AS PALAVRAS E OS CAVALOS
Comumente, os escritores dispensam cuidados especiais ao léxico, a bem dizer, se esmeram em escolher os vocábulos que guardam maior pertinência com o sentido de cada frase. Escolher o vocábulo mais apropriado a cada frase corresponde, por aplicação analógica, à roupa mais indicada para cada ocasião. O critério vem de longe, remonta a Voltaire (1694-1778): “Uma palavra posta fora do lugar estraga o pensamento mais bonito”.
Mas o que as palavras têm a ver com os cavalos? Vejamos: nos tempos em que a agricultura dormia e acordava sob padrões rudimentares, as fazendas onde havia forte exploração agropecuária dispunham, obrigatoriamente, de um time denominado cavalhada, por meio do qual levavam-se a termo variados serviços rurais. Cada cavalo desempenhava papel condizente com o seu perfil. Assim, por exemplo, para puxar a carroça recorria-se a um animal robusto, porém traquejado; para o trabalho de campo, monitoramento do gado vacum, a escolha recaia sobre um animal de resistência duradoura, além, é claro, de rédea submissa para permitir ao vaqueiro, mediante o manejo da brida, ziguezaguear pelas sendas e quebradas; para as tarefas de “pega” recorria-se a um cavalo mais árdego, também conhecido por cavalos de chegada, este, aliás, privativo dos peões seniores, a bem dizer “peões de boiadeiro; para levar crianças e moçoilas à escola a opção recaia sobre um cavalo de doma, geralmente avelhentado.
Portanto, para a faina rural não bastava requisitar da área de pastejo (pradaria ou fechado da capoeira), qualquer cavalo. Era preciso definir o tipo de serviço para, finalmente, trazer pela arreata aquele animal cujo perfil se coadunava com a natureza do serviço a ser executado. Só se compra sapato conhecendo-se o tamanho do pé.
Assim como o perfil dos cavalos praticamente expressa o uniforme das suas funções, aos vocábulos, por relação de semelhança, sucede o mesmo. Por mais que alguns vocábulos guardem paridade, por mais que sejam concernentes ao sentido da frase, sempre haverá um que se revela primaz, se impõe pela pertinência, pela expressividade, pela sonoridade. São as sutilezas da sinonímia que não se pode desprezar; cada unidade tem seu grau de pertinência. Pena que essa particularidade linguística tenha caráter secundário aos olhos dos tempos tecnológicos; que concorrem para o vernáculo trafegar maltrapilho.
Comum é deparar-se com vocábulos, assaz malsonantes, comprometendo não apenas a efetividade da frase, mas também descompondo-lhe a fisionomia. São verdadeiros “cavalos” operando em desvio de função, alguns dos quais tão fora de lugar quanto peixe no asfalto.