MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

Certa vez, quando eu ainda era empresário, estava conversando com o dono da agência que cuidava da publicidade da minha microempresa. Eu comentei que achava estranho a quantidade de dinheiro que as várias marcas de cerveja gastavam em propaganda, considerando que os bebedores contumazes (pelo menos os que eu conheço) costumam ser apaixonadamente fiéis a uma marca. “Será que a publicidade consegue mudar esta fidelidade?”, perguntei a ele. Ele respondeu: “Marcelo, a Brahma não quer convencer você a tomar Brahma, nem a Skol quer te convencer a tomar Skol. O que todas as marcas querem é que você tome cerveja. O resto vem sozinho.”

Eu tenho pensado muito nessa ideia quando vejo nosso cenário político. Não é segredo que o Brasil está cada vez mais polarizado e que cada vez mais gente torce por um político do mesmo jeito que torce por um time de futebol: com 100% de emoção e 0% de lógica. Mas olhando as ações e os discursos dos políticos e dos seus principais “propagandistas” que são a imprensa e a escola, cada vez mais me convenço de que no fundo as divergências entre eles não são tão profundas assim. O que eles querem é que o eleitor esteja convencido de que precisa do governo, de que não pode viver sem o governo, de que o governo é sempre bom, de que o governo está sempre certo. O resto, como disse meu amigo, vem sozinho. Claro que eles querem votos, mas no fundo eleição é que nem ônibus: perde-se um, é só esperar que vem outro.

O importante é manter o “status quo”, ou aquilo que o José Padilha chamou de “mecanismo”. Perder uma eleição é apenas um aborrecimento tolerável quando se tem uma posição de destaque no partido, assessores fiéis instalados dentro do governo, empresários amigos com quem já foram trocados inúmeros favores. O que seria grave seria o povo deixar de aceitar passivamente a atividade principal de todo político, que é governar em causa própria. Seria um problema se os eleitores deixassem de acreditar que um governo cada vez maior é a solução para tudo, que todo problema precisa de “mais investimento” e “mais regulamentação”, que é preciso ser “mais rigoroso” ao exigir o cumprimento das milhares de normas que os políticos e seus asseclas produzem todos os dias.

Um dos problemas, apontado por Friedrich Hayek na sua espetacular obra “O Caminho da Servidão”, é que o exercício do poder dentro do governo tende a beneficiar os piores. Por quê? Ao exercer o poder, qualquer político em um momento ou outro fará uma escolha errada, seja por ganância, corrupção ou simples ignorância. Quando as consequências chegam, surgem duas hipóteses: admitir o erro e suportar o provável revés na carreira, ou negar, mentir, enganar e jogar a culpa em qualquer um que estiver por perto. Os que nasceram com talento natural para a mentira serão mais bem-sucedidos nisso que os outros.

A isso, claro, se soma outra constatação antiga: quando o eleitor quer ouvir promessas impossíveis, só os mentirosos poderão satisfazê-lo. Ao colocar-se como inerentemente justo, bondoso e à prova de erros, o sistema democrático de governo garante uma vantagem imensa aos mentirosos, aos populistas, aos demagogos e aos irresponsáveis: suas mentiras e irresponsabilidades se transformarão em votos, enquanto os políticos sérios que tentarem dizer a “dura verdade” ao povo serão chutados para fora nas eleições.

O primeiro grande passo rumo aos governos onipotentes foi dado com a Primeira Grande Guerra. Até 1914 o poder dos políticos era limitado pelo padrão-ouro, pelos orçamentos equilibrados e pela liberdade de comércio. A guerra forneceu o pretexto para trocar o padrão-ouro pelo papel-moeda inflacionado, o orçamento equilibrado pelo déficit constante, a liberdade de comércio pelo protecionismo (nisso os EUA já estavam adiantados). As pessoas se acostumaram a ver o governo diariamente roubar um pouquinho do seu dinheiro através da inflação, e a ver os políticos não apenas gastando o dinheiro que tomaram dos eleitores mas também gastando antecipadamente aquilo que vão tomar no futuro.

O segundo grande passo aconteceu em 11 de setembro de 2001 e se consolidou com a penetração da internet e das redes sociais no dia-a-dia de todos. Em nome da segurança, o governo declarou que o direito à privacidade não existia mais, que cada pessoa poderia ser espionada pelo governo (para o bem de todos, naturalmente) e que todos são suspeitos até prova em contrário. Ninguém lembrou da frase atribuída a Churchill: Quem abre mão de um pouco de liberdade em troca de um pouco de segurança não merece ter nem uma nem outra.

