CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

CANTAM, MAS NÃO ENXERGAM

Mais de doze milhões de brasileiros encontram-se privados da visão; é a zona turva do analfabetismo. Coincidência ou capricho do destino, são invariavelmente pobres. Mas em meio a essa escuridão, de consanguinidade escravagista, é possível divisar alguns vaga-lumes os quais, guiados pelos seus piscas-piscas, fintam mais facilmente os obstáculos que naturalmente estorvam a vida de quem não enxerga: são os poetas matutos, analfabetos na leitura e na escrita que, movidos por combustível telúrico, poetam suas paisagens sertanejas. Cada qual poeta sua aldeia.

Camões poetou as navegações. Os vaga-lumes poetam a cor, o sabor e o aroma do Nordeste. Embora orientados por fé vigorosa, esses cegos de mãos grossas mais se comprazem no ribombar do trovão que no repenicar do sino. Já que a quantidade incomensurável desses gênios (que ninam a solidão dos ermos sertanejos) impede nominar a todos, rendo-me à liturgia da conveniência para nominar apenas o reputado trio; ilustrador dos demais: Antônio Gonçalves da Silva, CE, (Patativa do Assaré)), Severino de Andrade Silva, PB (Zé da Luz) e Leonardo Pereira Alves, PE, (Bastião).

Suas genialidades encantam a todos, desde a massa cabocla aos governantes. Estes, aliás, não se cansam de franquear-lhes a publicação das suas produções poéticas. O fazem não apenas para compensar a desventura de terem sido relegados ao porão do esquecimento escolar, mas para engraxar prestígio político.

O dom de versejar pode não ser libertador quanto o estudo, quanto a qualificação, mas presta auxílio aos moldes de uma “vara de cego”, principalmente àqueles que, do tamanho de um mosquito, cantam do tamanho de um camelo.

Se já não é possível ao poder público iluminar a retina dos que já se acostumaram ao apagão, tal-qualmente a Parábola da Caverna, de Platão, que ao menos as crianças, doravante, não sejam apenadas com o mesmo castigo: o analfabetismo. Enquanto os castigos infligidos às pessoas derivam, inexoravelmente, de infrações cometidas, o analfabetismo – que exclui, aliena, humilha e deprime – é exemplo eloquente de punição por delito não cometido.

Que não falte às crianças do Brasil (e do mundo) o colírio anti-cegueira: o redentor caminho da escola! Afinal, essa tarja difamante, que ultraja a grandeza nacional, não combina com a cor do linho brasileiro.

“Tudo que o homem estudou
Para a natureza é pouco
Ele não inventa um coqueiro
E se inventar fica louco
Caçando a encanação
Que leva a água do chão
Pra botar dentro do coco”.

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