MARCOS MAIRTON - CONTOS, CRÔNICAS E CORDEIS

Eu havia acabado de sair de casa. Caminhava até um restaurante self-service que fica a duas quadras do nosso apartamento em Fortaleza, quando fui abordado por uma mulher, que carregava uma criança nos braços. Perguntou onde seria o ponto de ônibus mais próximo.

Indiquei a direção e a fiquei observando se afastar. Devia ter pouco mais de trinta anos. O menino parecia ter uns dois anos de idade, talvez mais. Grande demais para ser carregado no colo, o que me levou a pensar que estivesse doente.

As roupas, tanto da mulher como da criança, não pareciam as comuns de ficar em casa. “É isso mesmo” — pensei — “a mãe deve ter levado o filho ao médico, cedo da manhã, agora estão voltando para casa”.

Trabalho pesado locomover-se suportando o peso daquele menino, sob o sol de quase meio dia.

Enquanto acompanhava aquela jovem mãe com o olhar, lembrei de outra mulher, que conheci há muitos anos.

Naquela época, seus dois filhos eram pequenos. Quando o mais velho estava com pouco mais que cinco anos de idade, o mais novo, que tinha menos de dois, teve poliomielite, empurrando aquela mãe para verdadeira peregrinação por postos de saúde e hospitais públicos em busca de tratamento para o menino.

Depois de inúmeras idas e vindas, consultas, exames e madrugadas na porta de hospitais, em busca de atendimento, ela conseguiu marcar uma cirurgia para o filho. Mas o método que seria adotado pelo cirurgião ainda não tinha eficácia comprovada pela literatura médica. Por causa disso, ela teria que assinar um termo de responsabilidade, para o caso de alguma coisa dar errado.

A mulher enfrentou resistência família. Amigos e parentes a aconselharam a não assinar o termo. Mas ela assinou.

Acreditou na medicina. Mas, talvez por acreditar mais em Deus que nos homens, recorreu também à novena de Santa Teresinha do Menino Jesus. Fez as orações, ganhou uma rosa no oitavo dia e encheu-se de esperança.

Hospitais, cirurgias, sessões de fisioterapia e meses de expectativa passaram a fazer parte da vida daquela mulher. Ao final de meses, em um período que não se sabe ao certo quanto tempo durou, a recompensa pelo esforço: o menino voltou a andar.

Seis anos depois de ter contraído a doença, ele já corria com os colegas da escola na hora do recreio. Não era tão rápido quanto os outros meninos, mas corria. Claudicava, tropeçava, caía, mas seguia em frente. A mãe sempre lhe dizendo: “Cada um caminha com as pernas que tem”.

Um detalhe não pode ser esquecido: durante todo o período em que essa mulher lutava pela saúde do filho caçula, cuidava para que ele o irmão continuassem frequentando a escola. Para ela, não havia obstáculo que justificasse uma criança parar de estudar.

O marido a ajudou nessa luta para cuidar dos filhos e educá-los, é verdade. Alguns de seus irmãos e irmãs também ajudaram. Mas, sendo esta uma crônica escrita para o Dia das Mães, a protagonista da história é essa mulher, que dedicou uma vida inteira à família.

Na difícil tarefa de mãe, nunca levantou a voz para repreender os filhos, nunca os pôs de castigo, nem muito menos bateu neles. Ao invés de dizer “não faça isso”, ela sempre preferiu perguntar “você acha certo fazer isso?”. Onde muitos diriam “isso não é possível”, perguntava: “você quer tentar?”.

Passaram-se os anos. Seus filhos hoje são adultos. O mais velho formou-se em odontologia, fez mestrado e doutorado. Hoje é professor da Universidade Federal do Ceará, um profissional respeitado no país inteiro. O mais novo — aquele da poliomielite — formou-se em Direito, fez mestrado e tornou-se juiz federal e escritor.

Com os “meninos” encaminhados na vida, ela finalmente achou espaço para si mesma. Já na chamada terceira idade, realizou dois desejos com os quais sonhara a vida inteira: fazer faculdade de Teologia e aprender a andar de bicicleta.

Após a realização desses desejos, alfabetizou e contribuiu para a formação de dezenas de crianças. Sem fazer alarde, em sua própria casa, onde improvisava uma sala de aula e dava gratuitamente aulas de reforço escolar.

Hoje, essa mulher leva uma vida tranquila, com a serenidade de quem fez a sua parte para tornar nosso planeta um lugar melhor para se viver.

O nome dessa mulher vencedora é Ivonete. Ou simplesmente Neta, como sempre preferiram os seus irmãos, as suas irmãs e o seu falecido marido.

Eu e meu irmão, Materson, temos nosso próprio jeito de chamá-la. Chamamos simplesmente de Mamãe.

E, na hora de escrever, é assim mesmo que o fazemos: com M maiúsculo.

(*) Escrevi essa crônica em 2014. Hoje, véspera dos Dia das Mães de 2020, estando longe da minha mãe, sem poder ir vê-la, por causa da pandemia do corona vírus, resolvi atualizar alguns pontos do texto e publicá-la novamente.

7 pensou em “MÃE COM “M” MAIÚSCULO (*)

  1. Aí, é covardia, Marcos.
    O cabra fazer o outro encher as cacimbinhas do rosto desse jeito?

    Pois, me dê licença.

    Mamãe, se eu tivesse aí
    Te daria aquele abraço
    Deitaria o coração
    No amor do teu regaço
    Pois, é dentro desse amor
    Sentindo o teu calor
    Que encontro o melhor espaço.

    (Jesus de Ritinha de Miúdo)

    • Mamãe sempre me tratou
      Como quem trata um amigo:
      Sem me proibir de nada,
      Sem nunca brigar comigo.
      Ela jamais me bateu,
      Nunca me repreendeu,
      Nem me botou de castigo.

      Hoje, quando me perguntam:
      “Como foi que aconteceu,
      Que essa criação deu certo,
      E você não se perdeu?”
      Sem saber sei o que dizer
      Só me resta responder
      Também perguntando: “E deu?”

  2. Emocionante…..
    Mamae com M maiusculo, me inspirou a escrever sobre a minha Mamae.
    É de dar orgulho estas Mães com M maiúsculo…..
    Parabens por sua MAMÃE….

  3. Professor,uma de minhas netas precisa fazer um trabalho sobre, o que é a verdade. Lembrei-me que, em uma das suas postagem,o sr conversando com um amigo imaginário, que o acompanha desde sua infância,, deu, em minha opinião,uma das melhores definições para o que é a Verdade. Infelizmente, diferentemente dos outros colaboradores, que mantem suas postagens completas, só tive acesso as suas três últimas colaborações com esse JBF..Como eu não consegui falar com o Berto, gostaria de saber, se é possível a liberação do conteúdo que foi postado em, Contos, Crônicas e Cordéis, pelo mínimo, o que foi publicado nesse ano.. Perdoe-me pelo incômodo e, meus respeitos. Paulo Terracota.

    • Olá, Paulo!
      Quanta honra para mim ter minha crônica lembrada para essa finalidade.
      Lamentavelmente, perdemos o conteúdo de minha coluna no JBF, mas posso lhe passar o texto.
      Vou pedir seu e-mail ao Berto, ok?

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