O terceiro passo está acontecendo agora: uma terrível ameaça invisível chamada covid-19 nos ameaça e pode exterminar a humanidade, a menos que todos desliguem o cérebro e obedeçam cegamente às ordens que receberem. Os resultados até agora tem sido positivos: a grande maioria está contente em seguir as determinações das autoridades, dos “especialistas” e da grande mídia em geral.

E depois? Aldous Huxley disse “O melhor estado totalitário é aquele onde os escravos não precisam ser acorrentados, porque amam a escravidão”. Viveremos o suficiente para ver esta realidade?

9 pensou em “DIVAGAÇÕES SOBRE O PODER

  1. Poucas vezes me deparei com um texto tão lucido quanto este, é o que eu penso, mas não tenho o talento para as palavras que o Sr. Marcelo Bertoluci possui, na minha humilde opinião, perfeito !!!

  2. Bom dia, textos maravilhosos, parabéns Marcelo pela sobriedade de pensamentos e conhecimentos sobre temas escritos aqui no JBF.

  3. O poder corrompe, todo político quer enganar o povo, Brasil polarizado entre eleitores que agem com 100% emoção e 0% de lógica. Nada mais errado. Isso faz parte de uma narrativa que, no fim, quer levar o PT de volta ao poder.

    Vamos à lógica que está escondida deste artigo tendencioso:

    Dados compilados em fevereiro/2022.

    1. Dívida pública do país cai para gerenciáveis 80,3% do PIB em 2021, previsões pessimistas do mercado estimavam que a dívida passaria de 100% do PIB.

    2. FGV aponta crescimento de 4,7% do PIB brasileiro em 2021, superando estimativas do mercado e economistas.

    3. Balança Comercial registra superávit de US$ 61 bilhões em 2021.

    4. Brasil registra mais de 2,7 milhões de empregos formais em 2021 (O período de janeiro de 2019 a dezembro de 2021 registra um saldo positivo de 3.183.221 novos postos de trabalho), já recuperando todos os postos de trabalho perdidos durante a Pandemia.

    5. Em 2021, o resultado das contas públicas é o segundo melhor entre as 50 maiores economias do mundo e o melhor entre as 20 maiores. Com isso, a política fiscal brasileira voltou ao padrão de 2014, antes da recessão e da pandemia.

    6. O déficit primário caiu de 10% do PIB, em 2020, para 0,4% em 2021, o melhor nível desde 2014.

    7. Mesmo com o enfrentamento da recessão provocada pela pandemia, o Brasil tem apresentado, para diversos indicadores fiscais, resultados melhores em 2021 do que o previsto em 2018, na hipótese de cenários com reformas elaborados pela equipe econômica do governo Temer.

    8. Ranking Doing Business (facilidade de fazer negócios): da Posição 124ª para 65ª – Banco Mundial (Descontinuado, mas mensurado pelo Projeto da Secretaria Especial de Modernização do Estado).

    9. Ranking de Liberdade Econômica: Da 143° para 134º – Heritage Foundation (medido até metade de 2021, vai aumentar na próxima divulgação em decorrência das políticas econômicas implementas até o fechamento e após).

    10. A realidade fiscal brasileira, apesar de desafiadora como sempre foi, devido à rigidez orçamentária, não corrobora o pessimismo de alguns analistas e mostra que, apesar das medidas emergenciais que ainda foram necessárias

    Fontes:

    https://www.gov.br/fazenda/pt-br/centrais-de-conteudos/publicacoes/conjuntura-economica/estudos-economicos/2022/ni-melhora-do-mercado-de-trabalho-em-2021.pdf/view

    https://www.gov.br/fazenda/pt-br/centrais-de-conteudos/publicacoes/conjuntura-economica/estudos-economicos/2022/ni-desempenho-fiscal-2021-e-comparacao-internacional.pdf/view

    https://www.gov.br/fazenda/pt-br/centrais-de-conteudos/publicacoes/conjuntura-economica/estudos-economicos/2022/ni-trajetorias-com-e-sem-reformas.pdf/view

    Tem mais, muito mais, mas já dá para provar o engodo que estão tentando nos passar.

