Vou comer maracujá”
    É tão gostoso lembrar!

    Entre uma cantiga e outra
    Ele perguntava com fé:
    “-E o palhaço o que é?
    -É ladrão de mulher!”
    Eram tantas as alegrias
    Que o povo feliz sorria.
    De uma bobagem qualquer.

    “-Olha a moça na Janela
    -Olha a cara dela!”
    Se repetia o palhaço
    Em sua música singela
    Buscando a simpatia
    Das gentes que assistia,
    Seu canto na passarela

    _Quem gritar mais alto
    Ingresso pro circo tem!
    “-O que é que a velha tem?
    -Carrapato no sedém!”
    “-E arrocha negrada!”
    E a molecada gritava
    Fazendo graça também.

    Não sei se minha saudade,
    Também bate com a sua.
    Não posso ver um palhaço
    No circo ou mesmo na rua.
    Que cantarolo baixinho
    Com saudade e com carinho
    O canto que se perpetua:

    “O raio, o sol, suspende a lua
    Olha o palhaço no meio da rua…!”

    Um final de semana pleno de paz, saúde e alegria

    Aristeu

    • Obrigada pelo gratificante comentário, prezado Aristeu! Adorei o compartilhamento do belíssimo poema, “O CIRCO CHEGOU”, da grande poetisa Dalinha Catunda.

      O circo sempre me encantou, principalmente durante a minha infância e juventude.

      Um grande abraço, e um feliz fim de semana!.

  4. Maravilha de texto, Violante.

    Os atores do circo Copacabana, trouxe à tona o gênio do cineasta italiano Federico Fellini (Hollywood até hoje se curva e reverencia) , que sempre usou nos seus filmes, atores mambembes, desconhecidos, sem glamour ou beleza de galãs pré-fabricados. O talento fluía nas interpretações, não raras vezes seus filmes eram admirados e premiados..

    O gran finale do seu excelente texto, nos deixa um recado(nada subliminar) que bem retrata nossa atualidade, destacando a inutilidade da serventia dos nossos políticos.

    Um primor de conto.

    • Obrigada pelo comentário, prezado Marcos André!

      Qualquer semelhança do “Solar dos Urubus” com algum lugar do presente, ou do passado, deve ser mera coincidência…rsrs

      Grande abraço.

  5. O Goiano acertou na mosca!!! Eu tenho uma paixão descomunal pelo circo. O circo tanto me encanta como me fascina. Para mim o melhor filme de John Wayne (sem o seu famoso modo brusco) que já assisti dezenas de vezes e recomendo é a espetacular película O CIRCO.

    P.S1.: – Quando eu era menino pequeno lá em Barbacena, ao chegar um circo, minha primeira atitude era procurar saber quem era o palhaço para formalizar uma amizade com ele e depois chantageá-lo.

    P.S2.: – Para entrar de graça no circo, você teria que acompanhar o palhaço pelas ruas e responder seu famoso refrão: HOJE TEM ESPETÁCULO?!?!?! E a pivetada respondia em um coro uníssono: TEM, SIM SENHOR!!!

    P.S3.: – Só que, o palhaço fazia uma cruz na nossa testa, para ter acesso ao espetáculo e a tinta era tão forte que mesmo tomando banho ela não desgrudava facilmente.

    P.S4.: – Em que pese minha mãe sempre ter sido pobre, mesmo assim, ela impedia da gente chegar com àquela marca na testa. Afirmava que tal atitude da molecada era coisa de mundiça e, se teimássemos, um por um, levava um tremenda surra.

    P.S5.: – Como eu era amigo do palhaço e já o tinha chantageado, a cruz de tinta era feita na parte interna do braço perto das axilas…

  6. E tudo continuou na mesma algazarra. E Violante (“A garota que quebra o coco, mas não arrebenta a sapucaia!”) nos conduziu, com a maestria que lhe é peculiar, para debaixo da lona, para o picadeiro, nos fazendo voar nos perigosos trapézios.

    Depois nos jogou ao solo, sem rede para aparar a queda: quebrei o coco e me lembrei de Cissa Guimarães, outra belíssima garota que também quebra o coco, sem arrebentar a sapucaia.

  7. Senhora Violante Pimentel.
    Sinto-me um privilegiado.
    Suas histórias tem tudo à ver com o título da sua coluna:
    “Cenas do caminho”.
    Essa, do “O circo” mais ainda.

    Nós, do século passado, temos essas cenas de circo, povoando nossas lembranças, nossas mentes. Com os momentos maravilhosos e inesquecíveis, que os espetáculos circenses nos proporcionavam.

    Fico agradecido pela viagem que a senhora patrocinou. Relembrando, um passado de encanto e magia, que eu senti, ao ler seu artigo.

  8. Obrigada pelo comentário gentil, prezado Luiz Carlos Freitas! É gratificante, saber que o meu texto lhe agradou e que você também vivenciou esse tempo feliz, em que o circo nos proporcionava emoções, que ainda hoje perduram em nossas lembranças.

    Grande abraço, e um feliz fim de semana!

  9. Violante, que beleza esse seu texto, sobre circos. Tenho paixão desde criança pelos circos. Eles chegavam e partiam, e nós meninas do interior, criavamos nossos circos, nos quintais, nas salas de visitas. Ensaiavamos bastante e até cobravamos ingressos. Me apresento desde criança, declamando, cantando ou fazendo marmota. E posso dizer que um dos incentivos, foi mesmo o circo. Obrigada por trazer essa boa recordação. Obrigada ao Aristeu por trazer meu poema para pegar uma carona nos comentários desse belo trabalho. Bjs

  10. Obrigada pelo gratificante comentário, querida poetisa Dalinha. O seu poema, “O CIRCO CHEGOU” é uma verdadeira ode, a um tempo feliz da nossa infância e juventude, onde os dons artísticos despertavam em nós, através do mundo encantado do circo. Adorei!!! Bjos.

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