Certa vez, quando eu ainda era empresário, estava conversando com o dono da agência que cuidava da publicidade da minha microempresa. Eu comentei que achava estranho a quantidade de dinheiro que as várias marcas de cerveja gastavam em propaganda, considerando que os bebedores contumazes (pelo menos os que eu conheço) costumam ser apaixonadamente fiéis a uma marca. “Será que a publicidade consegue mudar esta fidelidade?”, perguntei a ele. Ele respondeu: “Marcelo, a Brahma não quer convencer você a tomar Brahma, nem a Skol quer te convencer a tomar Skol. O que todas as marcas querem é que você tome cerveja. O resto vem sozinho.”
Eu tenho pensado muito nessa ideia quando vejo nosso cenário político. Não é segredo que o Brasil está cada vez mais polarizado e que cada vez mais gente torce por um político do mesmo jeito que torce por um time de futebol: com 100% de emoção e 0% de lógica. Mas olhando as ações e os discursos dos políticos e dos seus principais “propagandistas” que são a imprensa e a escola, cada vez mais me convenço de que no fundo as divergências entre eles não são tão profundas assim. O que eles querem é que o eleitor esteja convencido de que precisa do governo, de que não pode viver sem o governo, de que o governo é sempre bom, de que o governo está sempre certo. O resto, como disse meu amigo, vem sozinho. Claro que eles querem votos, mas no fundo eleição é que nem ônibus: perde-se um, é só esperar que vem outro.
O importante é manter o “status quo”, ou aquilo que o José Padilha chamou de “mecanismo”. Perder uma eleição é apenas um aborrecimento tolerável quando se tem uma posição de destaque no partido, assessores fiéis instalados dentro do governo, empresários amigos com quem já foram trocados inúmeros favores. O que seria grave seria o povo deixar de aceitar passivamente a atividade principal de todo político, que é governar em causa própria. Seria um problema se os eleitores deixassem de acreditar que um governo cada vez maior é a solução para tudo, que todo problema precisa de “mais investimento” e “mais regulamentação”, que é preciso ser “mais rigoroso” ao exigir o cumprimento das milhares de normas que os políticos e seus asseclas produzem todos os dias.
Um dos problemas, apontado por Friedrich Hayek na sua espetacular obra “O Caminho da Servidão”, é que o exercício do poder dentro do governo tende a beneficiar os piores. Por quê? Ao exercer o poder, qualquer político em um momento ou outro fará uma escolha errada, seja por ganância, corrupção ou simples ignorância. Quando as consequências chegam, surgem duas hipóteses: admitir o erro e suportar o provável revés na carreira, ou negar, mentir, enganar e jogar a culpa em qualquer um que estiver por perto. Os que nasceram com talento natural para a mentira serão mais bem-sucedidos nisso que os outros.
A isso, claro, se soma outra constatação antiga: quando o eleitor quer ouvir promessas impossíveis, só os mentirosos poderão satisfazê-lo. Ao colocar-se como inerentemente justo, bondoso e à prova de erros, o sistema democrático de governo garante uma vantagem imensa aos mentirosos, aos populistas, aos demagogos e aos irresponsáveis: suas mentiras e irresponsabilidades se transformarão em votos, enquanto os políticos sérios que tentarem dizer a “dura verdade” ao povo serão chutados para fora nas eleições.
O primeiro grande passo rumo aos governos onipotentes foi dado com a Primeira Grande Guerra. Até 1914 o poder dos políticos era limitado pelo padrão-ouro, pelos orçamentos equilibrados e pela liberdade de comércio. A guerra forneceu o pretexto para trocar o padrão-ouro pelo papel-moeda inflacionado, o orçamento equilibrado pelo déficit constante, a liberdade de comércio pelo protecionismo (nisso os EUA já estavam adiantados). As pessoas se acostumaram a ver o governo diariamente roubar um pouquinho do seu dinheiro através da inflação, e a ver os políticos não apenas gastando o dinheiro que tomaram dos eleitores mas também gastando antecipadamente aquilo que vão tomar no futuro.
