JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

Lisboa. Tudo começou em um 14 de abril como o dessa terça-feira, só que no ano de 1969. Foi quando os militares pediram, gentilmente (nem tanto), que não estudasse mais no Brasil. E em nenhum outro lugar, se possível (mais tarde, ainda me proibiriam de ensinar). Mesmo estudando com bolsa, dada pela Universidade Católica, por ter as melhores notas de lá.

Mas era presidente do Diretório Acadêmico na Faculdade de Direito, está explicado. Mais ou menos, vá lá. Eram anos doentes, amigo leitor. Sombrios. Pedir mais Democracia, naquele tempo, não era muito salutar. Conto o que se passou, a seguir.

Cheguei triste, em casa, e o velho perguntou por quê. Disse que ele sabia qual a razão. E jamais esquecerei o que me disse, naquele momento,

‒ Não fique triste, filho; que, um dia, você ainda vai por tudo isso no seu currículo.

Ocorre que havia ganho Bolsa de Estudos para Harvard (Estados Unidos), com tudo pago. Meu problema era o passaporte, já que não conseguiria ter por conta da Folha Corrida. Foi o que lhe contei. Dr. José Paulo não falou nada. Manhã seguinte, bem cedinho, foi bater na Rua da União. Onde ficava a Secretaria de Segurança Pública de Pernambuco (hoje, Secretaria de Defesa Social).

Pediu para conversar com o secretário, sem nem saber quem era. Só chegaria por volta das 8 horas, informaram, e ficou sentado à espera. Até quando apareceu, por lá, seu maior amigo de infância. Vizinho de muro na Rua Fernandes Vieira e companheiro de peladas, todas as tardes, no campinho em frente ao hoje Teatro Valdemar de Oliveira. Passaram a lembrar o passado. Até quando Môa perguntou

– Tás fazendo o quê por essas bandas?, amigo.

– Esperando o secretário.

– Então vamos para a sala dele.

– Ficou doido?, vou ficar é aqui fora.

– Deixe disso, homem.

E levou meu pai, aos empurrões, para lá. Chegando, sentou na cadeira do secretário.

– Sai daí, Môa, que você vai acabar preso.

– Acho que não, Zé, olha aqui a placa Moacir Sales – Secretário.

– O secretário é você?, Môa.

– Está falando com ele, amigo, o que lhe trouxe aqui?

Meu pai explicou. Môa chamou, no fim da sala,

– Cabo, prepare aí um Nada Consta para o filho de meu amigo.

O cabo levantou e já ia saindo quando Môa o interrompeu

– Inda que mal lhe pergunte, Vossa Excelência está indo fazer o quê?

– Buscar a Folha Corrida do rapaz.

– Ô doutor cabo, eu mandei o senhor buscar a Folha Corrida ou bater um Nada Consta?

– O doutor mandou bater um Nada Consta.

– Quem vai assinar é você?, ou eu.

– É o doutor, claro.

– Pois sente na porra dessa cadeira, prepare o porra do Nada Consta, ponha na porra de minha mesa e desapareça da minha frente.

Assinou, entregou a meu pai e ficaram conversando sobre os bons tempos. De noite, ele

– Taí, pode viajar.

A ditadura brasileira, de vez em quando, funcionava desse jeito. As boas relações, as velhas amizades, o compadrio…

* * *

Mas ainda faltava o visto do Consulado Americano. Pedi e, quando fui buscar, o funcionário explicou

‒ O Cônsul quer falar, antes, com você.

Deus do céu, estava tão perto… Dia seguinte, disse presente. Entrei na sua sala, ele ainda não havia chegado. Na mesa, vi um currículo. Era o meu, com certeza, reconheci mesmo de longe por conta das notas. Pouco depois, surgiu no recinto e foi direto

‒ Vamos escolher uma Faculdade, nos Estados Unidos. Oferecemos apartamento e um contrato de sete anos, com garantia de mais sete, a depender de você. Dividimos o salário dos sete anos iniciais por nove. Assim você começa a receber, nos dois anos que faltam para se formar.

Conhecia minha vida, incrível. A explicação que tenho, para iniciativas como essa, é de ser à época uma política do país. A de recrutar pessoas. Era mesmo natural. Quando estudei em Harvard, soube que 51% dos professores de lá não são nativos. Estrangeiros, como se daria no meu caso. E imagino que tentações assim resultariam irresistíveis, naquele tempo, para a maioria dos estudantes brasileiros em minha situação.

Fosse outro, o cenário, e com certeza iria. Lá faria amigos e me casaria, sem mais voltar ao Recife. E viveria só para estudar. Ocorre que estava noivo. E trabalhava no escritório de meu pai. Tinha uma vida já traçada, por aqui. Não fosse isso e aceitaria, com certeza. Agradeci e disse não. Com visto na mão, viajei e deu tudo certo. Ainda bem. Graças. Adeus.

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