CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

Meu caro amigo Luiz Berto, boa tarde!

O notável poeta Rogaciano Leite, seu conterrâneo, de quem fui colega de jornal e amigo do peito, se sentiria honrado, e eu também, com a publicação dessas rasas linhas nas páginas gloriosas do Jornal da Besta Fubana.

Com o meu apreço e um forte abraço.

* * *

ROGACIANO LEITE, O UIRAPURU DO REPENTE – Nonato Freitas

Rogaciano Leite (1920-1969)

Considerado um dos maiores poetas do Brasil, Rogaciano Bezerra Leite, ou simplesmente Rogaciano Leite, conforme era conhecido no universo das artes e do jornalismo, marcou sua trajetória pelo planeta Terra como um itinerante e irrequieto semeador de sonhos.

Ainda menino, decidiu alçar voo do ninho onde nascera, a fazenda Cacimba Nova, de propriedade de seus pais, Manoel Francisco Bezerra e Maria Rita Serqueira Leite. A propriedade ficava no lugarejo Umburanas, distrito de Itapetim, à época pertencente ao município de São José do Egito, PE, berço de notáveis poetas repentistas, a 360 quilômetros de Recife.

Já despontava como grande cantador repentista, quando resolveu desafiar o mundo e partiu em busca de novas aventuras. No matulão, além dos sonhos, trazia a inseparável viola e muito talento.

O desembarque se deu em Fortaleza, capital do Ceará, em 1943.

Anos depois, o poeta ingressou na Faculdade Católica de Filosofia do Ceará, onde cursou Letras Clássicas. Ao fazer o vestibular, obteve nota dez na prova de latim, tendo como referência o poeta latino Ovídio.

Escreveu, de improviso, um soneto francês alenxandrino. A perfeição foi tamanha que, diante do inusitado fato, a banca examinadora, perplexa, não teve outra saída senão aplicar mesmo a nota máxima.

Ao ingressar no jornalismo, o jovem poeta começa a despertar nos leitores a admiração e o respeito pela profundudade e beleza do seu texto.

Ele introduz no jornal a escrita literária, mas não se afasta um milímetro daquilo que é essencial no jornalismo: a técnica, a clareza e a simplicidade. Conquistou três prêmios Esso de jornalismo.

O primeiro deles, em 1965, na velha Gazeta de Notícias, com uma fantástica reportagem sobre os povos indígenas da Amazônia. A poesia já começava na manchete: “Na Fronteira do Fim do mundo”.

“Todos nós, iniciantes no ofício, queríamos ser um Rogaciano Leite”, disse, em depoimento, o veterano e premiadíssimo escritor e jornalista José Hamilton Ribeiro, 40 anos de Rede Globo e cinco vezes vencedor do prêmio Esso.

Rogaciano tinha um pé no erudito e o outro no popular, amálgama que os gigantes da literatura costumam fazer em suas obras. Guimarães Rosa, Miguel de Cervantes e até Shakespeare, com a “Megera Domada”, apenas para citar os três, são exemplos dessa realidade.

Para se ter ideia do tamanho da engenhosidade de Rogaciano Leite, basta lembrar este fato: certa ocasião, numa apresentação em determinado teatro, a casa lotada, para assombro e delírio da plateia, ele declamou, de improviso, nada menos do que dezoito sonetos. Os relâmpagos dos versos deixaram todos atônitos.

Ao que parece, o fato é inédito. Em toda a história, não se tem notícia de que outro poeta tenha conseguido igual façanha.

Num dos seus belos poemas, Castro Alves escala os muros sagrados do Olimpo e lá das alturas exclama, diante dos deuses e das ninfas, filhas de Zeus:

“Eu sinto em mim o borbulhar do gênio”.

Após finalizar os versos de “Os Trabalhadores”, poema feito com o sangue do coração, e de tantos outros, como aquele em que o poeta rouba as tintas do luar para escrever “Cabelos Cor de Prata”, que virou um clássico de nossa MPB, na voz inconfundível de Sílvio Caldas, o saudoso Albatroz, como assim Rogaciano era carinhosamente chamado, poderia também usar as mesmas palavra do bardo baiano, e gritar para o mundo:

“Eu sinto em mim o borbulhar do gênio”.

Rogaciano foi assíduo frequentador das noites boêmias de Fortaleza. Era visto com frequência no Clube do Violão e fez do Theatro José de Alencar palco de memoráveis apresentatações.

Nas elegantes salas de espetáculo e teatros de Fortaleza, além de outros recintos espalhados pelo Brasil, os caudais dos seus improvisos poéticos arrebatavam multidões.

Se no teatro era aclamado como um Horácio, um Virgílio, um Castro Alves, no jornal tinha a estatura e o peso de um gigante.

Ele era o espelho dele próprio: um gigante da reportagem.

Embora os textos fossem poéticos, Rogaciano sempre teve o cuidado de trazer as infornações dentro dos rigores da técnica jornalística. As histórias chegavam voando nas asas da poesia, mas o texto era desgordurado, enxuto, fiel à verdade dos fatos.

