CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

VENDEDOR DE ORAÇÕES

Era a antevéspera do malfadado tsunami covidiano quando visitei uma possante feira popular, plena em rebuliços e pregões bem gritados para ressoar ao ouvido de todos. Ali deparei-me com um vendedor de orações, um homem fogoió, bizarro, a bem dizer estrambótico. Sua singular esquisitice (mal-amanhado, corpo pesado, papadas pletóricas, cabeleira e barba descompostas) parecia não combinar com sua imperturbável mansuetude e modos beatos que lhe conferiam ares de santidade. (Quis a Suprema Providência que certos atributos humanos, a exemplo da bondade, do amor, não proviessem dos aspectos exteriores: aparência, indumentária, cabelos, mas brotassem de territórios ocultos, insondáveis).

Esse propagandista da fé, que atendia pelo apodo de “Louro”, apregoava, em tom de veracidade, que as tais orações, quase de salvação, cada qual com seu propósito, eram de virtudes prodigiosas; acudiam aos mais diversos embaraços. Cada prece correspondia a um patrono, dentre eles Santo Elesbão. A cada dezena de orações havia um frasco contendo água benta para ser espargida no interior da residência como recurso para repelir a entrada do “sujo” ou quaisquer dos seus emissários satânicos.

O “Louro” tinha particular predileção pelo miserere que prometia sono bem dormido: (“Nesta cama me deito, desta cama me levanto, a virgem nossa senhora me cubra com seu manto”). Mas não se podia descuidar de certos rituais sob pena de prostrar os efeitos das orações: umas haviam de ser penduradas ao pescoço do suplicante, em forma de escapulário, outras ao cós da saia, e assim por diante, além de serem proferidas devotamente.

Nas palavras do “Louro” os santos se esmeram em atender tolerantemente todos os pleitos, requerimentos e cartas de empenho.

E eu, criatura escassa, que não ouso contraditar a existência de Deus, sequer o poder das orações, (isso fica para os ateístas), tratei de adquirir não apenas uma, mas o maço completo: uma dezena. Afinal, além de espiritualizado também sou crendeiro brasileiro. Ademais, e para não incorrer em ofensa, acatei a tese da prudência: não povoar a mente com insinuações dubitativas acerca de temas sobrenaturais.

Apesar do peso dos meus pecados, as orações, quando as invoquei durante as minhas horas de apertura, se houveram prestimosas; emprestaram o melhor do seu adjutório. Essa constatação torna inconsistente a acusação que recaía sobre a pessoa do propagandista da fé. Rumores davam conta de que as orações não passavam de uma impostura, digamos um embuste, engendrado por “Louro”, para amealhar alguns tostões.

Mas mesmo que “Louro” se houvesse no papel de vendilhão de preces fementidas, atitude evidentemente censurável, isso ainda seria menos reprovável do que laborar no lamentoso expediente da mendicância, ou, pior, na prática das torpezas e do crime.

E assim são os sucedidos quando se põe o pé na estrada. Na estrada, além do pó, há de tudo, do trivial ao insólito, inclusive vendedor de orações. (“Em todos os tempos há de haver uma novidade que espante os homens, depois habituam-se”, Saramago).

E já que as orações (que têm o poder de acalentar e aliviar o peso dos fardos) inspiram grande conforto, inclusive para os desesperançados, mantê-las não faz mal. Nesses tempos sublinhadamente turvos, melhor manter a vela acesa das orações que agastar-se, ou amaldiçoar, as trevas. A luz — que insta a esperança, o Natal e DEUS, — consola mais que as trevas.

Tocado pelo dia 12 de outubro de 2021, acontecido anteontem, consagro essas letrinhas à Padroeira do Brasil, e aos brasileiros.

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