JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

Juraci de Souza Mendonça – “Jurinha”

Naquelas paragens, as coisas diferentes, fora dos hábitos tradicionais acabam chamando a atenção de todos. Pois, era assim com Juraci de Souza Mendonça, pouco conhecida pelo extenso e pomposo nome. Mas, facilmente conhecida pelo apelido “Jurinha”.

Aquele povoado se dava ao luxo de ter arredores produtivos e muito frequentados. E, um desses “arredores” era conhecido por Calango. Poucos sabiam o motivo do nome, mas era assim que ficou conhecido.

O povoado principal era Cipoal, assim conhecido porque era de lá que vinham todos os cestos fabricados em grandes quantidades, e que serviam para os agricultores transportarem seus produtos colhidos na roça.

Jurinha nasceu no Calango. Mas, largada dos pais ainda menina, encontrou guarida no Cipoal. Era ali que ganhava a vida e aporrinhava a vida dos outros.

E por que foi largada pelos pais, quando saía da infância para a adolescência?

Porque “deu” muito cedo. E “deu” para muita gente. E quem não mostrava interesse, ela ia lá e “traçava”.

Pois, a forma de entender a vida, foi o motivo principal de ter sido largada pelos pais. Pais trabalhadores, corretos, sérios e muito religiosos, que não admitiam ter uma ainda menina em casa, mas já tão puta. E “dava” sem receber nada em troca. Dava pelo prazer de dar. Era de putada! (Ops!)

Pois “Jurinha” passou as várias fases da vida na putaria. Se vestia muito mal, apenas com o objetivo de chamar atenção. Num povoado onde a temperatura normal beirava os 40 graus, “Jurinha” calçava umas botas pretas e longas que ficavam acima dos joelhos. Uma minissaia tão “mini” que, qualquer movimento a calcinha aparecia. Mas, era exatamente aquilo que ela queria. Era debochada.

Claro que, escolhendo aquela forma de vida, “Jurinha” jamais encontraria alguém (homem) que se interessasse por uma convivência séria. E ainda assim, ela cagava e andava para isso.

O tempo passou. “Jurinha” precisou de sustento. E aí entrou na gandaia e começou a “faturar” alguns incautos que não a conheciam e que, esporadicamente, precisavam ir até Cipoal.

E o tempo foi passando e “Jurinha” envelhecendo. A freguesia, ainda que de incautos, diminuiu. O pouco que ganhava na cama, consumia na mesa de bebida. Envelheceu e ficou mais feia fisicamente do que quando ainda dava para qualquer um.

Debochada, virou desbocada. Quem se dirigisse à ela de alguma forma, em resposta ouvia um palavrão. Dos mais cabeludos. Desacatava as pessoas, ofendia os guarda municipais com a intenção de ser presa – na delegacia teria comida de graça!

Quer dizer: era feia e debochada, mas não era burra. Era égua, mesmo!

Mesmo envelhecida e castigada pelo tempo, e por nunca ter-se preocupado consigo mesma na juventude, “Jurinha” não era conhecida apenas porque tinha dado muito quando menina. Ou por que fosse desbocada soltando palavrões os mais inadequados contra qualquer pessoa, independente do sexo ou da idade.

Certo dia, ao cruzar na calçada do passeio com uma menina de uns 8 anos, essa teve a infelicidade de dizer:

– Mãe, olha que velha feia!

Pra que?! “Jurinha” parou e disparou:

– Véia feia é a boceta da tua mãe, filha de uma piranha!

Era daí para pior o repertório de palavrões de “Jurinha”. Mas, todos sabiam, “Jurinha” depois que envelheceu, não se transformou numa má pessoa. Apenas respondia às provocações. E respondia tudo como muitos queriam ouvir – daí as provocações.

Os “filhos” de Jurinha

As dificuldades acabaram fazendo com que “Jurinha”, aos poucos, se transformasse numa pessoa mais calma. Sem ódio no coração, por ter sido largada pela família, apenas por que gostava e sentia prazer em dar. Dar o que lhe pertencia, claro! Sentia prazer em dar e entendia que ninguém tinha o direito de proibi-la daquilo.

A vida continuava, enquanto a morte não chegava. “Jurinha” conseguiu atenção de pessoas boas e passou a morar num cômodo abandonado de uma velha fábrica de cestos. Ali passou a viver e dar os restos de comidas para cães e gatos que também se abrigavam no local.

A meninada acrescentou mais um apelido: “Jurinha”, a mãe do cachorros e gatos”! E ela nem se incomodava mais com aquilo, pois não lhe fazia mal algum. Chegava a rir, quando os cães se engatavam, ou quando os gatos faziam aquele barulho característico do gozo no sexo. Aquilo mexia com as passadas vezes que ela também “dava”. Eram momentos de felicidade para ela.

Eis que, certa tarde, quando uma mulher da vizinhança foi levar o resto de comida para os cães e gatos, percebeu algo diferente acontecendo naquele cômodo abandonado. Em vez de avançarem para ela, os cães continuaram deitados, com as cabeças encostadas no chão. Não estavam satisfeitos nem alegres pela chegada do que comeriam.

A mulher se aproximou e conseguiu perceber que “Jurinha” havia comprado passagem para a eternidade. Abandonada pela família, amada pelos animais.

MORAL DA HISTÓRIA: “Nem o Diabo é ruim para todos” – embora a convivência não seja bem aceita.

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