MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

Não pretendo ter a palavra final sobre nada, mas estas são as definições que eu considero úteis e corretas. Acho importante ter estas definições claras, porque a todo momento termos como esses são usados de maneira incorreta (seja por ignorância ou por má-fé).

BENS DE CAPITAL ou MEIOS DE PRODUÇÃO: É tudo aquilo que facilita o trabalho e aumenta a produtividade: para um agricultor, pode ser uma enxada ou uma colheitadeira. Para um carpinteiro, pode ser um serrote ou uma serra circular. De modo geral, é qualquer máquina, ferramenta, veículo, utensílio ou imóvel. Os bens de capital surgem do trabalho, e têm um efeito multiplicador: quanto mais bens de capital, mais eficiente o trabalho, o que gera mais riqueza e permite obter mais bens de capital. Os bens de capital são BENS ESCASSOS, o que significa que exigem o trabalho de alguém para existir. Quem argumenta que a política X ou o regime Y pode tornar os bens de capital abundantes e gratuitos para todos está falando uma grande bobagem.

GOVERNO: Governos são grupos de pessoas que usam a força para obter para si mesmos o direito de fazer certas coisas, e para proibir os outros de fazer aquilo que eles mesmos fazem. Devido a certos instintos inerentes ao funcionamento do cérebro humano, a maioria das pessoas se esforça em acreditar que o governo sempre tem boas intenções e que submeter-se às suas ordens é bom. Na definição de Ludwig von Mises, o governo é “o emprego de homens armados, de policiais, guardas, soldados e carrascos. A característica essencial do governo é a de impingir os seus decretos por meio da força. Quem pede maior intervenção estatal está, em última análise, pedindo mais coerção e menos liberdade.”

CAPITALISMO: É um sistema econômico que se baseia na existência do capital, que se origina do trabalho e da poupança, e que permite o aumento da riqueza. Em palavras mais simples: uma pessoa que só tem suas próprias mãos para trabalhar será pouco produtiva e portanto pobre. Para aumentar sua produtividade, ela deve acumular bens de capital (fabricando-os ou negociando com outras pessoas). Com uma enxada, um agricultor produz mais comida. Com um arado puxado por boi, mais ainda. Com um trator, ela produz tanto que pode vender as sobras e comprar outros bens, ou seja, acumular riqueza. Um índio que usa arco e flecha para caçar já tem um bem de produção, e portanto já é capitalista. O capitalismo, como sistema econômico, pode existir sob vários sistemas políticos, mas funciona melhor quando as pessoas tem liberdade para trabalhar e para realizar negócios entre si, ou seja, comprar e vender; isso é chamado LIVRE MERCADO.

SOCIALISMO: É um modelo econômico que, embora admita a existência do capital, proíbe a sua propriedade privada. Na teoria, os bens de capital seriam de todos, ou seja, de uso coletivo. Na prática, o controle dos bens de capital, e de toda a economia, fica nas mãos dos políticos. Até hoje, todos as tentativas de implantar o socialismo aconteceram em regimes ditatoriais onde a liberdade das pessoas era seriamente restringida.

SISTEMAS MISTOS: Na prática, nenhum lugar do mundo pratica o capitalismo puro (total liberdade de comércio, direitos de propriedade plenos) nem o socialismo puro (restaram apenas Cuba e Coréia do Norte, que sobrevivem à custa de favores políticos de outros países). O que existe é um capitalismo controlado pelos governos, que cria restrições ao livre comércio, ao direito de propriedade e ao empreendedorismo. Os defensores de governos grandes costumam chamar estes sistemas de social-democracia quando querem elogiar e de neo-liberalismo quando querem reclamar. Também são chamados de “terceira via”, e, quando se tornam autoritários e ditatoriais, “fascistas”.

LIBERAL: É um modelo que defende pouca intervenção do estado na vida das pessoas, às vezes com maior ênfase no aspecto econômico (poucos impostos e regulamentações, poucas empresas estatais, facilidade para empreender), às vezes com maior ênfase no aspecto social (liberdade de expressão, poucas regras de comportamento, estado laico). Foi definido por Adam Smith como “permitir que cada homem busque seu interesse pessoal à sua maneira, baseado na idéia de igualdade, liberdade e justiça”, sendo portanto favorável ao capitalismo. “O atributo mais marcante do liberalismo, que o distingue tanto do conservadorismo quanto do socialismo, é a idéia de que convicções morais quanto a questões de conduta — que não interfiram diretamente com a esfera individual protegida pela lei — não justificam a coerção das demais pessoas.” (Friedrich Hayek)

LIBERTÁRIO: Surgiu nos EUA como termo alternativo ao “liberal”, que foi “apropriado” pelo socialismo e perdeu seu sentido original. Advoga uma drástica redução no tamanho do estado e valoriza a liberdade individual nos aspectos social e econômico. É contrário à idéia de que governos devem redistribuir a riqueza, tomando de alguns para dar a outros.

CONSERVADOR: É um modelo que se aproxima do liberal no aspecto econômico, mas se afasta no aspecto social, defendendo a imposição de padrões únicos de comportamento através do estado, geralmente em parceria com uma religião. Embora se declare simpático ao capitalismo, costuma atrapalhar seu funcionamento por ser instintivamente hostil a mudanças. “O conservador só se sente seguro e satisfeito quando tem a garantia de que alguma sabedoria superior observa e supervisiona as mudanças; somente quando sabe que há uma autoridade encarregada de verificar que elas se dêem dentro da ´ordem´. Esse temor em confiar em forças sociais incontroladas está intimamente ligado a duas outras características do conservadorismo: sua paixão pela autoridade e sua falta de compreensão das forças econômicas.” (Friedrich Hayek)

PROGRESSISTA ou DESENVOLVIMENTISTA: É um modelo que defende um estado forte e altamente interventor nos aspectos econômicos. Seus adeptos acreditam que os bens de capital sejam produzidos e administrados pelo governo, ou regulados e controlados por ele. Para isso, usam o eufemismo “dinheiro público” para ocultar o fato de que o dinheiro do governo é tomado à força das pessoas. Pode-se dizer que é um modelo que admite que o socialismo puro é inviável e busca um sistema misto que tenha o mínimo necessário de capitalismo misturado ao máximo possível de socialismo.

7 pensou em “MEU DICIONÁRIO

  1. Caro Marcelo,

    A palavra final é a versão definitiva sobre qualquer coisa. No mundo de hoje, em constante mutação é quase impossível, pois implica em unanimidade.

    De todas as suas definições, a que eu considero a mais longe da “palavra final” é a sobre o conservadorismo, principalmente quando sua definição é amparada por Hayeck um dos fundadores da Escola Austríaca de pensamento.

    Estou mais para Roger Scruton, morto há pouco tempo, cuja obra toda é formidável, porém “Um convite à grande tradição” é um dos melhores.

    Só para dar um exemplo: “O estado de direito” é obra do conservadorismo.

    Nada mais errado do que achar que o conservador é avesso às mudanças.

    O aprimoramento das coisas é essencialmente a visão do conservador, sem que no entanto as que levaram séculos para serem construídas sejam descartadas.

    Ah, o conservador antes de mais nada é um cético e jamais vai seguir cegamente a um líder.

    • Cada um com suas opiniões, claro, João.

      Eu fico com Hayek e acho que se os conservadores não quisessem conservar as coisas como estão não se chamariam conservadores, se chamariam modificadores.

      • Marcelo, acho que v. confunde conservador com reacionário. São coisas distintas.

        Se v. achar que é igual, não dá mais para debater.

        Abraço

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