MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

Nas duas últimas semanas fiz um resumo do sistema financeiro mundial do século 20 para cá, com destaque para as duas grandes crises: a Depressão dos anos 30 e o “crash” de 2008/2009. Nunca é demais lembrar o ponto principal: as crises não aconteceram por “falta de regulação”, “pouco governo” ou por algum defeito intrínseco do capitalismo. Pelo contrário: as crises foram gestadas e criadas pelo conluio de governos e banqueiros atuando em perfeita harmonia de interesses, “juntos e misturados”. Nenhum banco fez nada que não fosse permitido, regulamentado e incentivado pelos ministros da economia e pelos bancos centrais mundo afora.

Para dar um desfecho ao assunto, vamos examinar um caso particular, o da Islândia. Também será um raro momento em que vocês me ouvirão falar bem de um governo.

A Islândia é uma ilha situada no Atlântico norte, junto ao Círculo Polar Ártico, mais ou menos no meio do caminho entre a Noruega e a Groenlândia. Seu território, de 100.000 km2, tem aproximadamente o tamanho de Pernambuco, mas com uma população de apenas 350.000 habitantes (menos que a cidade de Olinda). O país tornou-se independente da Dinamarca em 1943. Na ilha existem 48 vulcões, quase metade deles em atividade. Graças a esta geologia incomum, os islandeses dispõem de água quente e eletricidade praticamente gratuitas e em abundância. Até a década de 80, a economia da Islândia era pouco dinâmica, embora sólida. A principal atividade do país era a pesca, que era dominada por empresas estatais. Mas no início dos anos 90, iniciou-se um programa de desestatização e diversificação da economia, visando tornar o país menos dependente da indústria pesqueira.

Em 2001, aconteceram os célebres ataques de 11 de Setembro. O governo dos EUA, com medo de uma recessão, lançou-se imediatamente a um programa de “estímulo à economia”, chegando a fazer campanhas publicitárias em favor do “consumo patriótico”. O estímulo, naturalmente, consistiu em fabricar dinheiro e pedir aos bancos e às grandes empresas que aumentassem o crédito o máximo possível. De certa forma, pode-se dizer que o 11 de setembro foi uma das causas mais importantes da crise de 2008.

A maior parte do planeta seguiu os passos dos EUA, fazendo a economia crescer à base de crédito fácil. A Islândia acompanhou a maioria, desestatizando seu sistema bancário. O mundo estava no meio de uma festa de crédito, e os bancos islandeses entraram na festa com muita vontade de se divertir. Havia muito dinheiro disponível no mercado internacional, as pessoas estavam dispostas a se endividar, o governo emitia dinheiro que inflava a economia. Uma bolha clássica. E em 2008 a bolha estourou.

Segundo alguns, o primeiro gatilho da crise aconteceu em agosto de 2007: O banco francês BNP Paribas suspendeu os saques em dois fundos de investimento lastreados em hipotecas dos EUA (lembrem-se do artigo anterior). Na prática, estes fundos de investimento haviam “quebrado”. Entre os muitos bancos que haviam investido seu capital nestes fundos, estava o britânico Northern Rock, que para manter-se operando pediu um empréstimo de três bilhões de libras ao Banco Central da Inglaterra. O problema foi que a operação, que deveria acontecer “na moita”, apareceu na imprensa. O resultado foi uma corrida dos clientes para tentar sacar seu dinheiro, e obviamente o banco quebrou. Na verdade, quebrar não é o termo correto: o Northern Bank foi estatizado (em fevereiro de 2008) e o governo inglês bancou o prejuízo.

Daí para a frente, foi como um castelo de cartas desabando. À medida em que ficava claro que muitos fundos de investimento aparentemente sólidos estavam na verdade falidos, outros bancos que haviam investido nestes fundos quebravam, e isto acabava com os demais negócios destes bancos, ocasionando novas falências. Lembram da Fannie Mae e do Freddie Mac? Foram estatizados em setembro de 2008. No mesmo mês, um dos maiores bancos de investimento dos EUA, o Lehman Brothers, declarou falência. No dia seguinte a seguradora AIG anunciou que estava sem dinheiro, e foi salva pelo governo americano ao custo de 125 bilhões de dólares.

Os bancos islandeses estavam na mesma situação dos outros, ou seja, falidos. Em 2007, os ativos dos três grandes bancos da Islândia eram dez vezes maiores que o PIB do país. Mas em outubro de 2008 o mundo estava em pânico, com bancos que eram considerados “inquebráveis” quebrando ou sendo socorridos pelo governo. E era exatamente isso que todos esperavam: que o governo da Islândia estatizasse os três bancos do país e assumisse a dívida. Mas o governo, pressionado por manifestações populares, disse não.

Jón Steinsson, economista da Universidade de Colúmbia, em Nova Iorque, era consultor do governo islandês. Ele explica o que aconteceu desta forma:

“Historicamente, em situações assim, os governos costumam pensar: ‘Se eu gastar só mais um pouquinho, salvo tudo.’ E de pouquinho em pouquinho se chega ao abismo. Há meses os bancos, desesperados, vinham recebendo empréstimos do Banco Central. Na semana em que nós quebramos, os bancos continuavam a nos pedir linhas de crédito. Tínhamos muito dinheiro para gastar. Poderíamos ter queimado de 50 a 100% do PIB para tentar salvá-los – e hoje isso é claríssimo: teria ido tudo pelo ralo. Nós desistimos de ajudá-los três dias antes do ponto em que os outros países costumam jogar a toalha, e isso nos poupou uma quantidade enorme de dinheiro.”

