OS TIROS
O que vou contar aconteceu de fato. Talvez sirva para lembrar que longos afastamentos da pessoa de seus métodos habituais perante o mundo circundante podem ser considerados distúrbios ou alterações mentais. Esses comportamentos, geralmente acompanhados de atitudes que afetam a forma de pensar, de agir e de sentir as sensações ou os sentimentos, de uma hora para outra, resvalam a estados fora de controle da razão. Esses casos nem sempre surgem com características psiquiátricas complexas ou indefinidas capazes de implicar aparecimento de atos ou de ações perigosas para o paciente ou para as pessoas que com eles convivam ou tenham de relacionar-se.
Quando tais ocorrências aparecem os cuidados devem ser redobrados, porque os portadores de estados anormais de comportamento são passíveis de apresentar situações em que se manifestam nos primeiros lances mediante atitudes de perjuros, mentiras, subtração de coisa alheia móvel, imposturas, etc. Cautela, acima de tudo. No entanto, não devemos confundir “loucura sadia”, ou seja, aquela forma de ver a vida com entusiasmo e alegria com a doença mental, que, quase sempre, se caracteriza pela restrição da saúde e por profundas perturbações da alma.
Ao longo da vida já presenciei fatos curiosos de loucura. Um deles ocorreu no tempo em que morei próximo de um asilo. Ali, certa feita, eu e um amigo – para provar que menino leva consigo reservas de coragem, inocência e aventura – resolvemos entrar sorrateiramente pelo portão principal na hora das visitas. O objetivo era ver de perto e, se possível, conversar com algum “doido”. Para nós, então, os pacientes eram apenas “doidos”.
Sem grande esforço, conseguimos chegar aos locais onde animadamente eles se encontravam com parentes ou amigos. Num banco próximo, um senhor de boa aparência, solitário e triste, sentado, imóvel, pernas cruzadas, olhar perdido no horizonte, parecia meditar ou amargar o fato de não ter chegado ninguém para visitá-lo. A cena nos comoveu. Nós nos aproximamos dele e, de imediato, ele mudou de postura e, com um sorriso, começou a conversar conosco de modo equilibrado e ajuizado. A certa altura, disse que estava ali há vários anos, porém, por fim, chegara o dia de voltar para casa. Acabara o seu cativeiro.
Após alguns minutos, temendo represálias do fiscal do asilo, resolvemos nos despedir do senhor que, a nossos olhos, não demonstrava nenhum sintoma de loucura.
– Quando o senhor irá sair daqui? – perguntei.
– Sairei no dia 40 de fevereiro do ano passado… – disse com alegria.
Assustados com a resposta, saímos dali correndo sem olhar para trás.
Outro dia numa de minhas caminhadas pela praia, em certo momento, comecei a ouvir tiros. Logo notei que eles soavam surdos, sem o estalo típico da explosão da pólvora ao resistir os materiais metálicos das armas de fogo.
Ao me aproximar do local de partiam os tiros, verifiquei que, sentado junto a um senhor, já maduro e com o semblante triste, postava-se um homem jovem, forte, bem vestido e de músculos avantajados. Com a mão direita levantada, como se portasse revólver ou pistola, ele disparava tiros em direção a cada pessoa que passava, reproduzindo, ao mesmo tempo, os sons característicos dos tiros, que se sucediam conforme a quantidade de pessoas que, naquele instante, passava em sua frente.
Fiquei a observar a estranha cena. A seguir, avancei. Enquanto caminhava, eu refletia sobre os motivos que levavam alguém a matar simbolicamente tanta gente numa manhã ensolarada à beira-mar. Será que àquele homem, afetado pela loucura, chegavam os prazeres desfrutados pelos matadores em série? Ou será que apenas lhe animava representar o papel dos generais que, ao atuarem em guerras convencionais, elevam suas glórias conforme o acúmulo das “baixas” de vidas ceifadas ou mutiladas para sempre por causa do horror da guerra? Eles, afinal, recebem galões dourados nos ombros, comendas e medalhas em seus peitos e são considerados heróis da pátria nas páginas de história.
Quando retornei, vi o “atirador” no mesmo lugar. Então, constatei que ele dormia plácida e tranquilamente com a cabeça apoiada sobre o ombro do homem postado a seu lado. Não me contive e, aproximando-me com cautela, o interpelei em voz baixa:
– Senhor, o rapaz dorme ou sente algum incômodo?
– Ele dorme. Em dado momento, quando ele cansa, fecha os olhos e, então, para ele chegou a noite; quando acorda pensa que voltou o dia outra vez.
– Ele age sempre assim?
– Não. Só quando se cansa de atirar. Antes de fechar os olhos e adormecer, como se fora o tiro de misericórdia, ele grita: “Agora, bomba atômica… Puuumm”. Então, acha que matou todas as pessoas. Fecha os olhos e, como pensa que chegou a noite, dorme.
– Quando ele acorda e vê as pessoas vivas, passando para lá e para cá, como reage?
– Não faz nada. Ele supõe que são apenas almas. É como se não visse ninguém. Ele fica calmo e resolve voltar para casa. Cumpriu sua missão. No outro dia, chega aqui e repete a mesma cena.