Editorial Gazeta do Povo
O IMD World Competitiveness Center, em parceria com a Fundação Dom Cabral, publicou recentemente seu Ranking Mundial de Competitividade 2026, e as notícias não são nada boas para o Brasil, que caiu sete posições na lista de 70 nações analisadas. Agora, o país ocupa o 65.º lugar, à frente apenas de México, Botsuana, Mongólia, Nigéria, Namíbia e Venezuela. Essa posição é a pior dos últimos anos, e tem como causas realidades nacionais que impedem o aumento da produtividade, o crescimento econômico, o aumento da renda por habitante, a redução da pobreza e a melhoria geral do padrão de vida da população.
A expressão “competitividade” refere-se à capacidade do país de competir no mercado internacional e depende da eficiência das empresas estabelecidas no território nacional, do tamanho e qualidade da infraestrutura física e de outros fatores internos que interferem na decisão de investimentos, custos de produção do setor produtivo e condições necessárias à competição no mercado mundial. A competitividade nacional é a somatória da capacidade competitiva de cada setor produtivo e de cada empresa, compondo o conjunto das unidades produtivas. Cada empresa individualmente tem a realidade interna de seu parque produtivo, estrutura de capital, nível de endividamento, eficiência industrial, qualidade da gestão, qualidade do produto, credibilidade no mercado, eficiência na comercialização, logística adequada e capacidade de lucrar e crescer.
Porém, para atuar no mercado internacional com sucesso, o conceito não depende apenas de saber se a empresa é competitiva (ou não) da porta da fábrica para dentro, mas se o país é competitivo da porta das fábricas para fora: a posição no ranking de competitividade global depende de que o país tenha as bases requeridas para competir com vantagem no mercado internacional. Assim, a medição da competitividade do país como um todo exige conhecer o chamado “custo Brasil”, pois, ao participar do mercado internacional, a concorrência se dá no âmbito dos fatores internos da empresa e dos fatores nacionais que interferem no custo de produção, na qualidade dos produtos e na eficiência empresarial.
Em geral, quando se fala em “custo Brasil”, logo vem à tona a situação da infraestrutura nacional (rodovias, ferrovias, energia, telecomunicações, armazenagem, portos, aeroportos), comparada com os países concorrentes. Mas isso é apenas parte do problema. O “custo Brasil” integral deve considerar adicionalmente a carga tributária, a taxa de juros, a taxa de câmbio, o custo de obediência (custo burocrático e jurídico de obedecer às leis e os regulamentos), o custo judicial (qualidade das leis e eficiência da Justiça), custo político (estabilidade do regime político, das leis e das regras do jogo) e nível de confiança na rapidez e eficácia do sistema judiciário.
Quando uma empresa nacional entra em competição com empresas de outros países para vendas no mercado internacional, todos os elementos do “custo Brasil” interferem no cálculo da capacidade do país de competir. O relatório que demonstra a baixa capacidade competitiva do Brasil e a queda de sete posições, colocando o país nos últimos lugares entre 70 nações analisadas, revela que o Brasil está muito mal no conjunto de condições institucionais, econômicas e estruturais que influenciam a produtividade e a eficiência do setor produtivo.
O relatório considera quatro fatores gerais: performance econômica, eficiência governamental, eficiência empresarial e infraestrutura, e o Brasil piorou sua posição em todos os indicadores. O destaque negativo mais grave fica por conta da “eficiência de negócios”, com queda de 11 posições, e da “performance econômica”, com queda de seis posições no levantamento. O relatório considera ainda o custo de capital, endividamento corporativo, educação primária e secundária, força de trabalho produtivo, habilidades linguísticas e habilidades financeiras, variáveis nas quais o Brasil se apresenta no fim da fila dos 70 países.
A propósito desse tema, segundo relatório do Departamento Agrícola dos Estados Unidos (USDA), o crescimento da produção agrícola brasileira até 2034 vai depender essencialmente da infraestrutura logística, mais que da expansão da área plantada. Como o agronegócio como um todo representa participação expressiva do Brasil no mercado global, as constatações desse relatório são importantes para a compreensão da baixa capacidade competitiva brasileira e para a formulação de políticas destinadas a fazer o país avançar nessa questão.
Alguns aspectos apontados pelo relatório merecem destaque: gargalos em transporte, armazenagem e escoamento podem representar até cerca de 30% dos custos do setor, enquanto mais de 60% da malha rodoviária apresenta algum tipo de deficiência operacional. A capacidade de armazenagem cobre entre 60% e 70% da produção nacional, com déficit estimado em 134 milhões de toneladas, lacuna que demandaria cerca de R$ 140 bilhões em investimentos para ser reduzida. Mais de 95% da movimentação de grãos depende do transporte rodoviário, fator que eleva os custos em períodos de safra e sobrecarrega a infraestrutura de escoamento. Ferrovias e hidrovias são apontadas como alternativas para redução de custos, mas ainda enfrentam entraves regulatórios, ambientais e de execução.
Segundo o relatório da USDA, a expansão da produção agrícola brasileira ocorreu em ritmo superior ao da infraestrutura logística, e isso limita a competitividade do país nas próximas décadas nesse setor. Esses exemplos descortinam apenas uma parte do problema, e a péssima posição do Brasil no ranking de competitividade é a consequência natural do atraso do país nos fatores citados. O atraso brasileiro fica mais visível e se apresenta mais grave quando comparado com os países que ocupam as dez primeiras posições na lista do IMD World Competitiveness Center e da Fundação Dom Cabral: na ordem, Cingapura, Hong Kong, Suíça, Taiwan, Emirados Árabes Unidos, Dinamarca, Irlanda, Países Baixos, Suécia e Estados Unidos. Governo e lideranças empresariais deveriam estudar o que esses países fizeram e o Brasil não fez. O diagnóstico do atraso brasileiro não é difícil; a dificuldade tem sido na capacidade de solucionar as deficiências e os gargalos.