Apenas para comparar, no mesmo início de outubro, o governo da Irlanda estava na mesma situação. Eles fizeram o que todos esperavam: anunciaram que o governo se responsabilizaria por todas as dívidas do sistema bancário. Isso custou à Irlanda uma dívida de 85 bilhões (40% do PIB) e uma enorme recessão. Na Islândia, os bancos quebraram mas o governo não.

Claro que não foi muito fácil. A lei de emergência anunciada em 6 de outubro determinava o seguinte: cada banco falido seria dividido em dois: o primeiro seria responsável pelos depósitos domésticos e receberia ajuda do governo. O segundo ficaria com todos os demais passivos – clientes estrangeiros e fundos de investimento – e seria liquidado, sem receber ajuda. O sistema financeiro internacional, partidário da idéia de que bancos não podem quebrar e de que os prejuízos sempre ficam “com a viúva”, isto é, com o governo, fez um escândalo. O governo inglês colocou o Banco Central da Islândia na lista de organizações terroristas, ao lado de Bin Laden e da Al Qaeda. Políticos de todo o mundo declaravam que a Islândia estava declarando guerra ao sistema financeiro mundial, e que iria se transformar em um novo Haiti ou Somália.

A história mostrou que a Islândia estava certa; sua recuperação da “bolha” de 2008 foi mais fácil – ou menos difícil – do que para muitos países da Europa. Alguns, como a Grécia, ainda não se recuperaram, e provavelmente vão continuar como zumbis, falidos mas sustentados pela União Européia, por várias décadas.

Mas eu queria terminar esta história com uma questão que não tem tanta importância econômica, mas diz muito sobre o quanto a cultura de um país e o caráter de seu povo podem influenciar o seu destino. Trata-se da história do Icesave.

O Icesave era um pequeno banco digital de investimentos criado pelo Landsbanki, o maior banco da Islândia. Era voltado ao mercado externo – atraia depósitos em euros oferecendo taxas de juro maiores que a média dos bancos europeus. Quando o Landsbanki quebrou, os clientes do Icesave, a maioria ingleses e holandeses, ficaram no prejuízo. O dinheiro dos contribuintes islandeses não seria usado para cobrir o rombo. Naturalmente, os políticos ingleses e holandeses estavam indignados. Após muitas pressões e negociações “por baixo dos panos”, conseguiram um acordo em que o governo da Islândia assumiria a dívida a partir de 2017.

O Congresso da Islândia aprovou a lei em 30 de dezembro de 2009, provavelmente achando que todo mundo estaria distraído com as festas de ano-novo. Mas Ólafur Elíasson, um dos ativistas que no ano anterior havia participado das manifestações conseguiu uma cópia do projeto de lei e resolveu agir. Mostrou-o a um amigo advogado e pediu sua opinião. A resposta foi: “em outros tempos, um político que apoiasse uma lei como essa seria fuzilado ou enforcado como traidor”.

A Islândia é parlamentarista. Quando o congresso aprova uma lei, ela é enviada ao presidente para ser sancionada – praticamente uma formalidade. Mas a Constituição da Islândia contém um dispositivo singular: se o presidente não sancionar uma lei em quatorze dias após recebê-la, automaticamente é convocado um referendo para decidir. Isto nunca havia acontecido na história do país.

Ólafur e seus colegas solicitaram uma audiência com o presidente no dia 2 de janeiro. Às onze da manhã, centenas de pessoas se reuniam em torno da residência presidencial, levando um abaixo-assinado com 56 mil assinaturas contra o acordo. Na descrição do jornalista João Moreira Salles:

“À roda da casa, dezenas de pessoas ergueram o braço, cada uma delas segurando no alto um sinalizador vermelho. ‘Nós somos um país de pescadores’, explica Ólafur. ‘Aqui todos compreendem o alerta de perigo no mar.’ O céu parecia arder. A fumaça avançou sobre a casa, fazendo-a desaparecer detrás de uma espessa cortina vermelha. Foi essa a imagem estampada no dia seguinte na primeira página de todos os jornais. Até mesmo um morador de Minas Gerais que nunca viu o mar entenderia que ali se sinalizava urgência. Logo depois, o presidente abriu a porta. Oito representantes dos manifestantes foram conduzidos a uma longa mesa. Sentaram-se de um lado, o presidente do outro. Por quase duas horas, argumentaram. O presidente escutou e pouco disse. ‘Honestamente, eu não tinha esperança’, diria Ólafur. Três dias depois, em 5 de janeiro, o presidente anunciou que não assinaria.”

Dois meses depois, com o referendo, a lei foi rejeitada por 93% dos eleitores.

Eu confesso que morro de inveja de um país onde as pessoas sabem se unir na hora em que é importante, sabem se manifestar de forma eloqüente e firme mas sem baderna ou violência, e sabem procurar o caminho para a solução dentro da lei, não fora dela. E fico triste, muito triste, ao constatar que no país em que vivo, é mais fácil ver o povo se mobilizar contra o rebaixamento de seu time do que contra uma lei que prejudica o país.

3 pensou em “O CASO DA ISLÂNDIA

  1. Caro Marcelo,
    De novo, faltam-me palavras para dizer o quanto gostei do seu artigo.
    Simplesmente magnífico!
    Estive na Irlanda algumas vezes e exatamente neste período que descreves. É um país maravilhoso!
    Por favor, não pares com as suas excelentes crônicas e resenhas econômicas. São de uma riqueza única e merecem ser agrupadas em um livro.

  2. Caro Marcelo texto de quem realmente entende do riscado tão bem e explicar de maneira fácil, faz o leitor entender fácil os mínimos detalhes da sincronizada aula. Parabéns.

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