CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

A ESMOLA

Não faz muito, alinhavei algumas palavras e as batizei de A GAIOLA. Agora, a pena, teimosa, escorre novamente para devanear acerca da ESMOLA. Gaiola, esmola; o parônimo se dá por acidental coincidência.

Alojado na mente dos brasileiros está o entendimento de que o ato de esmolar é sentimento que encerra compassividade (compassividade?) e se materializa quando se doa a alguém, demarcado por necessidade, um auxílio material (material?). Sem desmerecer essa compreensão, é preciso pôr em relevo que o referido entendimento, meio que mutilado, carece de completude, merece benfeitoria.

Em primeiro lugar, a esmola, manifestação de uma vontade, por mais que pareça gesto compassivo, nem sempre traduz sincero sentimento de compaixão. Pode significar hipocrisia, portanto, embuste para mascarar vaidades particulares, inconfessáveis. Exemplificativamente: esmolar para obter popularidade, para exibir generosidade, para dissimular atos ignóbeis, ou para ficar bem com a consciência. Certos fariseus, travestidos de benfeitores, para dar peso e realismo às suas ações “caritativas”, chegam a esmolar a própria camisa. Em segundo lugar, a esmola não se adstringe, unicamente, a auxílios materiais, isto é, a benefícios palpáveis. Engloba também os impalpáveis: carinho, alegria, poesia; “…dê uma esmola de amor às vítimas da solidão…”.

Enquanto a esmola, de índole verdadeira, tem no amor, na misericórdia pelo sofrimento alheio, sua principal motivação, a esmola de índole falsa se pauta pela impostura.

Proximamente cogito retornar a essa temática social não para aludir sobre os que dão esmolas, mas para sumariar a fisionomia dos agentes que laboram no ofício da mendicidade. O fazem, ora por justa precisão, ora por malandrice, representados estes pelos vadios, cínicos, desavergonhados.