Dir-se-ia que o extraordinário bardo pernanbucano, ao deixar sua terra, trouxera de lá todo o perfume das flores do Pajeú e também toda a sua poderosa poesia. Ao chegar em Fortajeza, misturou os vapores trazidos nos seus alforges com a poética alencarina e deu no que deu.

O filósofo e poeta Friedrich Schlegel, expoente do romantismo na literatura alemã, ao lado de Goethe, Fichte, Novalis e outras sagradas figuras, conhecido também como romantismo de Jena, cidade que deu nome a uma das mais importantes universidades do país, dizia que em toda obra literária há sempre um lampejo da arte romântica.

Até na poesia de João Cabral de Melo Neto, cujas palavras são excessivamente herméticas, de difícil compreensão, há veios de lirismo! Ele negava isso. Mas a verdade é que existe lirismo em alguns de seus versos, senão vejamos:

“Muitos engenhos/mortos/haviam passado/no meu caminho./De porteira fechada,/quase todos engolidos./Muitos com suas serras,/todos eles com seus rios,/rios de nome igual/como crias de casa, ou filhos”. (O Rio).

É inegável que Rogaciano Leite era um poeta lírico. Lírico como fora Camões, Victor Hugo e Castro Alves.

Todavia, esses quatro poetas faziam o verso com absoluto esmero e rigor estético. À maneira, digamos assim, de um João Cabral e de um Carlos Drummond de Andrade. Ou de qualquer outro poeta que elabora o verso com requinte.

Iluminado, Rogaciano Leite começa a deslindar os mistérios da poesia ainda muito jovem.

Leitor assíduo dos clássicos, aos poucos foi se aprimorando e com a luz própria que Deus lhe deu virou um gigante. Era um Albatroz, pássaro de voo sereno e vigoroso, capaz de vencer grandes distâncias sem tocar os pés no chão.

O poeta foi casado com dona Maria José Cavalcante Leite, graduada em filosofia.

Ele é autor do livro de poemas “Carne e Alma”, prefaciado por Câmara Cascudo.

A 5a. edição do clássico foi lançada recentemente em homenagem ao centenário do poeta.

Rogaciano viveu mais tempo no Ceará do que em sua terra natal, mas nunca esqueceu o cheiro e os afagos que a brisa do Pajeú lhe tatuou na alma.

No solo alencarino, constituiu família, trabalhou a vida toda, virou nome de uma das principais avenidas de Fortaleza e lá, no Cemitério São João Batista, seu corpo está sepultado.

Através de importantes reportagens, artigos e crônicas, incluindo grandes recitais, além de belas composições musicais, o notavel poeta honrou e projetou, além fronteiras, o nome do Ceará e de Pernambuco.

Sua filha Helena Roraima Leite faz um trabalho importantíssimo no que diz respeito à preservação e divulgação da obra do imortal poeta.

Roraima reside há algum tempo em Madri, capital espanhola. Mesmo distante, ela acompanha, atentamente, tudo o que se relaciona, no Brasil e noutras partes do mundo, ao seu pai.

Ela está organizando, já em fase final, o livro “Coração Sertanejo”, que será editado pela Imep. Trata -se de uma volumosa coletânea de poemas inéditos, além de fotos, crônicas e reportagens do poeta.

Vale a pena destacar, ao concluir, fragmentos de “Os Trabalhadores”, um dos mais importantes poemas de autoria do bardo pernambuco. As imagens metafóricas vibram como coriscos em noites de tempestades. A força vertiginosa dos versos traz a voz poderosa do condoreiro nos céus de Castro Alves e Victor Hugo. Confiramos:

“Uma língua de fumo, enorme, bamboleante,/Vai lambendo o infinito — espessa e fatigada…/É a fumaça que sai da chaminé bronzeada/ E se condensa em nuvens pelo espaço adiante!

Dir-se-ia uma serpente de inflamada fronte/Que assomando ao covil, ameaçadora e turva,/E subindo… e subindo… assim, de curva em curva,/Fosse enrolar a cauda ao dorso do horizonte!

Mas, não! É a chaminé da fábrica do outeiro/ — Esse enorme charuto que a amplidão bafora/ — Que vai gerando monstros pelo céu afora,/Cobrindo de fumaça aquele bairro inteiro.

Adiante, no ápice do inflamado grito, o poeta exclama:

“Onde está esse amor que os sacerdotes pregam?/Onde estão essas leis que o Parlamento imprime?/ O Código não pode abrir o seio ao Crime,/Infamando o pudor que os tribunais segregam”.

Nos versos finais do poema, o bardo se dirige a Cristo com este apelo dramático:

“Quanto riso aqui dentro! E lá fora, os brados!/Quantos leitos de seda! E quantos pés descalços!/Já que os homens não veem estes decretos falsos,/ Rasga, Cristo, o teu manto! Abriga os desgraçados!…

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