MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

Quem é da minha idade aprendeu na escola que Thomas Edison foi um grande benfeitor da humanidade, inventor da lâmpada elétrica, do fonógrafo e de muitas outras coisas. Já quem é mais jovem provavelmente ouviu que Edison foi um capitalista malvado que roubou os inventos de Nikola Tesla, esse sim um verdadeiro gênio injustiçado.

Nenhuma das visões é mais certa ou errada em si; ambas representam diferentes visões de mundo.

Até pouco tempo, o ser humano tinha uma profunda percepção da escassez: comida, abrigo, calor, água, tudo isso eram coisas escassas, que exigiam esforço para se obter, e que certamente não existiam em quantidade suficiente para serem consumidas sem parcimônia. Com as exceções de costume, todas as pessoas tinham plena consciência do trabalho necessário para plantar e colher, e da necessidade de guardar um pouco da colheita para semear a próxima safra, e de dividir a comida com os cavalos ou bois que puxariam o arado – segundo historiadores, uma família medieval gastava um terço de tudo que colhia para alimentar seus animais durante o inverno, quando não havia pasto.

As gerações mais recentes, porém, tendem a acreditar na existência de recursos ilimitados. Afinal, os supermercados tem montes de comida, à disposição de quem quiser comprá-los. As roupas são abundantes nos Shopping Centers, bem como móveis, aparelhos eletrônicos e tudo o mais que alguém possa querer.

Nesta visão do mundo não há espaço para o mérito de inventar algo, já que o conhecimento alheio é visto como algo trivial. Um médico descobriu a cura do câncer? Não fez mais que a obrigação. Um engenheiro projetou um computador admiravelmente poderoso? É para isso que ele é pago. Nossas casas tem luz elétrica, água corrente e ar condicionado disponível ao toque de um botão? Ora, isso é tão comum, como vai ser mérito de alguém?

Se o mérito não vai para quem realizou algo, vai para quem? Ora, vai para quem simboliza essa visão de mundo: os visionários, os sonhadores, os que vivem em mundos de fantasia. E para os que possam posar de “injustiçados”, para que dessa forma o mérito reverta em proveito próprio: “Vejam, eu defendo os injustiçados, porque eu sou um cara bacana!!”

Voltamos a Edison e Tesla. Edison era sem dúvida um capitalista: suas invenções vieram de pesquisas, e estas pesquisas dependiam de laboratórios, de materiais, e de muita gente trabalhando no assunto. E tudo isso dependia de capital, isto é, de dinheiro. Nada do tipo “gênio que passeava pelo campo quando, de repente, teve uma idéia”. É de Edison a frase “A genialidade é 1% inspiração e 99% transpiração”, isto é, suor, trabalho.

Tesla, por outro lado, se adapta melhor ao conceito oposto: sua inteligência era mais teórica que prática; era muito bom em matemática e extremamente criativo em suas invenções, mas não era tão bom em transformar suas idéias em produtos comercialmente viáveis. Como foi funcionário de Edison, virou o personagem perfeito para a narrativa do “inventor genial roubado pelo empresário inescrupuloso”. A cereja do bolo desta narrativa é o sonho de Tesla de transmitir energia elétrica pelo ar. Na sua idéia (jamais concretizada), não seriam necessários postes e fios: cada casa teria uma espécie de “antena” que receberia energia da mesma forma que recebemos rádio ou tv.

Para certos grupos, as implicações são óbvias: a idéia de Tesla foi boicotada pelos capitalistas malvados para impedir que as pessoas recebessem energia de graça e fossem obrigados a pagar por ela para estes mesmos capitalistas. É a teoria da conspiração ideal, e até mesmo a morte de Tesla é incluída nela. Claro que nenhum dos defensores desta idéia sabe explicar de onde viria esta energia. Da mesma forma que ninguém mais se preocupa em saber de onde vem ou como é produzida nossa comida e nossos smartphones, simplesmente assume-se que esta energia viria de algum lugar, e seria não apenas gratuita como também ilimitada (alguém economizaria algo que recebe de graça?). Afinal, estas mesmas pessoas acreditam que água, telefone e internet poderiam e deveriam ser ilimitadas e gratuitas, e só não são por causa (adivinhem?) dos capitalistas malvados (e dos governos que não tem “vontade política”). Elas também costumam acreditar que já foram inventados o carro movido a água, o sabonete que nunca acaba, o celular que não precisa de bateria e a vacina que cura todas as doenças, e que isto só não está à venda nas lojas por causa de uma grande conspiração dos “poderosos” para explorar a humanidade.

Para estas pessoas, lógica e ciência são coisas terrivelmente chatas. Se você tentar explicar que para distribuir energia elétrica gratuitamente (seja pelo ar ou por fios) esta energia precisa vir de algum lugar, e que isto certamente terá custos, você provavelmente será xingado de alienado. Para um sonhador, coisas como o Princípio da Conservação da Energia ou as Leis da Termodinâmica são reacionárias e fascistas. Outra característica importante: ao atacar os opositores e defender seus favoritos – Tesla, neste caso – eles desfilarão uma série de argumentos e afirmações provando que tudo que aconteceu de errado na vida do pobre Tesla foi culpa dos outros, jamais dele mesmo: exatamente o mesmo que eles acreditam sobre suas próprias vidas.

A consequência desta falta de consciência sobre a escassez e os limites dos recursos é visível em nosso dia-a-dia: a cultura do desperdício e do descartável. A falta de preocupação com o futuro. O foco no consumismo imediato e vazio. A incapacidade de se satisfazer: quem acredita que sempre pode ter mais, nunca estará satisfeito com o que têm.

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