    • João, creio que o Marcelo apenas teceu comentários em termos gerais, pois também eu sempre vi no terreno político a reunião de um bando de espertalhões e jamais dei meu voto à extrema esquerda pois sempre achei que governos vermelhos sempre acrescentam aos vícios políticos uma vontade enorme de transformar todos nós em escravos do comunismo.

      Confesso que durante toda a minha idade eleitoral, sempre havia votado nos tucanos (nunca me deixei enganar pelos defeitos que via nos emplumados políticos de tal legenda) por serem o mal menor… Infelizmente o menos pior é a norma do jogo eleitoral.

      Em 2018 meu voto foi para o Bolsonaro e vi ali um governo diferenciado em relação a todos que acompanhei em minha jornada de vida.

      Destaco sempre o timaço de ministros que escalou em seu governo.

      E fiquei feliz por ter Bolsonaro a quantidade de desafetos em posição de destaque no Brasil (imprensa, políticos, nfluenciadores, artistas, e um largo etcétera), pois sua vida e de seu entorno é vasculhado diariamente por tudo e por todos sem que tenha sido encontrado nada de relevante que possa mudar meu voto.

      Quanto ao que escreve o cronista sobre gente que torce por um político do mesmo jeito que torce por um time de futebol: com 100% de emoção e 0% de lógica, eis que isso ocorre, e é notório no tal campo progressista, principalmente nas fileiras vermelhas, pois o ex-presidente pertence à esquerda, que mundialmente possui TORCIDA ORGANIZADA.

      Aqui no Brasil vejo que, entre os simpatizante de Bolsonaro o mesmo não ocorre, pois os que o apoiam o fazem apenas e tão somente pelo bom governo que executa.

      Tanto isso é verdade que não há por trás do Jair um partido político, tanto é que ele vive mudando de sigla partidária.

      Quem gosta de Bolsonaro gosta apenas por identificar nele o único político no Brasil que defende DEUS, PÁTRIA, FAMÍLIA, enquanto os demais estão em busca de benesses políticas e projetos de eternizar-se no poder.

      Em 2022 pense 22. I vamu qui vamu.

      • Sancho, Marcelo já colocou aqui, em outro comentário, que não vê a hora que este desgoverno acabe em 2023. Como a meu ver só restam Bonoro e o Manguaça no páreo, vi que ele tirou sua camisa e escancarou sua torcida.

        Eu sou do Lema: “se v. ainda reluta em votar em Bolsonaro em 2022, veja quem está contra ele”.

        Abraço, meu caro.

        • João, essa sua obsessão em ler nos meus textos aquilo que eu não escrevi já está se tornando doentia. Distraia a cabeça, arrume um hobby ou busque tratamento.

          De resto, o Sancho já matou a charada: escrevi “em termos gerais”, tanto que fiz questão de usar a palavra “divagações” no título. Se você consegue achar algo pró-Lula neste pitaco, eu nem vou tentar argumentar. Para mim está claro que se eu postar a previsão do tempo, você irá me acusar de ser anti-Bolsonaro do mesmo jeito.

          • Marcelo, não fui eu que escrevi outro dia aqui neste espaço de comentários algo como: não vejo a hora de chegar 2023 e acabar este desgoverno.

            Este espaço de comentários é de debates e posso interpretar textos da forma como quiser.

            Eu entendo que este seu discurso “Hay gobierno?, Soy contra” faz parte de uma narrativa e obedece a um propósito.

            Se meus comentários te incomodam a ponto de me chamar de doente, acho que estou atingindo meus objetivos.

            até mais

  4. João, por mais que tentem, eu por exemplo nunca votei em esquerdistas, são falsos e só olham para o próprio umbigo, só lutam pelo poder, povo? Que se lixem. Se a campanha política do quanto pior melhor não começasse em 2018 até hoje, nosso horizontes seriam muitos melhores.

    • Caro Luiz, tudo faz parte de um processo. Antes de 2018 nós pensávamos que havia direita e esquerda no país. Era tudo mentira. quando entrou alguém que escancarou esta mentira, o sistema todos se voltou contra ele. A única maneira de tirá-lo (além do fracasso com o Adélio), foi colocar o país no caos.

      Então não há outro horizonte, senão combater os que querem o pior para o país.

      Abraço, meu caro.

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