CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

ONTEM, HOJE E AMANHÃ

Aqui pelas bandas onde eu moro, reza o folclore que uma certa moçoila muito dada e de sólida formação religiosa, num desses modorrentos dias de verão singrou a mansidão do bucólico cotidiano interiorano e irrompeu casa adentro determinada em comunicar à família o suplício que lhe devastava a alma e dilacerava o coração. Movida por uma coragem que desconhecia, disparou num fôlego só: “mamãe, o tarado me pegou ontem, hoje e amanhã!”. Compreensiva, a mãe a acolheu nos braços e a confortou: “não se desespere, minha filha; nada melhor do que um dia depois do outro!”. Ao rememorar essa passagem pitoresca, foi praticamente impossível não estabelecer um paralelo entre as desventuras daquela jovem e a trajetória do Partido dos Trabalhadores.

Quanto mais as lideranças petistas tentam justificar o enorme vazio que os distancia de suas origens, mais se aproximam da menina que ilustra a fábula. Longe da inocência pueril da personagem do conto, usam, no entanto, do mesmo ardil e buscam na retórica rota que os caracteriza um lampejo de decência na prostituição política que escolheram como meio de sobrevivência. De diferente, é que a menina quase-virgem vagueia serelepe apenas pela vastidão do imaginário popular, enquanto os próceres petistas brincam com a realidade e zombam da inteligência da sociedade brasileira surfando nas águas fétidas da hipocrisia.

Ontem, sem estupor, mas com a mais refinada malandragem, invadiram os lares dos brasileiros para comunicar que, açodados pela vergonha imposta por consecutivas derrotas nas urnas, foram obrigados a facilitar as investidas do desalmado e imoral tarado do oportunismo eleitoreiro aceitando como companheiro de orgia política um dos mais expressivos representantes do outrora odiado capitalismo para compor a chapa que elegeria o presidente da República por eles apoiado. Inovadores, criaram jurisprudência no campo da pornografia eleitoral introduzindo a figura jurídica do primeiro caso de estupro consentido.

Fruto de uma gestação promíscua e temerária, no terceiro ano daquela conjunção interesseira nasceu o mais famoso dos seus rebentos. Embora empregassem todos os esforços para registrá-lo sob o codinome Caixa Dois, o pimpolho resistiu ao assédio e já prestes a ingressar na pós-adolescência faz questão de ser chamado de Mensalão do PT, seu nome de batismo. O Petrolão foi nada mais que o aprimoramento da experiência corruptiva do escândalo que imortalizou o “eu não sabia” de Lula da Silva.

Totalmente afeitos às delícias proporcionadas pelo poder, denunciaram que estavam prenhos novamente e que desta vez foram forçados a dividir o leito com o tarado da privatização, inimigo útil que num passado não muito distante lhes garantiu vários milhões de votos e vitórias memoráveis. Preocupados em abafar o caso juraram que o rebento era adotivo e, dispostos a provar que a mesma coisa nem sempre é a mesma coisa, colocaram-lhe a alcunha de Concessão. Arrogantes, tinham certeza de que a capacidade de percepção do brasileiro também era concessão do PT. Compreenderam que não era ao serem repudiados nas ruas por ocasião dos protestos que culminaram no impeachment de Dilma Rousseff.

Amanhã, certamente estarão ávidos por novas aventuras, e, determinados a sacrificarem-se pela causa, não se importarão em submeterem-se aos flagelos que a prostituição política condiciona. Do conforto de suas alcovas, exercitarão a experiência acumulada no jogo da sedução cuidando para ter sempre à mão um conveniente estuprador malvado para justificar as obscenidades que o desempenho nas urnas exigir.

Se por ventura sentirem algum sintoma que possa levá-los a deparar-se com algo semelhante a uma crise de consciência capaz de censurá-los por essa ativa vida mundana, de imediato irão se recompor certos de que encontrarão guarida na sabedoria infinita de seu grande líder e guru que, por sua vez, inspirando-se no exemplo da mãe da moça da historinha, os acolherá sob suas asas protetoras e dissipará todos os seus temores. Convicto de seu retorno ao poder, garantirá:

“o futuro próximo há de nos sorrir generoso”, vaticina; “portanto, não se apoquentem crianças, nada melhor do que um contrato depois do outro!”.

Deixe uma resposta