O segundo grande passo aconteceu em 11 de setembro de 2001 e se consolidou com a penetração da internet e das redes sociais no dia-a-dia de todos. Em nome da segurança, o governo declarou que o direito à privacidade não existia mais, que cada pessoa poderia ser espionada pelo governo (para o bem de todos, naturalmente) e que todos são suspeitos até prova em contrário. Ninguém lembrou da frase atribuída a Churchill: Quem abre mão de um pouco de liberdade em troca de um pouco de segurança não merece ter nem uma nem outra.
O terceiro passo está acontecendo agora: uma terrível ameaça invisível chamada covid-19 nos ameaça e pode exterminar a humanidade, a menos que todos desliguem o cérebro e obedeçam cegamente às ordens que receberem. Os resultados até agora tem sido positivos: a grande maioria está contente em seguir as determinações das autoridades, dos “especialistas” e da grande mídia em geral.
E depois? Aldous Huxley disse “O melhor estado totalitário é aquele onde os escravos não precisam ser acorrentados, porque amam a escravidão”. Viveremos o suficiente para ver esta realidade?
Poucas vezes me deparei com um texto tão lucido quanto este, é o que eu penso, mas não tenho o talento para as palavras que o Sr. Marcelo Bertoluci possui, na minha humilde opinião, perfeito !!!
Bom dia, textos maravilhosos, parabéns Marcelo pela sobriedade de pensamentos e conhecimentos sobre temas escritos aqui no JBF.
O poder corrompe, todo político quer enganar o povo, Brasil polarizado entre eleitores que agem com 100% emoção e 0% de lógica. Nada mais errado. Isso faz parte de uma narrativa que, no fim, quer levar o PT de volta ao poder.
Vamos à lógica que está escondida deste artigo tendencioso:
Dados compilados em fevereiro/2022.
1. Dívida pública do país cai para gerenciáveis 80,3% do PIB em 2021, previsões pessimistas do mercado estimavam que a dívida passaria de 100% do PIB.
2. FGV aponta crescimento de 4,7% do PIB brasileiro em 2021, superando estimativas do mercado e economistas.
3. Balança Comercial registra superávit de US$ 61 bilhões em 2021.
4. Brasil registra mais de 2,7 milhões de empregos formais em 2021 (O período de janeiro de 2019 a dezembro de 2021 registra um saldo positivo de 3.183.221 novos postos de trabalho), já recuperando todos os postos de trabalho perdidos durante a Pandemia.
5. Em 2021, o resultado das contas públicas é o segundo melhor entre as 50 maiores economias do mundo e o melhor entre as 20 maiores. Com isso, a política fiscal brasileira voltou ao padrão de 2014, antes da recessão e da pandemia.
6. O déficit primário caiu de 10% do PIB, em 2020, para 0,4% em 2021, o melhor nível desde 2014.
7. Mesmo com o enfrentamento da recessão provocada pela pandemia, o Brasil tem apresentado, para diversos indicadores fiscais, resultados melhores em 2021 do que o previsto em 2018, na hipótese de cenários com reformas elaborados pela equipe econômica do governo Temer.
8. Ranking Doing Business (facilidade de fazer negócios): da Posição 124ª para 65ª – Banco Mundial (Descontinuado, mas mensurado pelo Projeto da Secretaria Especial de Modernização do Estado).
9. Ranking de Liberdade Econômica: Da 143° para 134º – Heritage Foundation (medido até metade de 2021, vai aumentar na próxima divulgação em decorrência das políticas econômicas implementas até o fechamento e após).
10. A realidade fiscal brasileira, apesar de desafiadora como sempre foi, devido à rigidez orçamentária, não corrobora o pessimismo de alguns analistas e mostra que, apesar das medidas emergenciais que ainda foram necessárias
Fontes:
https://www.gov.br/fazenda/pt-br/centrais-de-conteudos/publicacoes/conjuntura-economica/estudos-economicos/2022/ni-melhora-do-mercado-de-trabalho-em-2021.pdf/view
https://www.gov.br/fazenda/pt-br/centrais-de-conteudos/publicacoes/conjuntura-economica/estudos-economicos/2022/ni-desempenho-fiscal-2021-e-comparacao-internacional.pdf/view
https://www.gov.br/fazenda/pt-br/centrais-de-conteudos/publicacoes/conjuntura-economica/estudos-economicos/2022/ni-trajetorias-com-e-sem-reformas.pdf/view
Tem mais, muito mais, mas já dá para provar o engodo que estão tentando nos passar.
