XICO COM X, BIZERRA COM I

Vulgarizou-se o título, banalizou-se a expressão: todos são Poetas, todos se tratam por Poeta como se Poetas fossem. Assim como Eutrópio, que se dizia Poeta, se achava Poeta e adorava assim ser chamado. Fazia uns versinhos, de quando em vez, utilizava rimas mais que pobres e não obedecia qualquer métrica ou ritmo em seus poemas (se é que assim podemos chamá-los). Tampouco poderiam seus pretensos versos ser classificados como modernos, tão banais que eram. Eutrópio era tão Poeta quanto seu homônimo romano, um burocrata de Constantinopla, pouco afeito às rimas e aos versos.

Incautos o chamavam de Poeta e Eutrópio, de peito cheio e ego lotado, dizia, num auto-elogio, ser o Poeta mais importante de sua rua. Eutrópio não mentia: na rua em que morava só havia uma casa, a sua. E ele morava só. Era, pois, não apenas o mais importante, mas opúnico na rua em que morava. Viva Eutrópio (que me desculpem os Eutrópios, mas que mau gosto dos pais ao escolher esse nome pro filho. Vôte!).

Em Tempo: apenas para que não existam dúvidas e repetindo o que já disse em crônicas anteriores: me incluo entre os indevidamente chamados de Poeta. Não sou nem tenho a menor pretensão de sê-lo. Apenas escrevo, de quando em vez, letras de música popular, versos quaisquer, coisa de quem não tem o que fazer. Poeta é uma coisa muito maior. Salve Louro do Pajeú, Pinto do Monteiro, Manoel Bandeira, Manoel de Barros, João Cabral de Melo Neto, Fernando Pessoa …

7 pensou em “EUTRÓPIO

  1. Em São José do Egito , se diz que na cidade quem não é poeta ,é doido , mas que todo doido da cidade, faz poesia. Isto posto sou doido, dos mais pobres em poesia !!!
    Podemos dizer que isso se aplica ao pobre Eutropio, nunca a Xico Bezerra !!!

  2. Nesse naipe, faltou só falar no enorme poeta, já consagrado, que é Xico Bizerra. Viva Xico, para sempre, eterno, viva!!!

  3. Para mim, poeta é quem faz poesia, seja um desbocado e idiota feito um Bocage, seja um gênio da poesia que reconheço em Florbela Espanca. São todos poetas.

    Ser chamado de poeta, no meu modo de ver, não é um elogio; é expressar seus sentimentos e caráter em versos e prosa. Se alguém gostar, se faz sucesso, se ninguém gostar, o que eu imagino que não seja caso do Eutrópio de Roma, que é identificado exclusivamente como um prosador e historiador latino, e não como um poeta.

    Eutrópio de Roma é lembrado até hoje, mais de 1700 anos depois de sua morte.

    • Ao Padre José Paulo, João Francisco e Jairo Juruna, meu abraço pelos comentários. Só para esclarecer: o Eutropio, objeto de minha crônica, era apenas homônimo do historiador romano, de quem jamais tive a intenção de depreciar sua importância na história.
      Gratidão a todos.

  4. Xico Bizerra usou a figura de Eutrópio e a rua de uma casa só para construir uma divertida crônica recheada de ironia sobre a banalização do título de poeta no cotidiano e o ego inflado de quem se acha indevidamente um gigante da poesia.

    Por meio da figura de Eutrópio, que se autodenominava poeta em sua solidão, o texto de Xico satiriza a mediocridade pretensiosa e, no final, o cronista adota um tom humilde, recusando o rótulo para si e exaltando poetas consagrados.

    A confissão final do cronista, ao declarar que não tem a menor pretensão de ser poeta e que apenas escreve versos, ecoa a postura do apóstolo Paulo que, em uma de suas cartas destinadas a Timóteo (1 Timóteo 1:15), se intitulou como o pior dos pecadores, reconhecendo sua insignificância diante da grandeza divina.

    É interessante ver nesta crônica o autor tratar da poesia como uma coisa muito maior, colocando-se abaixo de nomes como Manoel Bandeira e Fernando Pessoa, em uma posição de humildade semelhante à de Paulo perante Deus.

    Em seus textos Paulo e o “enorme poeta, já consagrado, que é Xico Bizerra” utilizaram a hipérbole da autodepreciação para elevar o verdadeiro objeto de admiração: Paulo eleva a graça divina, e o cronista eleva a verdadeira arte poética, distanciando-se da figura narcisista de Eutrópio.

    “Viva Xico, para sempre, eterno, viva!!!”

  5. Pingback: O POETA | JORNAL DA BESTA FUBANA

Deixe um comentário para Ronaldo Ferreira Cancelar resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *