CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

UM NINHO DE CORONAVÍRUS

Fui na Serra do Chicão
Um dia de madrugada
Com meu cachorro Sansão
Pra nós dar uma caçada
Levei minha espingardinha
Dessas de caçá rolinha
Pus munição no bisaco
E, pensando em ter fartura,
Naquela nossa aventura,
Levei de lambuja, um saco.

Já quase no pé da serra
Nós saímos da estrada
Sansão farejando a terra
Da capoeira fechada
Aqui, acolá latia
Parava, depois corria
E se encostava em mim
Botava a venta em pau oco
Mijava em tudo que é toco,
Pantim de cachorro ruim.

Daí a pouco, Sansão
Estambou-se a latir
Se acuou num grutião
De lá não quis mais sair.
Eu conferi a espoleta
Livrei a jurema-preta
Desviei dum pé de pau
Pra tá tão agoniado
Caça boa tinha achado
E tava me dando o sinal

Fui chegando com cuidado
Que era pra não espantar
Aquele bicho acuado
Que Sansão tava a cercar
Sem saber qual animal
Meu corpo tremia igual
Se eu visse a besta-fera
A voz começou faltar
Ninguém vai acreditar
Quando eu disser o que era.

Parei pra ver se entendia
O zuadeiro ali feito
Bicho algum que eu conhecia
Falava daquele jeito
Uns grunhidos grosso e fino
De bicho adulto e menino
E, tudo de uma só vez,
Eu podia tá enganado
Mas, pelo que eu tinha estudado,
Tavam falando em chinês.

E eu, tão apoquentado
Que quase errei o tiro
Sabe o que eu tinha encontrado?
Um ninho de coronaviru
Dois grandes: O pai e a mãe
E um mói de menor tamanhe
Tudo bem amarelim
De pitó arrudiado
Com o zôim quase fechado
Parecendo uns chineizim

Os dois maior se lascaram
Com o tiro que eu tinha dado
E os mais de mil que sobraram?
Já vi que eu tava lascado.
Minha sorte nesse dia
Foi o saco que eu trazia
E que eu enchi de coroninha.
Amarrei bem, dei um nó,
Pra provar em Sanharó
Que não era mentira minha

Pequei o saco de bichim
E os mortos numa furquia
Botei os pés no camim
Levei pra delegacia.
Foi um furdunço danado
Encheu logo de sordado,
Prefeito, veriadô,
Donas de casa, enfermeiros,
Vagabundos, fuxiqueiros,
Padre, juiz e dodô.

Haja repórter chegando
De jornal, TV, revista
Eu já tava me arretando
De tanto dar entrevista.
Microfone, tinha um mói
Me chamaram de herói
Ganhei medalha, troféu
E o povo a me chalerá
Era eu naquele lugá
E padim Ciço no céu

Inda ganhei uns trocado,
Sansão ganhou carne e osso
E sai todo amostrado
Com as medalhas no pescoço
Um ministro afamado
Ligou emocionado
Para me agradecer
E o presidente, também,
Disse que no mês que vem
Vem aqui me conhecer.

Eita, que sorte da gota
Tá com minha espingardinha,
Sansão e o saco de estopa
Pr’eu levá os coroninhas
João Tavares, homi famoso,
Fez fama de mentiroso
E nunca pôde se livrar
Pois, achou um ninho de trovão
Nessa Serra do Chicão
E num pegô um pra prová.

2 pensou em “JOÃO ROBERTO MACIEL DE AQUINO – SANHARÓ-PE

  1. Caramba, João Roberto, tu és um poeta arrombado da gota serena! Vai ser bom de velso assim lá longe, sô. Muito bom. Olha aí, Pedro Malta.

  2. Eita peste. Ninho de coronavírus?

    Minha terra tem covid
    Onde o sabiá cantou
    Hoje, já não canta mais
    Também se contaminou.

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