João, creio que o Marcelo apenas teceu comentários em termos gerais, pois também eu sempre vi no terreno político a reunião de um bando de espertalhões e jamais dei meu voto à extrema esquerda pois sempre achei que governos vermelhos sempre acrescentam aos vícios políticos uma vontade enorme de transformar todos nós em escravos do comunismo.
Confesso que durante toda a minha idade eleitoral, sempre havia votado nos tucanos (nunca me deixei enganar pelos defeitos que via nos emplumados políticos de tal legenda) por serem o mal menor… Infelizmente o menos pior é a norma do jogo eleitoral.
Em 2018 meu voto foi para o Bolsonaro e vi ali um governo diferenciado em relação a todos que acompanhei em minha jornada de vida.
Destaco sempre o timaço de ministros que escalou em seu governo.
E fiquei feliz por ter Bolsonaro a quantidade de desafetos em posição de destaque no Brasil (imprensa, políticos, nfluenciadores, artistas, e um largo etcétera), pois sua vida e de seu entorno é vasculhado diariamente por tudo e por todos sem que tenha sido encontrado nada de relevante que possa mudar meu voto.
Quanto ao que escreve o cronista sobre gente que torce por um político do mesmo jeito que torce por um time de futebol: com 100% de emoção e 0% de lógica, eis que isso ocorre, e é notório no tal campo progressista, principalmente nas fileiras vermelhas, pois o ex-presidente pertence à esquerda, que mundialmente possui TORCIDA ORGANIZADA.
Aqui no Brasil vejo que, entre os simpatizante de Bolsonaro o mesmo não ocorre, pois os que o apoiam o fazem apenas e tão somente pelo bom governo que executa.
Tanto isso é verdade que não há por trás do Jair um partido político, tanto é que ele vive mudando de sigla partidária.
Quem gosta de Bolsonaro gosta apenas por identificar nele o único político no Brasil que defende DEUS, PÁTRIA, FAMÍLIA, enquanto os demais estão em busca de benesses políticas e projetos de eternizar-se no poder.
Em 2022 pense 22. I vamu qui vamu.
Sancho, Marcelo já colocou aqui, em outro comentário, que não vê a hora que este desgoverno acabe em 2023. Como a meu ver só restam Bonoro e o Manguaça no páreo, vi que ele tirou sua camisa e escancarou sua torcida.
Eu sou do Lema: “se v. ainda reluta em votar em Bolsonaro em 2022, veja quem está contra ele”.
Abraço, meu caro.
João, essa sua obsessão em ler nos meus textos aquilo que eu não escrevi já está se tornando doentia. Distraia a cabeça, arrume um hobby ou busque tratamento.
De resto, o Sancho já matou a charada: escrevi “em termos gerais”, tanto que fiz questão de usar a palavra “divagações” no título. Se você consegue achar algo pró-Lula neste pitaco, eu nem vou tentar argumentar. Para mim está claro que se eu postar a previsão do tempo, você irá me acusar de ser anti-Bolsonaro do mesmo jeito.
Marcelo, não fui eu que escrevi outro dia aqui neste espaço de comentários algo como: não vejo a hora de chegar 2023 e acabar este desgoverno.
Este espaço de comentários é de debates e posso interpretar textos da forma como quiser.
Eu entendo que este seu discurso “Hay gobierno?, Soy contra” faz parte de uma narrativa e obedece a um propósito.
Se meus comentários te incomodam a ponto de me chamar de doente, acho que estou atingindo meus objetivos.
até mais
João, por mais que tentem, eu por exemplo nunca votei em esquerdistas, são falsos e só olham para o próprio umbigo, só lutam pelo poder, povo? Que se lixem. Se a campanha política do quanto pior melhor não começasse em 2018 até hoje, nosso horizontes seriam muitos melhores.
Caro Luiz, tudo faz parte de um processo. Antes de 2018 nós pensávamos que havia direita e esquerda no país. Era tudo mentira. quando entrou alguém que escancarou esta mentira, o sistema todos se voltou contra ele. A única maneira de tirá-lo (além do fracasso com o Adélio), foi colocar o país no caos.
Então não há outro horizonte, senão combater os que querem o pior para o país.
Abraço, meu caro.