CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

Faixa fixada em prédio, na cidade de Presidente Prudente

Outro dia, um jovem espirituoso resolveu colocar uma faixa colorida, em terreno baldio, bem defronte ao prédio de sua namorada, com os dizeres:

“Marina, você é minha e nem o boi lambe!…”

Numa cidade do interior, pouco desenvolvida, isso chegou a ser atração turística. Mas a placa desapareceu dias depois, por iniciativa da Prefeitura, alegando que não havia licença.

Há quem diga que o pai da moça, um ex-militar de alto coturno, teria reagido, estimulando a providência junto ao Burgomestre. Tudo “por baixo dos panos”, como nos diz o ditado.

Mas a ocorrência tinha um significado poético e sentimental. João Alberto namorava com Marina às escondidas. Moça bonita, 16 anos, “donzela”de carteirinha”, xoxotinha pedindo ação, primeiro namorando, só se falavam na porta do colégio. Em suma: “Um perigo!”

Insistente e astuto, sabendo que Marina gostou da frase e da demonstração explícita, João Alberto preparou mais uma, e de noite foi lá com alguns amigos e fincou no mesmo local, dois paus e a a segunda bendita faixa:

“Marina, só você navega em meu coração!”

A essa altura, a escola onde estudava a jovem entrou em rebuliço. Era só no que se falava. E sabendo que a coisa tinha motivado a namoradinha, dias depois, apareceu mais uma faixa:

“Marina, quando lhe vejo meu coração lateja em festa.”

Aí já avacalhou! Ampliou-se a questão, por vários ângulos.

Para se vingar, o Coronel Genésio, ex-comandante do 14º RI-SP, pai da moça, brabo que só uma capota choca, revidou, embora de forma também inteligente e estratégica.

Na janela do seu próprio apartamento fixou uma faixa bem grande, com a palavra quase ofensiva: “Babão!”

O “amado” da filha do Coronel, “murchou”. Foi um míssil na sua ardilosidade. Mas, como ambas as mensagens foram inteligentes, não houve dúvidas: o artifício do jovem apaixonado “foi um arraso”!

Meses depois, João Alberto resolveu enfrentar o velho Genésio, de frente. Apresentou suas “credenciais militares”: disse que havia feito o CPOR e era concursado e se tornou funcionário da Segurança da Cia. da Vale do Rio Doce, dourando suas frases com miçangas e lantejoulas.

O Coronel, “deu uma aliviada” e permitiu o “namoro vigiado”. Mas, já havia imaginado botar um tanque de guerra para ostensivamente circular pela rua da escola, pra esculachar mesmo. Mas, ex-colegas de farda conseguiram evitar que a ideia vingasse. Assim teria sido demais!…

Tempos depois, sempre escoltada pela doméstica da casa, a mocinha cumpriu o programa de aulas normalmente. Meses à frente, aconteceu o noivado, depois o casamento. Tudo normal. Na sequência, nasceu o primeiro bruguelo, neto do Coronel e sua “reprimida” esposa, D. Matilde, coitada.

As placas, porém, não foram esquecidas.

E pouco depois de um ano, após o enlace matrimonial de Marina e João Alberto, ocorreu o nascimento do primeiro rebento do casal. Festas para todos os visitantes e até nota em Ibrahim Sued, fato que motivou João Alberto, na maior moita, a instalar mais uma placa, dessa vez com um sentido oculto; quase vingativo:

“O Coronel, ganhou um netinho!”

Mas, como dizem que o passado às vezes se repete, façamos referência a uma certa placa, embora apenas colada na janela de um apartamento, que nada tem a ver com nossa historieta.

Todavia, ao invés de “Babão”, estava escrito: “Ladrão”. Aí deu-se a bexiga da cilibrina”.

Tal iniciativa, incomodou os poderosos de plantão.

Por idéia dos pelegos, a Polícia foi pedir ao proprietário para retirar a “homenagem”, alegando que a expressão poderia resultar em crime, assinalado no artigo 2469 do código sacanocrático brasileiro.

Foi um verdadeiro buruçu. O fato se expandiu na Internet, em centenas de canais. O proprietário, sabendo que episódio teria desdobramento, “aprontou”.

Dias depois, caiu em circulação a foto de um prédio ostentando, em cada janela, placas onde se lia, em letras garrafais, a palavra da atualidade: Ladrão, Ladrão, Ladrão, Ladrão.

Era Ladrão que não acabava mais! Todo o condomínio se associou à resplandescente “homenagem”, em solidariedade.

Aí se entendeu que a solução aplicada pelos jagunços-policiais, foi muito pior, porque desencadeou a ira condominial.

No 1º de maio apareceu na Internet outra foto, no mesmo prédio, ainda pior, com palavras vingativas, porém, mais inteligentes. Só que representou – sabemos nós – u’a mensagem ainda mais contundente. Foi de lascar!

O proprietário que anteriormente fora pressionado pela Polícia – que apareceu em sua casa sem mandado, sem nada; só com a cara e a coragem, concordou em retirar a “faixa ofensiva”. Compreende-se, assim, a revolta no Condomínio!

Mas, dois dias depois, instalou mais uma, um tanto vingativa:

Se a moda pegar em nosso país, não haverá político que não se ofenda quando ocorrer fato semelhante, cabendo à jagunçada solicitar aos editores do dicionário Aurélio, a retirada do verbete: Ladrão.

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