CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

UMA RAIZ DE SAUDADE

Os longos anos decorridos, desde o alvorecer da primavera até hoje, ainda não se dispuseram a obsequiar o escritor Vicente Guia com um prestimoso favor: libertar uma raiz de saudade alojada nos seus pensamentos.

Quando a ditadura da evolução tangeu seus pais, José e Luiza, camponeses, do seu recanto costumado, para fazê-los apear em outro destino, uma urbe envernizada de asfalto, à mão levaram todas as suas crias, infanto-juvenis. Consternados, partiram todos. Na bagagem, o pesar de haverem deixado para trás coisas que muito lhes significava: a lavra da terra, o ranchinho, cheio de algazarra, que José ergueu a adobe; a roseira que Luíza plantou. A meninada, sentidamente, mastigava seu lamento surdo com a perda das mais apetecíveis formas de recreação que lhes eram habituais: brincadeiras a pés descalços, à moda do tempo.

Até o bolero, que fazia parte da família, ficou para trás. Na hora do adeus, bolero afundou sobre os seus amos, retirantes, um olhar comprido e interrogativo, como a inquiri-los se retornariam à saudosa querência; fitou-os até desaparecerem na curva da estrada. No papel de cadillac de pobre, bolero transportou, por anos a fio, mulheres e crianças por variadas paragens sertanejas sem jamais negligenciar o código de postura que lhe regia a conduta. De volta à casa, bastava que lhe soltassem a rédea, ele sabia o caminho.

Os haveres de José eram tão pouco que pôde acomodá-los no bolso de trás. Quanto a grande desconsolação de Luiza por haver-se separado de sua roseira, confortou-se na força das suas preces que as levou na mente.

O rancho, onde a vida exuberou-se, acometeu-se de soledade; se fez albergue de morcegos, estiolou-se, degradou-se. A ação deletéria do tempo fê-lo ruir, desapareceu da paisagem real e transferiu-se para o imaginário. Sequer uma cicatriz de tapera sobrerrestou.

Mas, para não enfadar o leitor com histórias compridas que mais se assemelham a explicações de um gago, ponho um ponto final neste retalho de saga.

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