MAURÍCIO ASSUERO - PARE, OLHE E ESCUTE

Começo dizendo que me graduei duas vezes, sendo uma delas em Economia. Por ser bancário, senti necessidade de aprofundar mais os conhecimentos na área de modo transitar bem no mercado no qual trabalhava. Digo isso, apenas para resgatar que na minha época de graduação havia um interesse maior das empresas por pessoas com cursos superior. Aparentemente, não havia uma dissociação tão intensa quanto a que vemos hoje.

Esta semana li que a China acabou com cursos de Economia, Contábeis, Administração, dentre outras, para incentivar engenharia vinculada a IA. Também vi um vídeo de Lito Souza, um ex-mecânico de aviação que tem um canal bem interessante sobre o assunto, comentar que no ano passado 175 voos experimentais, em naves comerciais, foram realizados sem pilotos. O sistema do avião, ligou a nave, pediu autorização à torre, taxiou, alinhou o avião na pista, decolou, voo e depois voltou para aterrissar, seguindo todos os protocolos necessários para isso.

Quando comparo determinados avanços com o Brasil, a angústia fala mais alto. Nossos alunos ocupam, frequentemente, as últimas posições no exame promovido pelo OCDE (PISA) onde leitura, ciências e matemática, são testados. De 72 países que mandaram alunos, o Brasil ficou em 69º lugar e quando você compara quem foi pior, a tristeza aumenta. Nós estamos equiparados ao nível mais baixo. O mais estranho é o governo alardear a infinidade de recursos que são destinados à educação. Não adiante construir escolas e o problema, também, não é a remuneração do professor que não incentiva. Claro, que como professor eu queria ter um salário mais digno, mas o que eu observo é que há comportamentos diferentes dos mestres. Por exemplo: um professor de escola pública que também ensina em escola particular, não tem um comportamento homogêneo. Na escola particular ele exige do aluno, dá aula com qualidade, está disponível para reforçar conhecimentos. Na escola pública, ele apenas cumpre seu horário. Há exceções? Claro!

Quando a gente avança no ensino superior, objeto desse texto, parece que estamos a anos-luz da civilização. Não falo apenas de graduação, falo da pós-graduação também, porque, até antes da pandemia, os programas de pós-graduação lançavam seus editais e a disputa era acirrada. Pedia-se uma prova de conhecimento, produção acadêmica com artigos publicados em revistas de impacto, tudo isso era convertido numa nota que tinha uma ponderação para aprovar ou não o candidato. Geralmente, 15 vagas para mestrado e 6 para doutorado. Parece brincadeira, mas há casos nos quais temos mais vagas do que candidatos.

O que mudou? A pandemia? Não creio que possamos ser taxativos com isso. A pandemia incentivou as aulas remotas e muitos alunos que se deslocavam de outros estados para cursar mestrado em outro centro, já atuavam com professores de faculdades privadas ou, até mesmo, tinham suas atividades profissionais bem definidas. O custo de sair de Campo Grande para estudar em Recife, por exemplo, tornou-se expressivo.

Depois de tudo isso, vem a qualidade dos trabalhos e aqui falo de dissertações, teses, artigos produzidos que passaram a atender demandas ideológicas, não demandas científicas, ou dito de outra forma, a minha impressão é que o produto de um mestrado ou doutorado não paga o custo da bolsa de estudos que o aluno recebeu. São produtos específicos para fortalecimentos de ideologias políticas. A tese do Jorge Messias, por exemplo, com todo respeito ao seu trabalho, fala do “golpe” sofrido por Dilma. Isso tem uma orientação e além do orientador há mais quatro membros para avaliar o trabalho. E eles aprovaram a tese.

Vi coisas estapafúrdias. Uma delas foi a abertura de um curso de pós-graduação em Etnoafromatemática. Honestamente, o que isso pode contribuir para que nosso aluno, no futuro, saiba resolver um problema de trigonometria, de análise combinatória ou de limites de funções? Essa semana li um texto que falava de um pesquisador que fará um pós-doc discutido, pasmem, o “cristofascimo bolsonarista”. Eu não abordo isso pela referência ao nome de Bolsonaro, mas pela inutilidade da aplicação de uma pesquisa dessa natureza. Confesso que tive dificuldade em entender o que porra significava cristofascimo (voltei ao meu tempo adolescente quando tentei entender o quer era o nirvana).

“Cai de boca no meu bucetão”, “Cuz prolapsados” são alguns temas de defesa de dissertações que estão aprovadas por aí. Tem outras esquisitas também, basta procurar. Também gostaria de deixar claro que não tenho contra as pessoas que buscam a área de humanas para estudar. Eu acho que a gente precisa entender o Homem que tudo não é, apenas, máquina. Mas, não deixa de me entristecer essa loucura.

Se continuar assim, estaremos fadados a ser meros pigmeus. Nenhum avanço, nenhuma métrica coerente, nem candidato a Nobel. Como dizia Roger de ultraje a Rigor, “inúteis, a gente somos inúteis” e a IA vai mostrar isso, dentro em breve.

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