O doce deleite de um doce de leite após o almoço, como o que Izabel Virgínia fazia no Cratinho de açúcar de minha infância e que cuja receita secreta jamais revelou, era uma das alegrias maiores de meu paladar de criança. Resta a doce saudade. Deleitava-me com grandes porções sem preocupação com colesterol ou coisas que tais. E a aguazinha fria, servida da quartinha em uma caneca de alumínio, tornava o prazer sublime, quase divinal. Pois bem: sobre açúcar e agarrado, mentes e íris, relendo As Veias Abertas Da América Latina, 7a. Edição, Fls 89 e seguintes, obra de Galeano, deparo-me com uma análise histórica, lúcida e criteriosa sobre nossa economia baseada no cultivo da cana ao longo do tempo. Claro que não vou contestar o que ali está escrito – não teria tamanha pretensão, senão pelo respeito à obra do autor, que não merece reparo, muito mais pela minha incapacidade intelectual de fazê-lo.
A intenção é apenas, além de recomendar a leitura do livro, chamar a atenção para quando Galeano diz que pouco mudou na nossa estrutura econômica dos séculos pretéritos. Na verdade, pouca alteração além das nuvens do céu. O hoje, como ele diz, é um outro nome do ontem. Resta-nos esperar, torcer e trabalhar por ações no sentido de que o amanhã não venha a ser o outro nome do hoje. Enquanto isso, a doce saudade do doce deleite do doce de leite de Izabel Virgínia.
