JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

Seu José veio, do interior, para conhecer o verde mar de Boa Viagem. Vestiu um calção velho e foi provar o gosto daquela água com a qual sonhou toda vida. Mas, assim que deu o primeiro mergulho, encostou uma patrulha. “Não sabe que é proibido?, vagabundo. E o Covid?”. Seu José, inocente, “Estou só tomando um banho salgado”. “E ainda tem a coragem de nos insultar, dizendo Abaixo a Polícia?”. “Desculpe, doutor, mas eu nunca disse Abaixo a Polícia”. “Acabou de dizer”. E o pobre homem acabou preso. Por desacato.

Dia seguinte, saiu sua foto nos jornais. Com algemas. No meio dos tiras. Afinal solto, uma semana depois, bateu pé à procura de trabalho. Só que, nos lugares onde andou, as pessoas tinham visto aquela imagem. E ninguém se mostrou disposto a contratar um criminoso. Quando findou seu pouco dinheiro imaginou que, na prisão, ao menos teria onde comer. E dormir. Voltou à mesma praia e encontrou os guardas que o prenderam. Virou-se para o sargento e gritou, bem forte, “Abaixo a Polícia”. Certo de que iria em cana. Sem saber que havia já passado essa tara coronaviriana de prender. Pegava mal, nas vésperas de uma eleição. Razão pela qual restou, a Seu José, apenas cumprir sua penitência. Longe das penitenciárias.

Essa crônica é adaptação de um conto de Anatole France, Crainquebille. E serve para explicitar que somos dois brasis. Um por dentro do outro. Aparentemente iguais. Embora, no fundo, bem diferentes. Há os que usam armas para assaltar e os que se armam para evitar assaltos. Os que estão atrás das grades para não sair. E os que, com medo, se trancam em apartamentos que mais parecem gaiolas. Os que sabem ter culpa e os que não sabem que são inocentes. Os que não comem com receio de lipídios e colesteróis, para manter os corpos em forma. Dentro dos apartamentos. Os mesmos que, nessa pandemia, de vez em quando batem panelas – acostumadas a camarões, bifes e batatas. Enquanto as de tantos estão vazias. São esses que se espremem nos ônibus, nos metrôs, nas ruas populares cheias de gente. Com riscos de serem infectados. E morrer, nas filas dos hospitais públicos. Em resumo, há os que contam os dias para voltar a suas rotinas de ir às compras, frequentar bons restaurantes, viajar; enquanto outros, como Seu José, vivem aspirações bem mais modestas de apenas ter um teto, um prato de comida, um cartão do Bolsa-Família.

6 pensou em “DOIS BRASIS

  1. Lettre D’un Seigneur Sancho à Monsieur Cavalcanti:
    Voilà, monsieur Cavalcanti:
    Une critique d’une institution judiciaire aveugle et inhumaine qui pousse, en multipliant les injustices, les pauvres gens au crime.

    Et hop voilà Monsieur…

    Encaixe perfeito do conto Crainquebille, de Anatole France.

    Uma obra tão ao gosto francês, que já ganhou três versões cinematográficas por aquelas bandas:

    1922 : Crainquebille, film français réalisé par Jacques Feyder
    1933 : Crainquebille, film français réalisé par Jacques de Baroncelli
    1954 : Crainquebille, film français réalisé par Ralph Habib.

  2. Dr.º José Paulo Cavalcanti Filho:

    Eu preciso de um “Tratado Comportamental do Político Brasileiro e das Autoridades Constituídas” para nos proteger, depois de ler esse artigo?

    Pra quê? Se tudo que for lido é redundância?

  3. A inteligência, a sapiência e a evolução humana só podem ser traduzidas, brilhantenente através de pessoas como o Dr. José Paulo Cavalcanti. Sua coluna define fielmente sua douta e culta personalidade: “Penso, logo insisto”. Esse texto: “Dois Brasis”. Não é só elucidativo e educativo. Documenta as faces cruéis e paradoxais, da realidade presente. Reflexo também do “Status quo ante bellum” de décadas desperdiçadas no aniquilamento do nosso dúbio País. Essa guerra urge vencermos. Nossos filhos e netos merecem a Vitória.

    • Abracos em todos. Desde o governador até Ciquinho, que reclamou com o Papa. E Luís Carlos, com seus exageros. Abraços com o coração.

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