CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

RIQUEZA EMBARGADA

O tempo vai sepultando hábitos e reinventado outros, é a perpétua mutabilidade das coisas. O isolamento social dos idosos que ontem regia-se pelo querer de cada um, hoje tornou-se compulsório por força do coronavírus. Brejeirice e espontaneidade são traços inerentes aos brasileiros; dados a um cumprimento, a um abraço, a uma prosa, (casta, ingênua ou maliciosa), enfim, a um cavaquear que rega a vida, põe sorriso e regozija a alma. Mas essa sementeira de felicidade que os brasileiros tanto prezam e que tanto bem lhes fazem, sobremaneira aos idosos, fora embargada, interrompida em caráter de provisoriedade. A interrupção dessa riqueza (impalpável, sem escritura) fora notada somente quando dela não se podia tirar proveito. “Mal vemos o paraíso que nos rodeia, mas enxergamo-lo bem quando o perdemos”.

Enquanto perdura a detenção em domicilio resta à moçada idosa ruminar a saudade desse bem tão precioso, prelibar o fruto que a mão já não alcança. “Vai, saudade, vai judiando com este velho amigo seu”. Saudade é algo que judia, faz que mata, mas tonifica. “Saudade mata, é verdade/ mas dessa morte eu me esquivo/ como morrer de saudade/ se é de saudade que vivo?

Todavia, o ser humano fora concebido para confrontar adversidades, é dotado de incrível capacidade de adaptação às mudanças. Quando o progresso alijou a tração animal e desautorizou os pés no estribo, o homem abateu-se com a falta do plac plac do cavalo, porém adaptou-se.

Oxalá possam os idosos, durante suas liberdades de água de poço, encontrar derivativos prazenteiros para preencher suas ociosidades. O meu, como de costume, é o de delinquir no mesmo cangaço: aborrecer os meus destinatários com escritos tão tediosos quanto insossos. Cada qual com o seu vício incorrigível.

Xô coronavirus, já não te basta a fama e tantas vidas humanas ceifadas?

2 pensou em “JACOB FORTES – BRASÍLIA-DF

  1. Beleza de artigo caro Jabob Fortes, a leitura neste confinamento involuntário é um deleite, não abro mão, mas o encontro com os amigos aposentados nas sextas feiras aqui no Núcleo Bandeirante em Brasília, eu sinto muita falta, neste dia o número as vezes chega a sessenta pessoas, tem de tudo, advogados, juizes, delegados agentes, empresários, ou simplesmente aposentados com eu e mais uma dezena, as vezes, quando do Baile dos anos 60, vem gente até de outros estados, mas a vida é assim exatamente como você escreve: “como morrer de saudade, se é de saudade que vivo?

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