Tenho um amigo de longa data que, de uns anos para cá, se dispensou de qualquer restrição em dizer o que pensa, não importa o assunto ou o interlocutor. Sobretudo quando o tema é alguma queixa ou reclamação levada a seu conhecimento. Sua resposta é sempre algo do tipo: “que se dane, eu acho é pouco!”
Ele costuma se justificar dizendo que, a esta altura da vida, não tem mais paciência para frescuras e viadagens diante de perrengues causados pelas próprias atitudes dos reclamantes. Já perdeu algumas amizades por isso. De minha parte, acho que a mudança de comportamento decorre mais do consumo prolongado de substâncias alcoólicas; fumígenas e opiáceas, mas isso é outro assunto…
Pois bem, nesta quadra da vida de Banânia, faço minhas as palavras do meu amigo. Se algum de meus parcos leitores já desconfiou que me refiro à atual choradeira da imprensa ante os ataques supremos à profissão, eu confirmo; é disso mesmo que estou falando.
Qualquer um que tenha neurônios em quantidade superior aos dois típicos do populacho, já percebeu, há tempos, as barbaridades e avanços supremos sobre as liberdades individuais e garantias constitucionais.
Com as admiráveis e escassas exceções, JBF incluso, claro, o que se viu foi a omissão, quiçá apoio escancarado, da imprensa. Isso também vale para outros segmentos da sociedade civil organizada, sobretudo as mais barulhentas; ensurdecedoras em seu silêncio ante desmandos e patifarias as mais espantosas. Cito apenas um caso mais recente:
Sem o menor pudor, Alexandre de Moraes e Cristiano Zanin organizaram um jantar a portas fechadas, fora das agendas oficiais, para reaproximar Lula e Alcolumbre. O fato, absurdo de per si, se torna ainda mais grave pois realizado às vésperas da eleição presidencial com o claro objetivo de afastar os partidos do centrão da campanha de Flávio Bolsonaro; aproximá-los de Lula e interferir no jogo político, além de tentar evitar a eleição de senadores comprometidos com o impeachment de ministros.
A espada de Dâmocles suprema paira sobre a cabeça de todos e não me arrisco a fazer outras ilações acerca do conteúdo da reunião, mas não seria surpreendente se forem confirmadas as acusações de que para conseguir o tal objetivo, os ministros ameaçaram acelerar processos contra políticos do centrão que aguardam no STF.
O fato acima merecia uma coluna própria, mas para efeito do que abordo aqui, chamo a atenção para a forma burocrática e natural como tal barbaridade foi tratada pela imprensa. Os comensais disseram que foi apenas uma tentativa de volta à normalidade institucional; a imprensa fingiu que acreditou e deixou por isso mesmo não obstante aquilo ter sido tudo, menos institucionalmente normal.
Agora a conta começa a chegar àqueles que por ação ou omissão ajudaram a parir a criatura disforme e nefasta, nascida do contubérnio formado entre seres que se julgam intocáveis e dispensados de cumprir a lei e a constituição.
A recente quebra violenta das garantias constitucionais de sigilo da fonte, atinge em cheio um dos pilares do jornalismo. O recado foi claro: publiquem apenas aquilo que nos agrada ou vocês e suas fontes sofrerão as consequências!
Imaginemos, por alguns instantes, que algum mordomo, ou outro serviçal da mansão suprema tenha visto ou ouvido algo inconfessável dito no tal convescote que mencionei acima. Será que tal indivíduo teria coragem de passar tal informação a algum jornalista minimamente honrado? E este jornalista, teria coragem de publicar? Pois é…
A conta chegou e começou a grita geral. Até os canais oficiais, Globo e Uol, levantaram suas vozes contra a quebra da garantia constitucional, até mesmo a Abraj, totalmente omissa quando os alvos da censura eram ligados à direita, resolveu se manifestar.
Podem chorar, afinal, como já bem disse a tal de Majú, o choro é livre. Cada vez que leio algum desses defensores tardios do artigo 5° da constituição reclamando, imito meu amigo e repito, dando uma lapada na cangibrina: “Que se danem, eu acho é pouco!”