JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

Nomes diferentes para as mesmas coisas

O Português é uma língua diferenciada. Difícil de ser falada ou escrita de forma sempre a mais correta. Provavelmente por conta de aceitar receber influências de idiomas estrangeiros. Uma miscelânea, digamos.

Isso, sem contar as constantes propostas de mudanças – via de regra por pessoas sem qualquer competência para isso.

Ficamos apenas com um exemplo. As influências da língua inglesa que absorvemos e passamos a usar com frequência: lobby, podcast, shopping, delivery, etc., etc.

Lá pelos anos 50/60, pelo menos no Liceu do Ceará, havia a demonstração de uma verdadeira ojeriza ao idioma inglês – e muitos procuravam evitar o uso de palavras já dominantes naquela época. Claro que de nada adiantou, pois o Liceu nada mais era que uma pequena comunidade que, digamos, “protestava”.

Nos dias atuais, duas palavras da língua inglesa entraram na fala diária do povo brasileiro: fake news e live.

De forma consciente, ou não, provavelmente por uma quase insignificante parcela da população, a linguagem e as expressões por esse Brasil à fora, insistem predominantemente – alguns rotulam de “linguagem raiz”.

Ora, bem ali (bem ali, uma ova!) no RIO GRANDE DO SUL, provavelmente por conta da proximidade da fronteira com países como Uruguai, Paraguai, Argentina e Chile, os gaúchos desenvolveram, e continuaram praticando falas que mais parecem coisas de outro planeta. Mas, dali, do Chuí até os Arroios, todos sabem o que significam. Isso sem levar em conta o linguajar considerado folclórico.

“Gaúcho macho não come mel. Mastiga a abelha”

“Vaca de campo não tem touro certo.” Essa, claro, com um forte duplo sentido, que os maldosos podem querer dirigir às mulheres.

“Quando se pega na rabiça do arado, deve-se ir até o fim do rego.”

Esse baiano tem muito tempo – vai cagar longe

Viajando algumas horas, encontramos o estado da BAHIA, com modos e falas completamente diferentes.

“Quem tem tempo caga longe.”

“Afine o seu pescoço!” – Forma “educada” de aconselhar a outrem para ser comedido, parar com atrevimento, falar baixo e respeitosamente, sem agredir ao outro.

“Boca de zero nove.” – Alguém, homem ou mulher (ou um terceiro sexo que querem inventar na Bahia) de muita coragem para qualquer coisa. Topar qualquer “parada”.

Foto 3 – Zé Wilker propagador do linguajar cearense

Da Bahia ao CEARÁ não é tão distante. A forma de falar do cearense, também cheia de lero-lero e alguns significados duplos e repleta de remandiolas ou enchimento de saco, isso sem contar a influência recebida pela comunicação fácil e “ondas e momentos” das emissoras de televisão – ainda que prevalecendo na maioria dos casos a linguagem local.

“Se fazeno de besta, pá mió passá!”

Alguém que prefere ouvir e ficar calado como resposta. Considerado como pessoa inteligente, que jamais adere ao revanchismo agressivo. Se dá sempre bem, e está sempre “de boa”.

“Curubau” – Curuba é uma virose chata. Atinge pessoas na tenra idade. Provoca irritações, coceiras e incômodos. Daí o uso e a manut6enção da expressão, quando alguém quer se referir às pessoas que incomodam além da conta. Gente chata, antipática.

“Água qui passarim num bebe!” – Cachaça, produto feito da cana destilada com alto teor alcoólico. Bebida branca, parecendo água, mas dessa que passarinho não bebe.

Bar do Rio de Janeiro onde o “falar” local corre fácil

Passando pelo RIO DE JANEIRO, qualquer pessoa sensível vai perceber no palavreado do “carioca” (que não é apenas aquele que nasce no lugar, mas o que vive no estado há muito tempo). Fácil de aprender, a maioria com um único sentido e sem indicação de maldades.

“Dar uma moral” – Quando você vai pedir ajuda a um carioca, ele não vai te ajudar; vai te dar uma moral.

“Mete o pé” – O carioca não sai e vai embora de um lugar, ele mete o pé.

“Maneiro” – É um adjetivo que, nas gírias cariocas, significa que algo é legal, interessante. A gíria “show” também se encaixa nesse caso.

10 pensou em “NOSSOS DIZERES – UMA COISA É UMA COISA AQUI, MAS PODE SER OUTRA COISA ACOLÁ

    • Manoel, não entendo nem quero entender de leis que se relacionem a isso. Não sei se existe lei que determine que o “Inglês” é a primeira língua do mundo. A preferencial. Na questão comercial, por exemplo, por que “delivery” e não “entrega doméstica”? Por que os computadores tem descrições em inglês, em vez da língua usada pelo país comprador? Não sei. Não entendo nada disso.

  1. Aqui na terra do big brother do norte, é comum a expressão “Living and Learning”, ou seja, “Vivendo e Aprendendo”. Hoje aprendi mais algumas coisas divertidas e inteligentes com o grande José Ramos. Beleza!
    Tenham todos um excelente final de semana.

    • Magnovaldo, veja apenas uma vantagem no idioma inglês: uma coisa será sempre a mesma coisa em todos os lugares. Exemplo: coffee. No nosso Brasil, temos: café, cafezinho, café da manhã, isso e aquilo. O inglês usa o “coffee” e o “breakfeast”! Simples. O idioma português é muito difícil de falar e mais ainda de escrever.

    • Beni, obrigado irmão. Volte sempre que lhe der na telha. Repare aí: “telha”. Claro que não é a telha que cobre as casas. Viu como o idioma tem vários sentidos?

  2. Zé, a língua realmente é fonte de riqueza. Em 2005, uma jovem cearense veio fazer doutorado aqui e tinha uma padaria que ela comprava as coisas. Começou o papo com a atendente:
    – eu quero uma fatia de rocambole
    – a gente não tem rocambole
    – tem aí, atrás de você.
    – isso aqui?
    – sim. Isso mesmo.
    – isso não é rocambole. É bolo de rolo.
    Um dia ela me disse: “o povo daqui tinha uma conversa de dizer que o café está aguado…ora, café é feito com água mesmo só pode estar aguado. Deviam dizer que o café está sem açúcar!”.

    • Assuero, para os cearenses é isso mesmo. Exemplo: ata. Se você não especificar, vai ter confusão. Ata (a mesma fruta do conde, ata da reunião, etc.).

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