Digo o que noutro tempo não diria:
Foi tudo um grande sonho enganador…
Nego o passado, e juro que este amor
Só existiu na tua fantasia…
Sinto a volúpia da mentira! A dor
Não transparece. Nego… Que alegria!
Fiz crer ao mundo inteiro, por magia,
Que és de todos os homens o pior…
Nunca me entonteceu esse sorriso…
E, vê lá tu, se tanto for preciso,
Nego também as cartas que escrevi!
Quero humilhar-te, enfim… Mas não entendo
Porque me exalto e choro e te defendo,
Se alguém, a não ser eu, diz mal de ti…

Virgínia Vitorino, Alcobaça, Portugal (1895-1967)