MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

Muitos conceitos da Economia são tão naturais ao ser humano que o simples bom senso nos permite entendê-los, mas às vezes é conveniente para certos grupos que estes conceitos NÃO SEJAM entendidos. Então, um paciente trabalho de convencimento (poderíamos chamar de lavagem cerebral) nos força a acreditar em coisas que nosso instinto diz que não fazem sentido. Um desses casos é sobre os conceitos de inflação e deflação.

Para começar, inflação não é nem sinônimo de aumento de preços, nem consequência. É causa. E o responsável pela inflação é o dono da moeda, ou seja, o governo.

No passado, as moedas tinham uma referência física, geralmente ouro ou prata. Desde o século passado, isso não existe mais, e os governos se auto-concederam o poder de criar moeda do nada. Hoje em dia, dinheiro é só um papel colorido, que os governos imprimem quando e quanto querem. Como todo governo gosta de gastar, o poder de criar dinheiro é uma tentação permanente para todos os políticos.

Acontece que o valor de uma moeda, assim como o valor de qualquer coisa, é determinado pela oferta e demanda. Se o governo imprime mais dinheiro, isso significa aumento da oferta e portanto menor valor. Quando o valor de uma moeda cai, as pessoas começam a usar outras coisas no lugar (euros, dólares, ouro, etc.), o que significa redução da demanda e portanto valor menor ainda. Ou seja: quando o governo “roda a maquininha” e produz mais dinheiro, o valor deste dinheiro cai, e em consequência todos os preços sobem – nesta moeda. É que não foi o valor das coisas que mudou, mas o valor da referência (a moeda) usada para medir este valor. Também é importante lembrar que se a moeda enfraquece, o preço de tudo que é importado sobe, e o preço de tudo que é exportado também (porque um preço de exportação maior força o preço do mercado interno para cima).

Outros motivos podem fazer os preços subirem, mas não todos ao mesmo tempo. Exemplo básico: se a chuva acabou com a safra de tomate, o preço do tomate sobe. Algumas pessoas vão achar que não vale a pena pagar tão caro, e vão trocar o tomate por outra coisa. O consumo cai, o preço volta a cair. Em economês, o preço é o mecanismo que faz a demanda se ajustar à oferta.

Podemos ter a impressão que um preço subindo fará todos os outros preços subirem. Só se as pessoas já estiverem tão acostumadas com a inflação ao ponto de perder a noção dos preços, ou quando o governo faz leis que forcem o repasse automático dos aumentos (no Brasil isto se chama Correção Monetária). Se o governo não estiver emitindo mais dinheiro, isto é, alimentando a inflação, qualquer aumento tende a se diluir na economia.

E o contrário? Uma diminuição de preços é chamada deflação. Se inflação é quando a moeda fica fraca, deflação é quando a moeda fica forte. Se o governo faz tudo certo (o que basicamente significa não fazer bobagens, como imprimir dinheiro ou tentar manipular o câmbio), a moeda valoriza, e em comparação com a moeda valorizada os outros preços ficam baratos, tanto das mercadorias quanto das outras moedas. Mas existe outro fator importante que continuamente força os preços para baixo: o progresso.

Progresso tecnológico significa tudo que facilita a produção e diminui o custo dos produtos: máquinas mais avançadas, métodos de produção aperfeiçoados, informatização, logística, infra-estrutura, um monte de coisas. Além disso, reduções de custo em um setor propagam-se rapidamente para outros, porque trazem uma vantagem competitiva. No final do século 19, a maioria dos países desenvolvidos viveu períodos de deflação, à medida em que as máquinas e a eletricidade permitiam produzir mercadorias com custo cada vez menor. E até hoje, a tecnologia está sempre fazendo coisas que eram caras ficarem baratas (eu sou do tempo em que ter mais de um banheiro em casa era coisa de rico).

Deflação é bom? É otimo. Quem não gosta de saber que os preços estão caindo? Bem, na verdade deflação é bom “só” para o consumidor e para o produtor que usa o desenvolvimento para baixar seus custos. Para o produtor preguiçoso, que quer ganhar sem fazer força, deflação é ruim. Mas é assim mesmo que funciona o livre mercado: o consumidor é o rei. E se dá bem quem consegue produzir valor, ou seja, produzir algo que o consumidor queira comprar.

Se comprar mais barato é bom e comprar mais caro é ruim (lógica básica) porque nos ensinam que inflação é bom e deflação é “um perigo para a economia”? Simples: porque todo governo quer emitir dinheiro para poder gastar, e isso causa inflação. Então, para ninguém reclamar, é preciso mentir que inflação é bom. Alguns economistas chegam ao descaramento de fazer cálculos para dizer qual o valor “saudável” da inflação. Na verdade, o que eles calculam é o quanto o governo pode fabricar de dinheiro sem que o povo reclame muito e sem perigo de a coisa toda desandar; um conselheiro do rei Luis XIV disse que tirar dinheiro do povo é como depenar um ganso: deve-se tentar obter o máximo de penas com o mínimo de gritos.

Em resumo: o progresso traz preços menores. O governo fabrica dinheiro para gastar e isso anula a descida, e causa até uma pequena subida. E todo mundo repete que é assim mesmo, porque é isso que ouvimos desde que nascemos.

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